Pirâmide invertida, só que ao contrário
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Pirâmide invertida, só que ao contrário

Redação

06 Outubro 2011 | 15h55

“A Pirâmide Invertida” (1993), do escritório de arquitetura nova-iorquino Pei Cobb Freed & Partners, no Museu do Louvre, em Paris – Foto: Stefan van Bremen / Creative Commons

Se você, internauta, for jornalista, já sabe sobre o que será este post só de ler o título acima. Se você não for jornalista, relaxe. Uma rápida busca por esse termo no Google lhe traz a resposta: a pirâmide invertida é uma técnica de redação de meados do século XIX para jornais impressos hierarquizarem dados. Sob esse sistema, as informações mais importantes sobre um fato (o que aconteceu, quem estava envolvido, onde, quando e como aconteceu) devem ser apresentadas no primeiro parágrafo, o lide. As causas do acontecimento noticiado, seu contexto histórico e personagens secundários aparecem apenas no restante da reportagem. O modelo foi concebido no auge do telégrafo, quando, caso fosse preciso mais espaço numa página, bastava arrancar os últimos parágrafos dos textos, pois as essências das novidades continuariam lá.

Mas a pirâmide invertida funciona no século XXI?

O filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831) disse, há cerca de 300 anos — época em que surgiram os jornais impressos como os conhecemos hoje —, que a leitura diária de jornal era “a oração do homem moderno”. No entanto, atualmente os “credos” são muitos e as “orações” também. É possível se informar pela televisão, pelo rádio, pelos portais de notícias, pelo celular etc.

Apresentar aos cidadãos toda manhã um “produto” só com acontecimentos do dia anterior parece desfasado e preguiçoso. As empresas jornalísticas ainda não têm solução definitiva para esse desafio e nunca antes a técnica da pirâmide invertida pareceu tão sem sentido nem tão danosa para se registrar fatos em tinta e papel.

Conforme os textos dos 30 focas são corrigidos por diferentes professores ao longo do Curso Estado de Jornalismo, sentimos que o meio impresso exige um elemento especial: estilos. É imprescindível seguir rigorosamente a norma culta da língua e apurar a maior quantidade de dados possível em qualquer formato midiático. Já na palavra escrita, não tem jeito: o que seduz pra valer são os estilos — assim, no plural, porque o escrever de forma diferente vem do pensar diferente, e pensar de outro modo é algo de que o jornalismo sempre carece.

Eu havia terminado de escrever este post quando fui, com quatro colegas do curso, à palestra “O Texto Jornalístico na Reportagem em Profundidade” nesta terça-feira, 4, parte da 19ª Semana de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero. Lá, o repórter Christian Cruz, do caderno Aliás do Estadão, defendeu que a função do lide não é necessariamente mostrar todas as informações primordiais logo de cara, mas seduzir o leitor, que pode se abastecer dos demais dados ao longo da reportagem (se esta estiver bem escrita). Seria uma visão romântica demais, talvez, não estivesse Cruz sentado a menos de um metro de Klester Cavalcanti, editor-chefe do Estadão.com.br, à mesma mesa de exposição. Cavalcanti comanda o portal sem deixar de exercitar a verve narrativa. É autor de “Direto da Selva”, “Viúvas da Terra” (pelo qual ganhou o Prêmio Jabuti na categoria reportagem e biografia, em 2005) e “O Nome da Morte”. Diante disso, naquele auditório universitário, veio a mim — e, suspeito, também aos meus quatro colegas — a ideia de que a pirâmide até funciona. Por ora. Quanto mais avançam os tempos, porém, mais vale explorar outros sólidos geométricos e outras posições, além da pirâmide e da ponta-cabeça.

José Gabriel Navarro, de 22 anos, é formado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo e cursa pós-graduação lato sensu em Globalização e Cultura na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo