‘Por que fazer um gráfico para esse assunto?’: a metodologia do Nexo Jornal
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‘Por que fazer um gráfico para esse assunto?’: a metodologia do Nexo Jornal

Iniciativa trouxe ao Brasil modelo de jornalismo de contexto com produtos multimídia

Redação

26 Outubro 2017 | 21h13

Por Caio Sartori

Doutora em Antropologia pela USP, a cientista social Paula Miraglia usou a experiência em temas como segurança pública e urbanismo para criar um dos produtos mais criativos do jornalismo brasileiro: o Nexo Jornal, que foi apresentado por ela na 12ª Semana Estado de Jornalismo. Fundado em parceria com um jornalista e uma engenheira no final de 2015, o site aposta em formatos inovadores, com destaque para gráficos de assuntos variados. Para isso, conta com redação de 30 pessoas em São Paulo – entre elas, muitos não-jornalistas, que colaboram para a diversidade do conteúdo.


 

Paula Miraglia, do Nexo

A ideia desde o início era criar um jornal diferenciado, com modelo inédito no Brasil – focado no contexto, de modo a complementar as hard news. Antes do lançamento, foi feita pesquisa de 1 ano e a redação funcionou por dois meses e meio sem o site entrar no ar. “Foi super importante lançar já com o modelo consolidado. Mas tínhamos essa ansiedade de ser os primeiros (nesse modelo). E acabou que fomos. Mas é claro que não inventamos o jornalismo de explicação.”

A inspiração veio de uma miscelânea de veículos jornalísticos. Quanto ao modelo, a referência mais óbvia é o site norte-americano Vox, que produz gráficos interativos e vídeos explicativos em abundância. Mas também houve influência da Quartz e de jornais mais tradicionais como o New York Times e o Financial Times. “Foi um inventário de grandes referências para criar um modelo próprio”, diz a diretora do Nexo.

Com esse foco no jornalismo de contexto, o veículo tem linha editorial bem perceptível. A escolha das pautas, segundo Paula, é a forma do site se posicionar – sempre com equilíbrio de fontes e opiniões. A quantidade de não-jornalistas ou de jornalistas com formação complementar em outras áreas contribui para a eficiência do modelo de jornalismo adotado, diz. “Seja do ponto de vista do repertório, dos interesses, das habilidades ou da conversa que se tem na redação, que é muito variada e produtiva.”

O Nexo aborda com profundidade temas como urbanismo, preconceito racial, questões de gênero, causa indígena e quilombola, entre outros. A colaboração entre as equipes de editorial, de tecnologia e de arte é constante e está no DNA do jornal, aponta Paula. E as experiências de cada um convergem no produto final. “Tem um momento da pauta em que é todo mundo junto: concepção, execução, implementação. Isso se traduz naquilo que temos capacidade de produzir.”

Enquanto o jornalismo de dados é mais associado à política e à fiscalização do poder público, o Nexo também elabora gráficos inusitados por meio do levantamento de informações. Um deles, por exemplo, ilustrou o ritmo e o estilo de alguns clássicos da literatura brasileira. “Não tem limite, não pode ter preconceito com a pauta. A pergunta é: por que fazer um gráfico para esse assunto e que informação nova estamos trazendo com ele?”, ressalta a diretora.

Outro produto forte do Nexo são as newsletters. A diária, ‘a_nexo’, é o carro-chefe – e é gratuita, assim como a semanal. Há ainda uma exclusiva para os assinantes do site, que funciona por meio de paywall. Os leitores têm direito a cinco matérias por mês antes de precisar pagar pelo conteúdo.