Sobre café, cigarros e jornalismo
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Sobre café, cigarros e jornalismo

Redação

28 Outubro 2010 | 16h30

Ontem, 27, alguns focas tiveram uma grata surpresa ao entrar na sala. A mesinha com duas garrafas de café, o adoçado e o puro, estava lá dentro, logo depois da primeira fileira. Nos dias anteriores, o ato de sair para pegar um cafezinho era, paradoxalmente, uma pausa para o relaxamento. Ao redor da mesinha, nos reuníamos para comentar a aula, uma pauta, ou simplesmente lamentar o acúmulo de roupa suja por causa da atribulada rotina do curso.

Ontem, não. Sem pudor, as duas garrafas de dois litros – que muitas vezes acabam – estavam lá, como que nos dizendo: vocês não têm como fugir.

Por isso, em tempos de pesquisas, resolvi fazer uma sobre o assunto entre os parceiros de curso. Sem surpresa, descobri que só 4 dos 30 focas não tomam café. Surpreendi-me com a porcentagem de quem diz tomar só um pouco: cerca de 40%. Mas aí vem uma foca e embola os números: ela diz que não vive sem, chega a tremer. Um estudo inglês publicado na Nature disse que os viciados em café precisam dele para ficar em estado normal. Ela deve estar sofrendo.

O café sempre fez parte do imaginário sobre o jornalismo. Basta ver filmes, caricaturas, histórias sobre a profissão. Além de nos manter atentos e concentrados (não, não estou ganhando nada para escrever isto), faz parte da cultura profissional. E parece que estou certo quando faço essa ligação ao observar o dia a dia do jornal.

Bem no centro da redação encontram-se duas grandes máquinas, que vendem todos os tipos de café, do descafeinado ao mocaccino. Quem trabalha aqui ganha 12 vale-cafés por mês. “Os meus acabaram na primeira semana”, disse ontem uma funcionária que esperava o seu. Outro número impressiona: o restaurante do jornal produz e distribui mais de 240 litros de café por dia!

Em outra situação está mais uma “-ina” que também faz parte de qualquer imagem clássica da profissão: a nicotina. Mas é uma posição bem menos confortável. O cigarro não faz mais tanto a cabeça dos jovens jornalistas. No começo do curso, tínhamos dois fumantes entre os focas. Ambos resolveram largar o vício recentemente. Foram aplaudidos.

E isso não foge tanto do contexto do resto do jornal. Afinal, há cerca de dez anos o cigarro foi abolido da redação do Estado. Primeiro foram os fumódromos. Um deles, aliás, ficava ao lado das máquinas de café. Hoje, nem isso. Mesmo assim, para mim, imaginar um fio de fumaça em uma redação ainda parece mais plausível do que o aviso permanentemente aceso nos aviões. Outros tempos.

Mas o vício ou o gosto por café e cigarro são só algumas das consequências de outra substância de que, esta sim, nenhum jornalista consegue fugir: a adrenalina. Todo dia que precisamos fechar uma matéria para o curso, por volta das 23h, ela sobe. Mas se não nos estressamos com essa pressão – pelo menos um pouco – para ter a melhor informação e o melhor texto, não ficamos satisfeitos com nosso trabalho. Permanecemos conectados, atentos a tudo, pelo bem do leitor.

Nesta rápida pesquisa na sala dos focas, houve paridade no resultado sobre quem se considera estressado: metade acha que é mais aflita que o resto. Por isso, também não me impressionei com as respostas sobre quem bebe. Só três não apelam para a cervejinha para relaxar depois do expediente. Pelo menos dois deles estão entre os que não se consideram estressados.

De qualquer maneira, toda essa divagação sobre as “-inas” da profissão realmente não importa. Quem pretende ser foca ou simplesmente fazer jornalismo, como disse Chico Ornellas, precisa mesmo é se dedicar e cultivar o hábito da leitura. Acompanhado de uma grande xícara de café ou não.

Henrique Bolgue, de 27 anos, é formado em Jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB), onde também cursa o último semestre de Audiovisual

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