Sobre o óbvio
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Sobre o óbvio

Redação

18 Outubro 2010 | 08h47

Lembro de uma entrevista com o cineasta alemão Wim Wenders na qual ele falava sobre a relação do homem com o óbvio. Para ele, pessoas pródigas em qualquer área possuem domínio pleno sobre informações contidas nas entrelinhas. Wenders condena o explícito.

O jornalismo se propõe a tornar óbvio um fato implícito sem fazer uso de obviedades do português. Cabe ao jornalista administrar informações decorrentes de uma realidade que se impõe, sem esquecer de fundamentos impostos. Temos de ser claros, objetivos e imparciais e questionar cenários compostos por fatos aparentemente auto-explicativos.

Eu e meus 29 companheiros de curso sabatinamos uma bióloga especialista em estudos relacionados ao câncer. Tivemos uma hora para transformar duas horas de conversa em 30 linhas. Trabalho entregue: cada um encontrou sua notícia, mas a sala foi inundada por tempestades de “é” e “que” vindas de todos os textos. Matérias corretas, mas empobrecidas pelo uso de recursos óbvios da língua.

Exercícios como esse clareiam, para mim, a concepção de jornalismo como uma batalha contra o explícito linguístico e o implícito noticioso. O cotidiano frenético das redações impede momentos de reflexão como esse. Um dos privilégios propiciados pelo curso consiste em conciliarmos o pensar na profissão enquanto a exercemos cotidianamente.

Wim Wenders trabalha com cinema. Aliás, ele produz filmes pouco convencionais. Ser pródigo dentro dos princípios dele talvez não se aplique no contexto do jornalismo. Mas não deixa de ser um raciocínio instigante. Assim como o curso, faz pensar. E só por isso já vale a pena.

Ramon Vitral, de 24 anos, é formado em Jornalismo pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CES/JF)

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