A fita do Sapiência

A fita do Sapiência

Morris Kachani

15 Fevereiro 2018 | 15h17

(Foto: Renato Stockler)

Por Mateus Jun e Pedro Dan

“O público de rap é dogmático. Tem um peso histórico, contexto social e tudo o mais, mas você não pode dizer, que o rap é protesto”.

“…no momento atual, as pessoas querem muito mais: elas querem uma música agradável, querem ter uma identificação visual com o artista, de poder falar: ‘putz, me amarro no cabelo, na roupa’; e junto com a identificação visual tem a atitude, tanto é que hoje em dia a gente vende a música não só com o áudio mas também com a imagem”.

“Eu acho que a violência aparece na minha música, só que de outras formas. Eu combato a violência. Acredito que existam outras formas da gente reivindicar; a gente já é bastante violentado no geral, a gente passa por uma série de violências diárias que resultam nas nossas condições econômicas, que resultam no lugar que a gente mora, que resultam no ensino que a gente tem. Então quando a gente consegue se reunir, quando a gente consegue dançar, quando a gente consegue ser a gente mesmo, quando a gente consegue amar o nosso cabelo, amar a nossa cor, os nosso traços, quando a gente consegue ser feliz, isso também é uma afronta, isso também é um combate à violência”.

“É impossível você ser da periferia, você ter esse perfil, esse biotipo ‘pretóide’ e não ser abordado pela polícia”.

“O rap é machista demais. E ele é machista mundialmente falando. É deplorável isso, mas o martelo pra mulher, infelizmente, é mais pesado… a mulher ainda tem que fazer duas, três, quatro vezes melhor do que os caras pra ela conseguir se destacar dentro do rap”.

“No meu ponto de vista, o rap é o estilo musical que tem hoje os maiores letristas, coisa que no passado era algo majoritariamente do samba e da música popular”.

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Fui me encontrar com o rapper Rincon Sapiência pra bater um papo em sua casa, na Zona Norte de São Paulo. Ao chegar no endereço combinado, foi o próprio quem me recebeu: vestindo chinelo, camiseta lisa e uma calça de moletom, de imediato me surpreendi ao vê-lo na sua “versão dia a dia”, sem os adereços e roupas bastante coloridas que são sua característica.

Com olhar cerrado e fala mansa, ele me perguntou, muito educadamente, se eu queria almoçar com ele e com sua família. Por já ter ido almoçado, tive que declinar o arroz com feijão e bife que Seu Carlos, o pai de Rincon, havia preparado. Esperei por ele em sua sala de estar, onde fiquei assistindo uma coletiva com o presidente do Flamengo em algum canal de esportes.

Assim que Rincon terminou seu almoço, iniciamos a entrevista. O local escolhido foi o quarto do músico, e ele era bem próximo daquilo que eu imaginava: alguns instrumentos que ele provavelmente usa para gravar as guias musicais, roupas espalhadas pelo cômodo, dando a impressão de alguém que testa várias peças antes de sair de casa e a cama por fazer, afinal, Rincon é gente como a gente.

Nascido na Zona Leste de São Paulo, mais precisamente na Cohab 1 em Itaquera, Danilo Albert Ambrosio, 32 anos, também conhecido como Rincon Sapiência ou Manicongo, é um dos nomes mais comentados da música brasileira atual. Seu nome artístico tem diferentes origens: Rincon é um apelido que ganhou na quebrada, em homenagem ao notório jogador de futebol colombiano Freddy Rincón, famoso pelas suas passagens no Palmeiras e Corinthians na década de 90. “Sapiência” foi escolhido pelo próprio, a fim de transmitir a ideia de sagacidade; Já “Manicongo” faz referência aos reis e monarcas de um território junto a Angola chamado “Império do Congo”.

Antes de ser rapper, Rincon foi panfleteiro, office-boy, operador de telemarketing e trabalhou em vários outros empregos que ele mesmo define como “temporários”.

Rincon é um expoente da nova geração, que curtiu Justin Timberlake, Backstreet Boys, que acompanha Anitta, Pabllo Vittar. Portador de uma nova mensagem sobre o rap. Para ele, o gênero não pode ser definido como música de protesto. “A gente vende a música não só com o áudio mas também com a imagem”.

Vivendo da música desde 2010, foi com o hit “Ponta de Lança”, lançado no ano passado, que o artista bombou e passou a ser conhecido pelo grande público. Venceu o prêmio APCA na categoria artista do ano, em 2017.

Em suas letras, Rincon exalta as raízes africanas e denuncia, de maneira intrínseca em suas letras, as questões raciais e sociais que os negros enfrentam no dia a dia. Mesclando elementos da música africana, jamaicana, do rock, do reggae e do afrorap, o Manicongo joga rápido com as palavras e faz um tipo de som único e inovador, cravando, desta forma, o seu lugar no topo do cenário musical brasileiro. Pesquisador musical, como o próprio se define, conversamos sobre música, política, infância e até sobre Pabllo Vittar.

*

Rincon Sapiência, conhecido também como Manicongo, certo?

Certo.

Rincon, para aqueles que não te conhecem, quem é o Rincon Sapiência?

Quem é Rincon Sapiência? Nossa, nem eu tô sabendo (risos). Bem, o Rincon é um jovem nascido e criado na Cohab 1, zona leste de São Paulo, cantor de rap e pesquisador de histórias.

Em relação à questão da popularidade do rap, você consegue enxergar um motivo, alguma explicação pra isso?

Eu acho que o rap se tornou um gênero muito popular porque tem pego os lugares mais variados da música. Você, tendo um ouvido refinado, querendo ouvir boas harmonias e um vocal incrível, consegue isso ouvindo rap. Você quer ouvir um som mais jazz, mais blues? Encontra também no rap. Você querendo ouvir uma música club, quer ferveção, beber, a parada toda? Você chega nesse lugar no rap. Além disso, no meu ponto de vista, é o rap o estilo musical que tem hoje os maiores letristas, coisa que no passado era algo majoritariamente do samba e da música popular. Então eu acho que é isso, o rap consegue ocupar todos esses lugares.

Fora o estilo de vida doida de “rockstar”…

Pois é, ainda tem esse lance de rockstar mesmo, de loucura, de bater cabeça, de viver intensamente, e tudo o mais. Agora a gente tem esse lifestyle no rap, que até então era exclusivo do rock, saca? O rap acabou assumindo os lugares mais diversos possíveis dentro do entretenimento.

Você fala, em Ponta de Lança, “as Paty derrete que nem muçarela”. O rap hoje toca uma realidade muitas vezes alheia a grande parte de seu público consumidor. É um pouco isso também?

Eu acho que hoje em dia a música tem um apelo muito diferente. Não que hoje em dia a gente não tenha girlband e boyband, ainda tem, mas antes você botava umas carinhas bonitas no palco, uma música palpável e com isso você conseguia empurrar pro público, e dava certo. Mas no momento atual, as pessoas querem muito mais: elas querem uma música agradável, querem ter uma identificação visual com o artista, de poder falar: “putz, me amarro no cabelo, na roupa”; e junto com a identificação visual tem a atitude, tanto é que hoje em dia a gente vende a música não só com o áudio mas também com a imagem.

É verdade…

O público acompanha a sua atitude, a sua forma, o seu jeito de agir e tudo isso conta, no que você representa socialmente e politicamente também. Mesmo uma pessoa de classe média que vive avessa a essa realidade, se identifica e fica curiosa: “Pô, que lance interessante”, e passa a gostar também.

Você no começo da entrevista citou a Cohab 1. Como foi nascer e crescer lá?

Ah, os anos 90 foram um período muito mais tranquilo se comparado a hoje em dia. Ainda que a economia não tivesse tão boa, onde os menos privilegiados eram ainda menos privilegiados, a Cohab 1 tinha um equilíbrio massa, o bairro não era tão violento como outros bairros vizinhos ali da Zona Leste e ali foi um lugar que eu conheci muito a cultura da música.

E como era lá?

Eu morava em frente a uma praça que era praticamente o meu quintal, era só atravessar a rua. E lá rolava de tudo: era futebol em cima, umas mesinhas lá embaixo com truco e samba, na quadra do lado tinha a galera do skate, no quadradão mais pra cima rolavam os shows…

Você descrevendo assim parece ter sido um lugar bem aprazível…

É, por mais que a periferia não seja um ambiente que estimule muito o conhecimento e o contato com a cultura, eu tive o privilégio de ter tido bastante contato com a arte, o que me ajudou bastante na minha formação musical e cultural.

Rincon, como é a relação do negro pobre da periferia com a polícia?

Cara, preto e pobre de periferia é um padrão antigo, até porque existe uma orientação na qual o perfil do suspeito é sempre o preto, é o que eles chamam de pardo também. É impossível você ser da periferia, você ter esse perfil, esse biotipo “pretóide” e não ser abordado pela polícia.

E foram muitas abordagens?

Então, desde muito novo eu sempre passei por abordagens policiais, isso sempre foi algo comum pra mim. Até porque na minha infância, na adolescência, eu tava na quadra jogando bola, ia pro fliperama às vezes, e quando você mora na periferia, circula muito pelas ruas, é muito óbvio que aconteçam as abordagens. É uma realidade infeliz, mas acontece muito no Brasil como um todo.

Você é filho da Dona Ivani e Seu Carlos, que segundo você mesmo, provavelmente se conheceram num baile da época. Você nasceu, portanto, num berço musical. Como é que foi o seu primeiro contato com a música?

O meu primeiro contato foi num ambiente de família mesmo, onde eu fui apresentado aos discos e também ao rádio, que eu ouvia bastante, então o ambiente de casa sempre foi bem musical. Paralelamente a isso, eu tenho um tio que é técnico, ele trabalha com eletrônicos. Ele trabalhava arrumando muita coisa, antenas, videogame, videocassete, aparelho de som. E no começo dos anos 90 meu tio mexia nas antenas e conseguia acessar a MTV e gravava uns clipes pra gente. Então desde pequeno eu tinha o hábito ouvir e de assistir música através dos clipes.

E o rap?

O rap veio através do meu irmão mais velho. Ele era adolescente na época e já era um pesquisador de música, sempre foi o cara, musicalmente falando, que foi dando o avanço na minha casa. Ele trampava de office boy e com a grana que ganhava comprava os discos, os aparelhos de som, as roupas. Então o meu irmão, pra mim, foi uma espécie de desbravador.

E pop? Você ouve?

Eu gosto. Uns mais outros menos, mas a música pop tem elementos interessantes, que flertam com o rap. E desde sempre eu acompanhei minimamente o pop; não era um fã, mas eu sabia, por exemplo, do Backstreet Boys, do N’Sync, acompanhei o Justin Timberlake iniciando a carreira solo…

Anitta e Pablo Vittar, como te soam?

Eu acho incrível o trabalho delas. No Brasil a gente sempre careceu de uma música pop mais sólida, e eu acho que a Pabllo e a Anitta tem feito um trabalho pop bastante consistente. Não só elas, claro, a gente tem também a Ludmilla, a Iza, entre outros. E além de eu achar interessante o trabalho delas, eu enxergo um diálogo do pop com o rap, acho que são músicas que se conversam muito bem.

E tem algum estilo de música que você não ouve?

Na música brasileira radiofônica contemporânea, tem muita coisa que eu não gosto, mas isso independe do gênero musical. Tem um gênero em especial que eu não gosto, mas essa informação eu vou deixar no ar (risos).

A questão da violência e principalmente da droga não é um tema muito presente na sua música. Isso é uma escolha do Rincon ou de fato são questões que nunca fizeram parte da sua vida?

Eu acho que a violência aparece na minha música, só que de outras formas. Eu combato a violência. Acredito que existam outras formas da gente reivindicar; a gente já é bastante violentado no geral, a gente passa por uma série de violências diárias que resultam nas nossas condições econômicas, que resultam no lugar que a gente mora, que resultam no ensino que a gente tem. Então quando a gente consegue se reunir, quando a gente consegue dançar, quando a gente consegue ser a gente mesmo, quando a gente consegue amar o nosso cabelo, amar a nossa cor, os nosso traços, quando a gente consegue ser feliz, isso também é uma afronta, isso também é um combate à violência.

Não necessariamente ao combater a violência você precise apontar os vilões, agredi-los com palavras, eu penso que você pode propor outras manifestações que combatam a violência. Quando eu convido as pessoas pra dançar, quando eu convido as pessoas pra amar, quando eu convido as pessoas pra refletir através dos meus textos, através do que eu escrevo, quando eu convido as pessoas a sorrir, eu vejo isso como um combate à violência.

E o público de rap, como percebe isso?

O público de rap é dogmático. E o rap é dogmático por responsabilidade do próprio rap mesmo, em algumas partes, e isso ganha muita força também através de algumas pessoas por puro desconhecimento mesmo.

Como assim?

O rap tem um pouco disso, tem um peso histórico, contexto social e tudo o mais, mas você não pode dizer, isso claro que no meu ponto de vista e em base naquilo que eu já vi e assisti, que o rap é protesto.

Não?

Olha, ele tem o protesto na sua raiz e o protesto pode aparecer de várias formas, protesto não é só você falar: “contra o sistema”, ou contra qualquer coisa. Pra protestar, você pode por uma peça de roupa e isso ter uma força de protesto muito grande, por exemplo. Então o público é meio dogmático de imaginar e cravar que tal coisa não combina, que tal coisa não tem nada a ver. E eu acho isso lamentável. Tem gente que conheceu o rap há dois anos e que vai lá no perfil do Brown (Mano Brown) falar um monte, não só no dele mas também no meu e no do outro, no de pessoas que tem uma história muito maior de pesquisa e estudo. Não que a gente não possa ser contestado, obviamente que podemos, mas tem que ter base pra isso.

Rincon, eu li numa entrevista que quando mais novo, seu sonho era ser jogador de futebol, e que inclusive a sua família dava um puta apoio. Como foi esse momento em que você “declinou” desse sonho e disse “o que eu quero é a música”?

Olha, foi um momento bem complicado… Porque futebol é um esporte em que você tem várias referências de pessoas se dando bem profissionalmente, e, naquele período, você não tinha essas referências no rap, de um artista bem estruturado profissionalmente e financeiramente, aliás, pra não dizer que não tinham, tinham mas eram muito poucos, na real. Então foi bem complicado esse choque com a família, fora que isso rolou no período da adolescência… (risos). E o adolescente dá aquele trabalhinho pro pai, pra mãe, tem aquela rebeldia toda.

Antes de ser Rincon Sapiência, você era o Danilo Albert Ambrosio. Você trabalhou como operador de telemarketing, estoquista, panfleteiro. Como foi essa época?

O primeiro de todos foi office-boy, eu trampava de manhã e estudava de noite, foi bem no início da minha carreira musical, um pouquinho depois de começar a compor e formar banda.

E você gostava?

Olha, pra falar a verdade eu gostava bastante, porque eu ficava andando pra cima e pra baixo pelas ruas, e hoje em dia eu ando pra tudo quanto é lugar, tenho um conhecimento de Centro, de São Paulo, muito grande graças a isso. Era bem legal, mas eu ganhava muito pouco. Aí os demais empregos, com a exceção do Telemarketing, que eu ainda fiquei um tempo razoavelmente bom, foram só coisas que não duraram muito. Eu não aguentava. Eu ficava um mês, dois, três no máximo e não conseguia dizer: “esse é meu trampo, vou começar a gerar a minha vida a partir disso”. Eu não rendia, não gostava, foi bem difícil a minha relação com o mercado de trabalho.

E como era o Telemarketing?

O Telemarketing eu consegui levar até certo ponto, tinha carteira assinada e tudo o mais, mas também não dava conta… Eu deixava a ligação cair de propósito, transferia indevidamente, eu dava as minhas manobras (risos).

Você disse, certa vez, que uma viagem sua pra África em 2012 foi um divisor de águas. Queria que você comentasse um pouco como se deu essa viagem.

Eu fui pra África através de trampo mesmo, era um festival, com pessoas do mundo todo, da Europa, da América Central e América do Norte. Eu fui através de um amigo meu, Alexandre Keto, um cara incrível que trabalha com grafite e viaja o mundo todo, ele trabalha muito com o lance social. E a gente tem pouca referência de grafite no continente africano, então o trabalho dele é diferenciado nesse sentido também. Uma vez ele foi pro Senegal, numa dessas viagens pelo mundo todo que ele faz, e ele fez um esquema lá com a embaixada local. Ele me levou como MC, levou uma B-girl e um DJ, e a gente foi nesse quarteto brasileiro, cada um representando um elemento da cultura hip-hop (MC, DJ, B-boy/B-girl e Grafite).

Interessante…

E chegando lá foi muito massa, porque eu fiquei em um hotel com a estrutura de uma casa, no meio de um bairro local, e isso me fez criar uma rotina. Eu acordava, pegava um pãozinho, tomava um café, via as crianças indo juntas pra escola… Fora o lance de eu estar em um lugar muito especial, eu tava numa condição especial.

E dentre os inúmeros momentos incríveis que vivi, trouxe como referência pra minha música alguns elementos musicais deles, como o berimbau, que na época eu ainda não tinha nas minhas músicas. Decidi utilizar a linguagem afro brasileira mesmo, mesclar ao rap, a elementos da modernidade, sintetizador e tudo o mais. Eu percebi nessa viagem que as pessoas se identificaram muito com o meu som, mesmo sem entender nada, e foi ali que eu notei que se eu investisse nessa parada eu teria um horizonte muito amplo a ser explorado.

E deu certo.

Não deu outra! A gente lançou o álbum (Galanga Livre) e no mesmo ano que a gente lançou o álbum, a gente já tava em turnê na Europa. E dessa vez numa estrutura bem mais, profissionalmente e psicologicamente falando, madura do que a vez que eu fui para a África. E agora eu pretendo viajar todo ano pra fora, pra estar sempre aprendendo e trabalhando.

A gente tem alguns nomes femininos no rap nacional: temos a Flora Matos, a Drik Barbosa, Tássia Reis, Clara Lima, Taz Mureb, mas elas são minoria. O rap ainda é um gênero machista?

Demais. E ele é machista mundialmente falando. É deplorável isso, mas o martelo pra mulher, infelizmente, é mais pesado. Se você pegar uma mulher, você citou a Flora e a Tássia Reis, elas são pessoas que rimam muito bem, sabem cantar muito bem, tem um lance visual massa, uma atitude forte, uma postura marcante de palco e tudo o mais, e ao mesmo tempo tem vários caras que não têm isso, mas o trabalho deles é muito mais fácil de andar e ser reconhecido. E isso mostra como que a mulher ainda tem que fazer duas, três, quatro vezes melhor do que os caras pra ela conseguir se destacar dentro do rap. É lamentável, mas há de se reconhecer que o rap é um cenário machista, assim como são as áreas do entretenimento. Dói, mas é verdade.

Você fala muito da identidade visual, do seu apelo visual, e isso tá muito presente nos seus clipes, a maneira como você se coloca no palco, tem todo esse apelo estético. Você se considera um cara vaidoso?

Com certeza. Eu sou um cara vaidoso. A vaidade não tem a ver com você ser um cara fútil e superficial, mas sim com a sua ânsia de representar algo. E eu percebo isso no dia a dia. O lance da vaidade tá ligado a um lance de você querer se apresentar mesmo quando você não tá falando.

Rincon, a gente tá passando por esse momento do conservadorismo e hoje a gente tá num ano de eleição. Como é que você analisa o cenário atual?

Ah cara, é um cenário lamentável, e tem muito a ver com a falta de representação. A gente vem de um momento em que temos um presidente que foi escolhido de forma ilegítima, que foi escolhido por ninguém. Há quem diga que a gente escolheu, mas não escolhemos. Isso já deixa a sociedade um pouco sem chão, sem cara. Um paralelo que eu gosto de fazer é, e eu tenho muito respeito a ele como atleta, é a seleção brasileira do Dunga.

Seleção brasileira do Dunga?

É. Era uma seleção difícil de torcer, por mais que você gostasse, que você quisesse ver o Brasil jogar bem, você já sabia que jogar com 3 volantes não era o que ia botar o Brasil pra desfilar. Você até falava: “pô, vou assistir, vou acompanhar”, mas não tem como. E na política a gente vive a mesma coisa, o esquema tático e a proposta de jogo, ninguém quer. E fora isso tem um lance de educação que é um déficit que a gente tem. Boa parte das pessoas que tem apoiado ideias conservadoras, que tem ideias que flertam com os tempos de ditadura e esse tipo de coisa, são pessoas que mal sabem o que foi a ditadura, são pessoas que mal sabem o que são essas ideias militares que tão surgindo, o impacto que isso vai ter na vida delas, e essas ideias rolam nas classes mais pobres e nas mais abastecidas. A gente pensa que isso só rola com os mais pobres pela dificuldade de acesso a informação mas não, as pessoas mais ricas são tão tapadas quanto.

O nome do blog é inconsciente coletivo. Pra você, qual seria o inconsciente coletivo do brasileiro?

Eu acho que o inconsciente coletivo das pessoas, cada qual de uma maneira diferente, é a busca constante pela felicidade. A felicidade, infelizmente, ainda não é pra todos. Nem todo mundo consegue falar: “Eu sou assim, é isso mesmo e vambora”. Tem muita gente ainda se privando da sua própria felicidade, seja ela no relacionamento afetivo, na sua fé, na sua crença. O inconsciente coletivo do brasileiro é a busca pela felicidade. É isso e mete dança!