“Acho que o único lugar em que a mulher tem liberdade sexual é na cadeia”

Morris Kachani

10 Setembro 2017 | 07h25

Drauzio Varella e Marina Person conversam sobre a sexualidade nos presídios femininos.

M: Queria que você comentasse também a questão da homossexualidade nos presídios femininos, que é muito diferente, é um contraste muito grande das relações amorosas nos presídios masculinos e nos femininos. E aí tem uma parte do livro que você diz que essas relações se dão não por ausência de presença masculina, mas um pouco porque as mulheres têm mais liberdade para experimentar, ou expressar, a sua sexualidade.

D: No livro eu fui até mais radical. Acho que o único lugar que a mulher tem liberdade sexual é na cadeia. É verdade. As mulheres são reprimidas desde que nascem, então a sociedade fica em cima, a família, todo mundo controla a sexualidade feminina. Hoje, com toda essa liberdade que as mulheres têm, compara com a liberdade que os homens têm. Nem de perto é comparável. Elas vão pra cadeia. O que acontece ali? O fato de não ter homens, delas não terem relações amorosas com homens, lógico que é um fator que facilita esse comportamento sexual. Mas não explica completamente. Tem muitas que recebem visitas íntimas, e mantêm relacionamentos homossexuais. E não são poucas não, são muitas. O fato de você receber visitas íntimas não é garantia de que você não vai ter uma namorada na cadeia também.

Lá não tem repressão, não pode reprimir de jeito nenhum. Quem reprime, arranja um problema.


M: É proibido só pras irmãs do PCC…

D: Elas são proibidas, mas elas não podem reprimir. Elas não podem, de jeito nenhum. Elas têm que respeitar as outras, mas elas não podem ter esse comportamento. Porque são os homens que mandam nelas… o crime de direita (risos). É de extrema direita. Mas é interessante esse fenômeno.

M: Achei mesmo que é de direita, ainda mais em contraste com as cadeias masculinas, e toda a questão da moral, dos valores.

D: E a diversidade sexual feminina, né. Esse ponto que eu disse que a homossexualidade numa cadeia masculina pode ser descrita num parágrafo, um fácil e mísero parágrafo, que é aquilo, se resume à penetração e pronto. Com as mulheres é diferente. Você vê o número, você olha e tem umas com cara de homem, jeito de homem, aí fala, só “os sapatões”. Elas mesmas dizem “eu sou sapatão”, “sou casada com sapatão”. Aí as outras são “entendidas”. Agora “entendida” pode ser ativa, passiva, ou relativa. Você vê quantos tipos de sapatão tem? Sapatão original, foló, sacola. Vários tipos.  Todas têm uma classificação, todas são daquele jeito, e acabou. Quando você pergunta “você é sapatão original?”, “não, eu sou sapatão foló”. “Sacola” elas não falam, porque têm vergonha. São as outras que classificam (risos). “Não, sou sapatão foló, porque já tenho filho, já fui casada com homem, namorava homem. Na rua, eu era heterossexual. Aqui na cadeia que eu fiquei homossexual”.

M: E, às vezes, elas voltam para a heterossexualidade?

D: Às vezes elas voltam pra heterossexualidade. Original, não. E essa coisa da “original” não se deixar tocar, né, é muito louco isso. Eu nem sabia que isso era possível fisiologicamente. Ela tem orgasmo sem deixar que a outra toque nela, e sem ela tocar os genitais. Louco isso, não é? Olha que mistério da alma feminina! E já perguntei com detalhes, “mas tem orgasmo mesmo?”. “Tenho”. “Mas sem tocar?”, “Não precisa tocar”. Elas têm orgasmo de ver a excitação que elas provocam na outra.

M: E essa terminologia todo, fuló, sacola, isso é uma coisa das prisões, né? Fiquei imaginando se existia fora.

D: Na rua, nunca ouvi falar. Quando eu comecei a ouvir essas coisas na cadeia, eu pensei “como nunca ouvi falar isso?”. Tudo bem, a nomenclatura é inventada, em cadeia tem muito disso, mas você caracterizar dessa forma, com essa clareza, esse tipo de comportamento, você ser enquadrada nesse tipo de comportamento. Como é que há tanta diversidade? Isso está no universo feminino, porque a cadeia não cria nada.

M: O Estação Carandiru virou filme, séries; o Carcereiros também. Como é que está o Prisioneiras?

D: Tenho segurado. Tem muita gente interessada, Globo, Netflix, um monte de amigos e amigas, mas eu não tô interessado nisso. O livro precisa ter um caminho, acabou de ser publicado, tem que correr. Cada livro tem um percurso.

M: Mas é “por enquanto, não” ou… 

D: Não, por enquanto, não. Pode ser que mais pra frente. Porque também, quando você vê o filme, ninguém mais lê o livro. “Carandiru” vendia, ficou 4 anos em 1º lugar na lista. Ele vendia entre 8 e 10 mil livros por mês. O filme demorou uns 5 anos. O filme saiu no mês de maio. Em maio, vendeu 11 mil. Em junho, voltou pra 9 mil. Em julho, 2 mil. Acabou.

M: Eu entendo até com livro de ficção que isso possa acontecer, mas num livro como esse… O filme não tem nada a ver com o livro!

D: E aí você faz o livro. O cinema, você sabe melhor que eu, é o barato do diretor. Não é do autor do livro, nem do roteirista. Nem dos atores, é o diretor que faz a mágica toda acontecer. E aí sai o filme e ninguém mais lê o livro. Deixa aí, quem sabe quando pararem de ler o livro, daí valha a pena fazer um filme.

M: É que tem muitas historias incríveis, né. Eu gostei muito de como você termina o livro, é uma forma muito bonita, porque você fala que seu impulso de fazer esse trabalho nos presídios não vem de um altruísmo médico. É de um fascínio que você tem por esse universo marginal, mas pelo ser humano também. Fascinação de encontrar pessoas, de ter uma empatia real por pessoas que você jamais encontraria, achei muito bonito.

D: É a realidade mesmo. Você conviver com gente que vê tudo ao reverso, que tem outras transformações, outros princípios, outras histórias de vida. É bem interessante porque a tendência da gente é conviver com pessoas próximas, que tenham mais ou menos o mesmo nível, e tudo bem, é legal, dá segurança, mas empobrece um pouco o mundo, né? O mundo é mais complexo do que isso. E a tendência da gente é sentar com pessoas que pensam exatamente como você. Se a gente deixar, é assim.

M: Tem uma outra coisa que você fala, que o médico faz o trabalho com as mãos. Isso é muito bonito.

D: Sim, estou convencido disso. Se você não toca no outro, você não está fazendo medicina. Não tá. Tá fazendo outra coisa. Pode estar fazendo diagnóstico. mas a relação do médico com o paciente é com a mão. Você tem que ser tocado pelo seu médico. Mesmo que eu tenha imagens, que eu não vá colher informações além das imagens que eu já tenho, não importa, você só sente que está no médico quando sente que ele toca em você. Se ele não toca, não estabelece a relação. Que é uma relação quase que mágica também. Você tá passando mal, não sei o que, chega um médico, para do seu lado, olha, isso que é a medicina.  Só dele chegar perto e dele te examinar, você fica melhor. Porque o grande componente do sofrimento é a ansiedade. Você não sabe o que vai acontecer com você naquele momento. Você não sabe se vai piorar, se vai melhorar, se vai morrer. E aí você tem uma pessoa que, nessa hora, te acalma, uma pessoa confiável, que você vê que está interessada em você, isso já te tranquiliza, você já melhora nessa hora.

Tem um caso engraçado. Uma vez tava chegando na Feminina, e tem um funcionário na porta de entrada. Gordo, tem uma barriga enorme, dura, horrível. Eu estava com o Waldemar, que é meu companheiro de trabalho. E esse cara falou “doutor, eu tô com uma dor aqui na barriga, uma coisa chata mesmo”. Eu peguei e pus a mão assim e falei “passa lá na enfermaria quando acabar o atendimento, lá pelo meio-dia, que eu te examino”. Terminou, ele não apareceu, ficou por isso mesmo. Semana seguinte, eu perguntei pro Waldemar “e aquele funcionário que tava com problema na barriga e não passou lá?”. Ele disse “você não imagina. Quando eu fui entrar na cadeia à tarde, outra vez, ele falou ‘Waldemar, que mão que tem aquele homem’. Pôs a mão na minha barriga, a dor acabou'” (risos).