Entre facas e flores

Entre facas e flores

Morris Kachani

23 Fevereiro 2018 | 15h51

Foto: Renato Parada

“Um país que se odeia, não tem como gostar de sua própria arte. Acho que a rejeição à cultura é uma das facetas do desencanto que o Brasil teve consigo mesmo. ”

A Glória e Seu Cortejo de Horrores, novo livro de Fernanda Torres, é um sucesso editorial. Em três meses de vida, já vendeu mais de 20 mil exemplares.

Como bem descreve Reinaldo Moraes na orelha do livro, mescla eletrizante de comédia de erros com a velha e nem sempre boa vida como ela é, ‘Glória’ é um painel corrosivo de uma geração que viu sua ideia de arte sucumbir ao mercado, à superficialidade do mundo hiperconectado e à derrocada de suas ilusões. Tudo isso com doses generosas de um humor afiado e meio amargo…

Ali estão, o protagonista Mario que é ator e seu narciso, atravessando uma carreira de altos e baixos, em um arco que engloba o teatro experimental e de militância dos anos 60, passando pelo desbunde de Hair, a abertura política, Tchékhov, Plínio Marcos, Shakespeare… e as novelas. Primeiramente o alçando ao estrelato na maior rede de televisão do país e depois, encarando papéis bíblicos na concorrência.

Fernanda Torres, que já levou o prêmio de melhor atriz em Cannes, por “Eu sei que vou te amar” em 1986, que já encantou multidões com “Os Normais” ou “A Casa dos Budas Ditosos”, escreve com conhecimento de causa.

Acabamos fazendo uma entrevista mais abrangente, discorrendo sobre os diversos temas da atualidade que nos cercam e nos dizem respeito…

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“Cresci com o Asdrubal, o Circo Voador, o BRock. Nós sofríamos de um certo complexo de inferioridade, por termos perdido a Bossa Nova e a Tropicália, mas havia uma efervescência cultural no Rio que não encontro mais. É como se a arte, pelo menos a que eu faço, não fizesse mais sentido. Os livros que leio, os filmes que vejo não dialogam com o que me cerca, é uma sensação muito estranha. Meu inconsciente é muito atrelado ao Rio de Janeiro, mas é como se não me reconhecesse mais na cidade em que cresci.”

“As eleições já me causam calafrio. Eduardo Campos faz falta, acho que eu votaria nele, um homem com trânsito à direita e à esquerda, do Nordeste, com herança política. Mas o Brasil é um país trágico. Campos morreu num desastre de avião e não vejo ninguém como ele no páreo.”

“O PSDB implodiu, acabou nas mãos do Aécio, elegeu Doria, hoje corre atrás de uma solução midiática. E o PT insiste em se vitimizar, em fingir que não deu as mãos ao Temer, se nega a fazer uma autocrítica, culpando a classe média nojenta, que, segunda a versão do partido, não suportou ter que dividir o aeroporto com os pobres. É inacreditável. A rapina da Petrobrás, da Eletrobrás, o investimento em frigorífico do Banco de Desenvolvimento, tudo culminando no governo desastroso de Dilma. Terra arrasada.”

“Voto em Randolfe, em Molon, que tem trabalhado com seriedade, Boulos deve crescer. O MTST não é o MST, Boulos não é Stédile. O MTST é liderado por mulheres, mães de família. Tem o pastor batista Henrique Vieira, que entende a necessidade da fé e é progressista. Existem iniciativas privadas, de fundos de investimento supra partidários para apoiar novas candidaturas, o que pode trazer resultados para a renovação do Congresso. É um ali, outro aqui, mas não vejo uma frente capaz de colocar o país nos trilhos.”

“O sincretismo recuou, na onda do crescimento evangélico, puritano, também vindo do primo rico do norte. Mangabeira Unger vê benefícios na ascensão evangélica, que não condena o acúmulo de riqueza, como sempre o fez a Igreja católica. Mas a Igreja católica foi sincrética, misturou Iemanjá com Nossa Senhora, abriremos mão disso?”

“Mais do que qualquer situação de assédio que eu tenha vivido, pelos moldes de hoje, jamais me senti acuada, ou amedrontada por dizer ‘não’. O que não quer dizer que eu esteja afirmando que cabe à mulher dizer ‘não’. O que me incomodava era o nu obrigatório.

Não querer ficar nua causava embates com a direção, a produção, havia sempre a conversa de que era algo artístico, mas a verdade é que a exigência fazia parte de uma exploração nada digna. Isso diminuiu, ou acabou, pelo menos para mim, que atingi os 50, mas foi o que mais me incomodou.”

“Talvez, eu me sinta mais livre de exercer meu sadismo literário com os homens. As mulheres estão passando por um momento de afirmação, é uma hora importante, e ser ácida com uma mulher poderia ser problemático. O homem branco, hoje, é o genérico do humano equivocado, o que me atrai.”

“É claro que há uma dose de narcisismo na profissão de ator e de autor, ou de exibicionismo, é preciso ter ego, ter luz, encantar. Mas é preciso se livrar dessa vontade de acontecer quando se pisa  na sala de ensaio, é preciso zerar, começar do zero.”

“Acho que é possível militar e trabalhar na Globo, sim, e mais, é possível produzir, dentro de seus corredores, um conteúdo refinado e transformador.”

“Hoje, discutem-se os filmes de Batman, Mulher Maravilha, Thor e Pantera Negra, com o empenho e a seriedade com que, antes, se discutia o Poderoso Chefão, Laranja Mecânica e Morangos Silvestres. Houve um grande empobrecimento, não há dúvida.”

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Inicialmente, antes de entrar no assunto do livro, queria te perguntar a que o termo inconsciente coletivo te remete, afinal este é o nome do blog.

Me remete ao Jung, a algo que nos é comum, a uma arqueologia do inconsciente, me corrija se eu estiver errada. É uma ideia muito bonita, essa, de um arquétipo compartilhado. Mas eu fiz análise lacaniana durante muitos anos, na juventude, e o meu analista tinha desprezo pelo Jung. Ele achava o contrário, que a experiência, a interpretação do mundo é pessoal e intransferível. Recentemente, porém, descobriram que o trauma é herdado, que o comportamento humano pode ser afetado por situações enfrentadas por antepassados. O Jung deve ter lá a sua razão. Eu gosto da ideia de um imaginário comum.

Seguindo um pouco nesta linha junguiana, qual seria o inconsciente coletivo do brasileiro, hoje? Quando eu vejo a Jojô Toddynho, a música do tiro, o clipe da Anitta…  o carnaval dos protestos…

O Brasil de hoje tem cada vez menos a ver com o que o representava no passado. A ideia de um país pacífico, miscigenado, alegre, cordial. O Homem Cordial vingou naquilo que ele tem de pior. Vingou no conluio, no arreglo, no favorecimento e no patrimonialismo, em detrimento da ideia do homem acolhedor, afetuoso. A tendência a resolver os problemas no plano pessoal criou um país sem regras, que acabou por se voltar contra nós mesmos.

A desigualdade social, sequela de uma escravidão que nunca foi resolvida, passou anos abafada, até que explodiu, ganhou poder, voz, e veio com raiva.

O carnaval do protesto é um espelho disso. O Rio elegeu um prefeito que odeia a cidade que governa, odeia o samba, o carnaval, o candomblé. Ele tem uma agenda ligada aos interesses da igreja, não aos do município. A rejeição veio na forma de corte de investimento e culminou no abandono da cidade, a viagem à Áustria, na hora do pega para capar do carnaval. Até Deus ficou indignado, e mandou aquele dilúvio. O desfile estava se tornando algo muito argentário, com temas como a Guiné Bissau, ou o Chico Recarey, bastava fazer o cheque para ser homenageado. Neste ano, o boicote da prefeitura provocou o desabafo das escolas, elas descerem a avenida para falar de si mesmas, você via isso na cara do pessoal. Havia uma necessidade de se expressar, de protestar, parecia teatro. Foi muito diferente.

E o seu inconsciente, por onde anda?

Meu inconsciente anda meio vazio. Acabo de publicar meu segundo livro, de entregar a adaptação do “Fim” para a Globo, serão dez capítulos de uma minissérie. Estou na entressafra. E muito deprimida com o Rio de Janeiro, achando que não tem solução. Não tem. Deprimida de ver o Pezão e o Crivella, de ver uma cidade que se deteriorou com o tempo. O Rio ainda é um belo acidente geográfico, a natureza esfrega a beleza na cara da gente, mas é como se não houvesse mais a cidade. Cresci com o Asdrubal, o Circo Voador, o BRock. Nós sofríamos de um certo complexo de inferioridade, por termos perdido a Bossa Nova e a Tropicália, mas havia uma efervescência cultural no Rio que não encontro mais. É como se a arte, pelo menos a que eu faço, não fizesse mais sentido. Os livros que leio, os filmes que vejo não dialogam com o que me cerca, é uma sensação muito estranha. Meu inconsciente é muito atrelado ao Rio de Janeiro, mas é como se não me reconhecesse mais na cidade em que cresci.

Por outro lado temos no Rio uma situação extrema, com dois ex-governadores presos, um representante da Igreja Universal na prefeitura e um governador banana. Você escreve muito sobre o Rio no seu livro. Qual a sua percepção sobre este momento que está sendo vivido pela cidade? Como te soa a intervenção federal?

Ano passado, fui muitas vezes pegar o meu filho às pressas, no colégio, em meio a um tiroteio. Havia tanques estacionados na esquina. Você vai se acostumando, mas começa a pensar que não será mais possível. Tenho medo de ter que mudar, pois acho que sofreria eternamente pela falta daqui. Uma vez, voltando da Barra da Tijuca, em direção à zona Sul, na altura da Rocinha, vi uns vinte garotos jovens, fortes, bonitos, todos sem camisa, soltando pipa no canteiro da auto-estrada Lagoa Barra. Era o horário de escola, estava na cara que nenhum deles ia à escola. Que futuro pode ter uma cidade assim? Vamos dizer que a segurança pública tome jeito, o que eu acho impossível, quem construirá o esgoto nas comunidades, as creches, os hospitais, os colégios? É um grau de investimento impensável. Só isso mudaria esse quadro, impediria um moleque, cuja mãe o deixa sozinho em casa para trabalhar, de ser arregimentado pelo tráfico. Fala-se de mandato de busca, de tanques nas ruas, um plano feito no improviso, anunciado antes de acertadas as bases; mas não se discute o abandono social. Beltrame cansou de dizer que as UPPs fracassariam, se não houvesse um projeto de assistência social, mas Sérgio Cabral estava ocupado demais em roubar. Agora de novo, com o exército, não será diferente.

A novidade é que o exército é como o 007, ele trabalha com licença para matar, que já existe na prática, mas que o comandante do Leste quer que seja oficializada. É um revés que o marketing eleitoral do Temer, acredito, não contava. Se ela sair, impressiona que a justiça dê essa salva guarda à operação, mas que não consiga avançar em temas como a política falida anti drogas, que emperrou no Supremo por um pedido de vista. De onde vem tanto fuzil? Onde é lavado o dinheiro das drogas, quem o contabiliza, investe, em que banco é depositado? O grande negócio das drogas não se dá no varejo das favelas, mas não vejo nenhuma ação federal nesse sentido.

O Rio serviu, durante décadas, de trampolim para candidatos de oposição que queriam chegar à presidência, um populismo de palanque que discutia as grandes causas do país, mas não tinha nenhuma relação concreta com o estado ou a cidade. O Rio deixou de ser capital, mas continuou sofrendo de mania de grandeza, como se coubesse à Guanabara tratar do interesse nacional, remando contra a maré de Brasília.

O Rio jamais se curou de Brasília. Cabral foi saudado por ter desbancado Garotinho e ser um governador alinhado com a situação, mas Cabral era um clepto vilão de novela. Um malandro safado tão nefasto quanto o casal Garotinho. E veio a falência da Petrobrás, do Eike Batista. É de sentar na calçada e chorar. O PMDB do Rio, o PDT, Picciani, a Alerj, as milícias, o narcotráfico, quem merece? Não vejo saída. Talvez, devido à debacle, o Rio tenha aprendido que não é o Brasil. A síndrome de capital acabou de vez. Talvez, seja um começo, se é que existe algum.

Que achou do desfile e do título concedido para a Beija-Flor?

O samba da Beija Flor é deslumbrante, e ainda faz aquela relação doida, que é comum nos enredos, de juntar Frankenstein com o povo. Gostei dos juízes terem reconhecido valor no conteúdo do discurso, de não terem ficado presos ao 10 em alegoria, 9.9 em evolução, de terem percebido que algo diferente aconteceu na avenida, dando, inclusive, o segundo lugar a uma escola pequena, como a Tuiuti. O Salgueiro escolheu um tema da hora, a mulher negra, mas não soube transformar o desfile em protesto, em discurso, ficou na forma, e não soube explorar a potência que o enredo continha.

Por outro lado, as escolas que conseguiram pisar na avenida com todas as plumas e paetês de costume, são aquelas que contam com o dinheiro do jogo do bicho. Ou seja, alguma coisa está fora da ordem, sempre esteve.

O que esperar deste ano, com Copa do Mundo e eleições?

Não estou nem considerando a Copa do Mundo. Vou assistir aos jogos, com certeza, mas a vejo como algo irrelevante, do ponto de vista de autoestima, ou importância para o país.

As eleições, não, essas já me causam calafrio. Eduardo Campos faz falta, acho que eu votaria nele, um homem com trânsito à direita e à esquerda, do Nordeste, com herança política. Mas o Brasil é um país trágico. Campos morreu num desastre de avião e não vejo ninguém como ele no páreo.

Testemunhei crises profundas, insolúveis, a morte do Tancredo, a hiperinflação, o impeachment do Collor, mas havia uma crença na redemocratização. Partidos como o PSDB e o PT, vindos da USP e do ABC, levaram décadas para serem forjados, para chegarem ao poder. A inflação foi vencida, um operário eleito, a classe C se tornou uma força econômica tão potente quanto a da classe A e B reunidas.  Havia a crença de que a urna, de fato, faria diferença. Mas o PT e o PSDB preferiram se alinhar ao DEM e ao PMDB a formarem uma aliança, e se valeram do mesmo jogo que mistura interesse eleitoreiro com o das grandes empresas privadas, jogo sujo que juraram combater qundo foram empossados. Isso criou uma terra arrasada, um niilismo sem cura, uma certeza de que a corrupção e a inépcia são endêmicas, que não há como se livrar delas. O PSDB implodiu, acabou nas mãos do Aécio, elegeu Dória, hoje corre atrás de uma solução midiática. E o PT insiste em se vitimizar, em fingir que não deu as mãos ao Temer, se nega a fazer uma autocrítica, culpando a classe média nojenta, que, segunda a versão do partido, não suportou ter que dividir o aeroporto com os pobres. É inacreditável. A rapina da Petrobrás, da Eletrobrás, o investimento em frigorífico do Banco de Desenvolvimento, tudo culminando no governo desastroso de Dilma. Terra arrasada.

Sobrou o esqueleto de Geddeis e Jucás, de Maruns, Moreiras e Padilhas. Esses homens de terno que sempre estiveram no poder, sem que tivessem, de fato, uma visão de longo prazo para o país, que não a do próprio cartel e umbigo. Sobrou a economia, que ensaia uma recuperação pífia, dependente dos humores da China e da entrada de capital oportunista na bolsa, mas que nunca reverte em melhoria para a população. Vejo uma hora de grande desencanto com as urnas.

Acho que aquela campanha vergonhosa de 2014 não se repetirá. O prato de feijão sumindo da mesa do trabalhador e os preços retesados, para vencer a eleição. Mas a opção era Aécio, Deus Pai…

Há também a necessidade de renovação do Congresso, mas nada garante que ela acontecerá. O impeachment de Dilma nos apresentou aquele quadro terrível de parlamentares, tomamos consciência do que nos comanda. Não há mais a ilusão de que os currais eleitorais irão eleger algo diferente. Não há mais figuras como a de Ulysses, ou Tancredo, o luminar da hora é José Sarney.

Voto em Randolfe, em Molon, que tem trabalhado com seriedade, Boulos deve crescer. O MTST não é o MST, Boulos não é Stédile. O MTST é liderado por mulheres, mães de família. Tem o pastor batista Henrique Vieira, que entende a necessidade da fé e é progressista. Existem iniciativas privadas, de fundos de investimento supra partidários para apoiar novas candidaturas, o que pode trazer resultados para a renovação do Congresso. É um ali, outro aqui, mas não vejo uma frente capaz de colocar o país nos trilhos.

O Brasil está ficando mais careta?

O mundo está mais careta. A globalização não exportou apenas o padrão Duty Free Shop de ser pelo planeta. Ela também emplacou uma visão americana de mundo, puritana, onde branco é branco, preto é preto e a mulata não é a tal; onde, como diz Carlito Carvalhosa, o sexo é violento e a violência é sexy.

A adolescente de Balthus foi retirada da parede de um museu de Nova York. Uma matéria do Guardian falava que, em pouco tempo, os acervos teriam mais obras nos porões do que em exibição. Um artista é racista, o outro é misógino, o nu é pedófilo e o outro fere a honra de uma religião. As instituições temem sofrer represálias na justiça, o que é bem americano também, esse paraíso de advogados, ofensas e causas.

Como sempre, há aspectos positivos e negativos nesse american way de ser. A miscigenação passou a ser vista como um disfarce do racismo, o que procede. Mas abrimos mão de oferecer para o mundo uma visão própria das relações entre raças, mais calcada na nossa experiência portuguesa, índia, africana, mestiça. O sincretismo recuou, na onda do crescimento evangélico, puritano, também vindo do primo rico do norte. Mangabeira Unger vê benefícios na ascensão evangélica, que não condena o acúmulo de riqueza, como sempre o fez a Igreja católica. Mas a Igreja católica foi sincrética, misturou Iemanjá com Nossa Senhora, abriremos mão disso?

Há também um engajamento crescente no mundo. A luta de grupos identitários por direitos, pelo fim da homofobia e da violência contra a mulher. Tudo urgente, justo e bem vindo. Há uma radicalidade crescente, necessária, talvez, para que as transformações aconteçam, para que um crápula como Harvey Weinstein perca o poder de acabar com a carreira de atrizes que se negaram a lhe prestar uma massagem íntima. Mas considero exagero, loucura, a condenação das fantasias de carnaval de índio, árabe, nega fulô e cigano; ou a ideia de que a identidade de gênero é um fenômeno apenas cultural.

O mundo mudou muito. Nos anos setenta, quando cresci, o sexo era o símbolo máximo da liberdade. Dos Dzi Croquetes às pornochanchadas cabeça; das páginas centrais da Playboy ao nu obrigatório do cinema nacional; das ninfetas do mês, à garota do Fantástico; da Sardinha 88 à Manara; da Dama do Lotação ao Último Tango; você só era considerado, de fato, liberto, quando atingia o posto de objeto de desejo da sociedade. Mesmo servindo a uma revista machista, ou a uma indústria mezzo pornô, o importante era ser desejado, havia um poder revolucionário no sexo. Era naquele tempo em que ainda se fumava nos aviões e se comia margarina, achando que fazia bem para o coração.

Hoje, estaríamos todos condenados à forca e à execração. Há o espírito do tempo, que é difícil de ser compreendido por gerações diferentes. Sinto uma certa truculência de todos os lados, uns tratando os outros como completos imbecis, sem que ninguém se escute de fato. Há muita intolerância no ar.

O que dizer sobre o assédio sexual no universo audiovisual brasileiro? Que achou do manifesto das francesas e do discurso da Oprah? Onde você se situa?

Já falei do choque de gerações. Eu estreei no filme Inocência, que era uma espécie de aberração completa, por ser um filme desprovido de carga erótica, o que, na época, era certeza de fracasso nas bilheterias. Depois fiz Marvada Carne, que também era exceção. Mais do que qualquer situação de assédio que eu tenha vivido, pelos moldes de hoje, jamais me senti acuada, ou amedrontada por dizer ‘não’. O que não quer dizer que eu esteja afirmando que cabe à mulher dizer ‘não’. O que me incomodava era o nu obrigatório. Mesmo Inocência tem uma cena de banho. Me lembro do lançamento de Eu Sei Que Vou Te Amar, onde um still do filme foi parar na Playboy, com um texto dizendo que eu era a nova delícia do cinema nacional, algo assim. Essa erotização era muito incômoda, muito constrangedora, e depois ela migrou para a televisão nos anos 80/90. Não querer ficar nua causava embates com a direção, a produção, havia sempre a conversa de que era algo artístico, mas a verdade é que a exigência fazia parte de uma exploração nada digna. Isso diminuiu, ou acabou, pelo menos para mim, que atingi os 50, mas foi o que mais me incomodou.

O Glória fala disso, da atriz que faz uma pornochanchada política e depois posa para a Playboy no lançamento do filme. Era comum, era de praxe, mas não era legal.

Você é uma artista de múltiplos talentos. Em que medida o ofício de escritora dialoga com a atriz?

Em tudo. Costumo dizer que a literatura, a voz, é aquilo que o ator pensa e imagina entre falas. Existe uma grande resistência a se reconhecer autoria na profissão de ator. Mas há, e muita. Para dar corpo a uma fala, é preciso um enorme esforço de imaginação, é preciso acessar uma emoção através da memória. Recentemente, reli algumas páginas de A Casa Dos Budas Ditosos, peça que faço há mais de uma década. O texto lido, parecia uma partitura em branco. Os mais de doze anos de intimidade que desenvolvi com ele, dotaram cada parágrafo, cada frase, de um memorial infinito, algo que não estava lá, na primeira vez em que li. Ele mistura lembranças da minha vida, dos ensaios, da convivência com o Ubaldo, com o Domingos, seria possível escrever outro livro, só com o que acumulei na cabeça para poder encarnar a baiana. Stephen Berkoff fez isso, ele escreveu I Am Hamlet, depois que encerrou a temporada da peça. Nesse livro, ele recriou tudo o que pensava em cena, que vai desde um autoelogio, até passagens históricas. Fui criada no teatro do improviso, que te obriga a entrar num papel e fazê-lo falar, o que ajudou imenso na hora de criar personagens. Também cresci nas coxias de teatro, ouvindo Nelson Rodrigues, Durremat, O’Neill e Millôr. O teatro me deu a noção de dramaturgia, do que é cena, drama, e do que não é. E o caminho inverso também é verdadeiro. A literatura é um grande alimento para o ator, assim como a música, mas a literatura em especial. Ela lhe dá o subtexto, amplia a visão dos personagens, serve de espelho. São profissões intimamente ligadas.

Por que este título do livro?

Era uma frase da minha mãe que ouvi a vida inteira. Existe grande ansiedade no êxito, na exposição pública. A profissão de ator se dá no picadeiro, no Coliseu Romano. Não há Glória sem o Cortejo de Horrores, sem os leões, sem risco, ou dor. O grande fracasso tem parentesco com o grande sucesso, são momentos angustiados, grandiosos e angustiados, tanto pela grande alegria, quanto pela vergonha. A frase resume bem essa sensação de desconforto permanente. Não há garantia na vida artística, não há garantia na vida, mas a artística te obriga sempre a recomeçar. Me lembro do Millôr Fernandes dizendo, depois de um jantar com meus pais, estávamos no carro e ele começou a dizer que estava muito feliz, com os amigos, num momento maravilhoso, mas que isso o preocupava, porque as coisas só poderiam piorar. É um pouco isso. O grande êxito é a certeza do grande fracasso, e vice e versa.

Por que um protaganista masculino?

Eu costumo dizer que não tenho lugar da fala, tenho lugar do falo, e de falos sexagenários, o que é um pouco estranho. O Mario veio assim, nasceu homem, e maduro, nem pensei. Meu editor, na época, o Flávio Moura, leu um capítulo e me escreveu: “outro homem… interessante”. Só então me ative ao fato. Acho que é mais fácil me travestir, ajuda a me afastar de mim, a chegar na literatura, a não ser confessional. Sou uma atriz, o leitor conhece meu rosto, minha voz, os personagens masculinos me tornam anônima, acho que é por isso que me valho deles.

Eu sou muito sarcástica quando escrevo, muito irônica, trato mal meus heróis, gosto de me debruçar sobre suas falhas. Talvez, eu me sinta mais livre de exercer meu sadismo literário com os homens. As mulheres estão passando por um momento de afirmação, é uma hora importante, e ser ácida com uma mulher poderia ser problemático. O homem branco, hoje, é o genérico do humano equivocado, o que me atrai. Eu adoro aquele filme do Östlung, o Força Maior, sobre o pai de família que falha no seu papel de macho, é um grande tema.

Curiosidade minha, quanto tempo demorou para escrevê-lo? E como foi o processo?

Eu escrevi o capítulo da Tijuca uns seis meses depois de ter entregado o Fim, três, quatro anos atrás. O personagem ainda não era um ator. Depois, não consegui desenvolver esse personagem da Tijuca e decidi escrever o Lear fracassado. Eu terminei um livro autobiográfico do David Hare, sobre a experiência dele como ator. É um livro maravilhoso, terrível e hilariante, sobre um autor, que enfrenta o palco. Esse livro me deu coragem para escrever sobre teatro. Quando terminei o capítulo do Lear, achei que o Mario poderia ser o personagem da Tijuca, foi quando a história ganhou forma. Fui escrevendo ao longo desses últimos anos, desde o Fim, mas só encarei o bicho de frente a partir do segundo semestre de 2016 e ao longo de 17. Eu achava que a curva seria maior, que as quatro décadas demorariam mais tempo para serem descritas. É um livro em dois tempos, passado e presente, e achei que ainda faltaria muito, até a cobra morder o rabo. Para minha surpresa, antes do que eu esperava, a primeira parte do livro se fechou. A segunda, na prisão, depois de uma visita in loco, foi escrita de uma penada só. Você domina o que escreve até certo ponto. O livro te ensina o tamanho dele, o personagem, muitas vezes, faz o que bem entende, mas é preciso disciplina, sentar, limpar a cabeça e ter a coragem de jogar a tinta no papel.

Narcisismo e palco. Poderia discorrer a este respeito?

O narcisismo é um grande inimigo do artista, assim como o cinismo.  O narcisismo cria a expectativa do acerto, e não há nada mais cerceador do que a expectativa do acerto. Em vez de se perder no personagem, de se abrir para virar outro, você se torna autoconsciente, você se contrai. Odeio grandes estreias, super produções que nascem para acontecer, normalmente elas fracassam. Os grandes trabalhos nascem pequenos, na surdina, no silêncio e crescem aos poucos. É claro que há uma dose de narcisismo na profissão de ator e de autor, ou de exibicionismo, é preciso ter ego, ter luz, encantar. Mas é preciso se livrar dessa vontade de acontecer quando se pisa  na sala de ensaio, é preciso zerar, começar do zero. Isso é uma das vantagens da experiência, a maturidade te ensina a por o narciso de molho, a praticar a humildade, para poder chegar a algum lugar. Na literatura é igual, e também na música e nas artes plásticas, chegar nessa paz criativa, que ainda não é para os outros, que é para você mesmo. O Domingos tem essa frase maravilhosa: Tudo o que é divino, é sem esforço. O narcisista se esforça mais do que deve.

Existiria uma contradição entre trabalhar na Globo e militar politicamente?

Não é diferente de escrever para um jornal. A Globo é a única indústria de arte do Brasil. É uma produtora de conteúdo impressionante e dá total liberdade aos autores, atores e diretores, de criar. Ela é atacada pela esquerda e pela direita. Os conservadores consideram as novelas permissivas, defensoras das causas LGBT, do beijo gay e da pouca vergonha geral. Apesar dos ataques, não há censura interna, esses temas continuam a fazer parte dos folhetins.  A ala progressista a vê como uma empresa que foi conivente e cresceu com a ditadura militar. Mas se você for olhar para trás, Doutor Roberto empregou todos os comunistas e socialistas que escaparam do exílio, da prisão e da tortura. Dias Gomes, Vianinha, Benedito Ruy Barbosa,  Lauro César Muniz, Plínio Marcos, todos trabalharam lá, Mario Lago, a lista não tem fim. Obras memoráveis, como a primeira  Grande Família, O Bem Amado, Medeia, O Grito, A Escalada, Roque Santeiro, Gabriela, de Jorge Amado, de Jorge Amado! Que vendeu os direitos sem achar que estava se vendendo para o demo. E ainda bem que vendeu, pois Gabriela é um tesouro nacional. São obras de esquerda, que jamais sofreram represálias internas. Portanto, seguindo exemplos passados, acho que é possível militar e trabalhar na Globo, sim, e mais, é possível produzir, dentro de seus corredores, um conteúdo refinado e transformador.

Estaria havendo uma teatralidade e uma espetacularização da política nos dias de hoje? Onde exatamente, e com quem?

Apesar de atriz, sou chamada de celebridade, o que considero uma ofensa. É uma distorção dos tempos. É a cultura de massa, somos medidos por likes, algoritmos e estatísticas. Seguimos fake news, participamos dos tribunais do Facebook e alimentamos o império da fofoca.

A justiça e a política não ficam de fora.

As decisões do STF, que sempre foi um tribunal reservado, hoje, podem ser acompanhadas ao vivo, em canal aberto e fechado.  Os membros da corte dão entrevistas e trocam farpas em público. Conhecemos cada magistrado pelo nome, sabemos como votam e pensam. Isso pode interferir nas decisões, o que não é certo, do ponto de vista jurídico. Por outro lado, a justiça se transformou em algo palpável, visível, o que considero positivo. Ela se popularizou, para o bem e para o mal.

Moro se valeu da pressão da opinião pública para impedir que a Lava Jato fosse engavetada; mas não considero correta, por exemplo, a divulgação do grampo de uma conversa íntima entre Dona Marisa e o filho, que só serviu para demonizá-la; ou a abertura das celas dos presos da Lava Jato para atores de um filme sobre o processo.  O power point de Dallagnol é deplorável. Mesmo assim, nunca houve uma investigação do escopo da Lava Jato, que ensinou ao país o caminho da corrupção. Qualquer pessoa, hoje, é capaz de explicar como o interesse eleitoreiro, independente de partido, se alia ao das empresas privadas, desviando recursos de infraestrutura, superfaturando obras públicas, para se manter no poder.

A espetacularização, sem dúvida, provoca desvios de comportamento e conduta. Mas somos, hoje, menos ignorantes a respeito dos ritos da República e dos conchavos que se fazem a portas fechadas.

Como está respirando, ou sobrevivendo… a classe artística brasileira, neste cenário de crise? E que produções culturais você destacaria?

Não há uma única classe artística. Existe a indústria fonográfica, a cinematográfica, a televisiva; existe o mercado de artes e o literário; o artesanato teatral e o patrimônio cultural e histórico; existem os museus e as filarmônicas, existem os parques arqueológicos; tudo isso pertence à magra pasta do MINC. As necessidades são muitas e diversas.

Alguns fatores são de ordem global, como o da massificação da cultura. Hoje, discutem-se os filmes de Batman, Mulher Maravilha, Thor e Pantera Negra, com o empenho e a seriedade com que, antes, se discutia o Poderoso Chefão, Laranja Mecânica e Morangos Silvestres. Houve um grande empobrecimento, não há dúvida.

As produções de televisão têm se mostrado mais livres e arriscadas, é uma janela imensa que se abriu, a das séries produzidas para o VOD. Esse mercado ainda engatinha, mas está em crescimento no Brasil. As televisões abertas, que sempre criaram, produziram e exibiram seu conteúdo, começam a se abrir para as produtoras independentes. O terreno que estamos perdendo nas grandes telas, talvez se recupere no home theater. Os grandes contratos de longo prazo acabarão, haverá uma mobilidade maior, mas também menos segurança de emprego. Eu costumo dizer que o tempo da monocultura da mídia acabou.

Você pode dizer que, no passado, a cultura era elitista, que a opinião pública era formada por uma classe média branca, urbana, é verdade. Hoje, é possível produzir um filme até com um celular, os meios de produção baratearam, se democratizaram, você pode exibir sua obra nas redes, independente de contratos com exibidores, canais de tv ou gravadoras. Mas a probabilidade da sua obra chegar a influir na sociedade, de sair do seu gueto de gosto ou interesse é muito menor. A globalização e as novas tecnologias concentraram a riqueza e dividiram o público em nichos. Para ter um impacto mais amplo, para sair do traço de audiência, é preciso alimentar os Tamagoshis dos aplicativos, anunciar na televisão, estar em todas as janelas ao mesmo tempo; ou apelar para um conteúdo explosivo, capaz de se tornar viral.

Você liga o rádio e escuta a mesma música, não importa o país em que esteja. Ouve-se Katy Perry e Anitta, que soube se mover dentro das regras do terceiro milênio.

Fui assistir a remontagem do O Rei da Vela e sai do teatro entre extasiada e deprimida. A peça tem aquele poder que o teatro deveria ter, que eu já vi ele ter, mistura de artes plásticas com ópera, com literatura, dança, música e política. Arte Total. Fiquei chocada de ver uma super produção de vanguarda, embasbacada com o domínio do Zé de cena, com os cenários e figurinos do Hélio Eichbauer, com o trabalho do Borghi, dos atores, e com o texto do Oswald, que é assombrosamente inteligente, irônico, trágico e atual. O índio do biscoito Aimoré que hasteia a bandeira americana; a coxíssima Dona Poloca e a baiana do Ministério da Cultura; o empresário que lucra vendendo velas nos funerais de pobre e nos apagões do atraso, é sensacional. É das peças mais incríveis que já assisti, não deixa nada a dever ao que de melhor se produz no planeta. Hoje, gastamos o mesmo volume de dinheiro, o mesmo empenho e trabalho para montar versões brasileiras de espetáculos da Broadway, que são enfadonhos até lá, no país de origem. Andamos para trás.

O Asdrúbal mudou a vida da minha geração, o Macunaíma, do Antunes, também; o teatro já teve esse poder de influir na opinião pública, mas, hoje, é feito pelas beiradas, com total dependência de incentivo fiscal, dividido entre a Broadway tupiniquim e um teatro mais aguerrido, experimental, de catacumba, como diz minha mãe. São Paulo ainda consegue ser plural, é possível viver de teatro em São Paulo; e Curitiba se transformou num polo importante, existem novos diretores, atores; no Rio, fenômenos como o Caranguejo OverDrive, mas nada que se compare ao Rei da Vela; a Macunaíma e ao Paraíso Zona Norte, do Antunes; ao Trate-me Leão, a Aquela Coisa Toda e A Farra da Terra, do Asdrúbal; ou ao impacto de Carmen com Filtro e O Processo, do Gerald Thomas, na virada dos 80 para os 90.

As artes plásticas pareciam imunes à crise, por dependerem de um mercado de elite, calcado no circuito internacional, e contando com uma geração de talentos sólidos, como Varejão, Milhazes e Zerbini, para citar alguns. Mas ela foi tragada para o centro do furacão, ao ser atacada como pedófila e zoófila. Nem ela escapou.

Acho que a rejeição à cultura é uma das facetas do desencanto que o Brasil teve consigo mesmo. Um país que se odeia, não tem como gostar de sua própria arte.

No momento, a classe é atacada até no Congresso. Nos transformamos em mamadores das tetas, sem que tenhamos conseguido avançar como indústria criativa, um potencial que o Brasil tem de sobra. Houve uma reversão impressionante. O “Glória e Seu Cortejo de Horrores” narra essa história, esse descolamento, isolamento, que só tem se acirrado.

Para encerrar, queria dizer que as vacas magras, muitas vezes, jogam uma vertente artística contra a outra, o que enfraquece a classe. A crença de que é uma região do país que impede a outra de existir, ou um tipo de cinema ou teatro. São práticas semelhantes às que esvaziaram as estantes de medicamento nos hospitais, ou emagreceram a merenda escolar nas escolas, são essas práticas que também nos corroem. O diretor do Sesc RJ acaba de ser preso por desvio de recursos da cultura para o esquema de propinas do Estado. O Sesc RJ tentou se livrar de Orlando Dias, mas ele tinha as costas quentes. Você compara o trabalho desse ladrão com o de Danilo Miranda, no Sesc SP, e entende o quanto se pode realizar com o bom uso de recursos comuns, privados ou públicos, aplicados com seriedade, a longo prazo, para seus devidos fins.

Eu destacaria, na televisão, uma sofisticação de linguagem, que se faz notar nas novelas e séries, em diretores como José Villamarin e Mauro Mendonça Filho. Eu destacaria o trabalho de Danilo Miranda, no Sesc SP, que tem agido, por décadas, como um ministro da cultura à paisana. Eu destacaria a longevidade do Teatro Oficina, com Os Sertões e O Rei da Vela; eu destacaria Milton Hatoum, Sérgio Rodrigues, Cristovão Tezza, Raphael Montes, Michel Laub, Bernardo Carvalho, o “Machado” de Silviano Santiago e Geovani Martins, uma revelação literária impressionante, saída da favela da Rocinha. Eu destacaria todos os nomes que citei nas artes plásticas, e mais Barrão, Ceverny e Carlito Carvalhosa. E João Salles, por seus documentários, pelo IMS e a Piauí, além do instituto de desenvolvimento à ciência. No cinema, o Kléber Mendonça, o Fernando Coimbra, Daniela Thomas e Jorge Furtado. E também a geração do Porta dos Fundos, que saiu do teatro, com Zenas Improvisadas, vingou nas redes e lançou Gregório Duvivier, Marcelo Adnet e Fábio Porchat.