“Guardar o pessimismo para dias melhores”

“Guardar o pessimismo para dias melhores”

Morris Kachani

16 Abril 2018 | 07h39

Frei Betto, 73 anos, 60 livros publicados, assessor de movimentos sociais e pastorais, esteve com Lula na véspera de sua prisão, na sexta-feira 6. Amigos há mais de 40 anos, não foi a primeira vez que vivenciaram esta situação. Em 1980, no fragor do movimento sindical, quando Lula foi detido por agentes do Dops, Frei Betto dormia no sofá da sala de sua casa, em São Bernardo do Campo.

O próprio Frei Betto foi preso por duas vezes, durante a ditadura militar.

Expoente da Teologia da Libertação, ao lado de nomes como Leonardo Boff, Frei Betto foi assessor especial e coordenador do programa Fome Zero, no primeiro governo Lula. Preferiu desligar-se da função, e escreveu dois livros com um olhar crítico sobre a gestão petista (“A Mosca Azul” e “Calendário do Poder”).

Ele topou conceder esta entrevista para o blog, por e-mail.

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Você esteve com Lula na véspera dele ser preso, por duas ocasiões. Quais são as coincidências e diferenças entre estas duas ocasiões?

Em 1980, ele foi surpreendido pela ordem de prisão, via policiais do DOPS. Desta vez, viveu a crônica de uma prisão anunciada. Em 1980, ele mal teve tempo de se vestir e tomar café. Agora adiou por mais de 24h a prisão e, assim, fez uma despedida pública de grande repercussão nacional e internacional. Em 1980, ele saiu intranquilo de casa rumo à cadeia; agora estava muito tranquilo, embora indignado.

Lula é um devoto religioso? Como ele estava naquela sexta-feira? O que oraram?

Lula sempre se assumiu como homem de fé, católico, tanto que fez questão de se casar no religioso e batizar todos os filhos na Igreja Católica. Rezamos uma Ave Maria e um Pai Nosso.

Qual acharia a prece ou citação bíblica mais adequada para este momento que a Nação atravessa?

“O jejum que eu quero é este: acabar com as prisões injustas, desfazer as correntes do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar qualquer peso injusto; repartir a comida com quem passa fome, acolher os pobres sem abrigo, vestir aquele que se encontra nu, e não se fechar à própria gente”. (Isaías, 58, 6-7).

Onde diria que se encontra o inconsciente coletivo do brasileiro, hoje?

Na busca de paz através de direitos sociais, erradicação da desigualdade de renda e da violência, e eliminação desse clima de ódio que provoca tantas inimizades.

Falemos sobre a escalada de violência, intolerância, ódio e ressentimento. É um retrocesso?

Sim, é um retrocesso. Não havia esse clima antes de Temer e os políticos corruptos que o cercam armarem o golpe contra o PT. A violência de um golpe parlamentar em um país que, a duras penas, vinha consolidando seu processo democrático abortado durante 21 anos pela ditadura militar, abriu as comportas do ódio. O Estado de Direito corre o risco de se apequenar no Estado da Direita.

O que a prisão do Lula representa para você?

Uma injustiça com um amigo a quem estou unido há 40 anos. Sou a favor da Lava Jato e do rigor na punição aos corruptos. Mas não vejo provas no caso do triplex. Como disse o promotor, há apenas “convicções”. Ora, ninguém deve ser condenado por suspeitas subjetivas de seus acusadores.

Qual a simbologia/ significado de uma prisão, para um líder como ele? Há quem fale em martirização, e martirização remete a religião. Algum paralelo possível com a história de Jesus Cristo?

Nenhuma relação. Lula não é mártir, é perseguido político. Querem tirá-lo da corrida presidencial, ainda mais considerando que o nome dele lidera as pesquisas. Porém, Lula na prisão se torna um cabo eleitoral mais forte ainda. A Justiça logrou vitimizá-lo, e isso mexe com os sentimentos das pessoas.

O Lula pessoalmente, como você define ele?

É um carismático. Pessoas dotadas de carisma são raras. No Brasil, me lembro de apenas quatro: Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Chico Buarque e José Celso Martinez Corrêa. São pessoas dotadas de forte magnetismo. E Lula é um homem generoso, mais coração que razão.

Ele é apenas vítima ou tem alguma parcela de culpa? Quais seus erros e acertos?

Amigos a gente critica; inimigos, denuncia. As críticas que tenho a Lula eu digo a ele. Considero os governos do PT os melhores de nossa história republicana. (Tenho simpatia pelo governo de Dom Pedro II). Contudo, tenho críticas aos 13 anos de governo do PT e elas estão registradas nos dois livros que escrevi a este respeito, ainda antes do mensalão: “A mosca azul” e “Calendário do poder”, ambos editados pela Rocco.

Nota: em artigo publicado em 2016, intitulado ‘O PT poderá ser reinventado?’, Frei Betto discorre sobre a questão:

Lástima que o PT se deixou picar pela mosca azul. Não ousou implementar reformas de estruturas, como a política, a tributária e a agrária. Permitiu que o Fome Zero, de caráter emancipatório, fosse substituído pelo Bolsa Família, compensatório. Erradicou, em fins de 2004, Comitês Gestores em mais de 2 mil municípios, e entregou às mãos dos prefeitos o cadastro do Bolsa Família.

Como se a retórica fosse suficiente para encobrir gritantes desigualdades, o PT tentou, em vão, ser o pai dos pobres e a mãe dos ricos. Para renovar o Congresso, não confiou no potencial político de líderes de movimentos sociais. Preferiu alianças promíscuas cujos vírus oportunistas acabaram por contaminar alguns de seus dirigentes. Em 13 anos de governo, não se empenhou na alfabetização política da nação nem na democratização da mídia, sequer no modo de distribuir verbas publicitárias para veículos de comunicação.

Graças ao crédito facilitado, ao controle da inflação e ao aumento real (e anual) do salário mínimo acima da inflação, a população teve mais acesso a bens pessoais. Dentro do barraco de favela, toda a linha branca favorecida pela desoneração tributária e, ainda, computador, celular e, quem sabe, no pé do morro, o carro comprado a prestações.

Porém, lá está o barraco ocupado pela família sem acesso à moradia, segurança, saúde, educação e ao transporte coletivo de qualidade. A prioridade deveria ter sido o acesso aos bens sociais. Criou-se, portanto, uma nação de consumistas, não de cidadãos, nação feita de eleitores que votam como quem cumpre um preceito religioso ou retribui um favor de compadrio, enternecidos com os laços de família que se estendem do netinho evocado em pleno parlamento à protuberância glútea exibida ministerialmente.

Temos uma intervenção militar no Rio de Janeiro e vários generais se pronunciando politicamente. Visualiza ecos da ditadura militar?

Ecos das viúvas da ditadura… O que me espanta é ver oficiais de alta patente cuspindo na Constituição e o Temer fingindo de cego, surdo e mudo, sem sequer adverti-los. E a intervenção militar no Rio é um “golpe de mestre” na arte de fracassar. O Exército jamais esteve preparado para fazer papel de polícia. A solução seria o governador e o prefeito saírem e novas eleições antecipadas serem convocadas. Para os impasses da democracia o melhor remédio é mais democracia.

E o PT, na sua visão. Olhando daqui para frente, o que há para ser feito?

Nunca fui militante partidário, mas gostaria que o PT fizesse um balanço de seus treze anos de governo ressaltando suas conquistas (que foram muitas) e seus equívocos (que foram graves).

Que achou de Brasília?

Se Brasília fosse uma boa cidade, Niemeyer moraria lá… Fora de brincadeira, Brasília é ótima nos fins de semana, quando os políticos vão em revoada para seus estados.

O que o legado de Santo Agostinho nos ensina, sobre o tempo presente?

No livro VI das “Confissões”, Agostinho faz severa autocrítica ao recordar que no ano 385, nas celebrações do décimo aniversário de governo do imperador Valentiniano II, ele foi convidado a discursar e proferir elogios ao tirano: “Como eu era miserável, e de que maneira fizeste com que sentisse minha miséria naquele dia, quando me preparava para declamar o elogio do imperador no qual diria muitas mentiras e, mentindo, ganharia a aprovação dos entendidos.” Quanta mentira é proclamada por nossos políticos para inflar o ego do governo Temer e encher os bolsos de quem profere os discursos!

Em algum lugar a Teologia da Libertação dialoga com este momento político?

Sim, a TdL é teológica e politicamente crítica, e muito tem escrito sobre o atual momento político, basta ler os textos de Leonardo Boff, Marcelo Barros, Pedro Ribeiro de Oliveira, Magali Cunha, Luiz Alberto Gómez de Souza e outros(as).

Como um todo, qual tem sido o posicionamento da Igreja Católica?

Do papa Francisco, excelente, reforçando os movimentos sociais e tecendo severas críticas ao neoliberalismo, como o comprova a sua encíclica socioambiental “Louvado seja”. E o papa se recusou a vir ao Brasil comemorar os 300 anos de devoção a Nossa Senhora Aparecida por não reconhecer o governo Temer.

Já a CNBB tem sido cautelosa nas críticas, embora conteste as reformas trabalhista e da Previdência. Mas se omitiu no caso Marielle, malgrado a tímida nota do Regional Sul 1 assinada por um assessor de imprensa. No entanto, o papa ligou diretamente para a mãe de Marielle para consolar a família e manifestar o seu protesto.

Ainda sobre a CNBB. Li reportagem sobre críticas à participação de dom Angelico Bernardino no ato ecumênico. O que esperar da Assembleia Geral que iniciou dia 12?

O episcopado brasileiro sempre foi politicamente dividido. Sob a ditadura tivemos cardeais que a apoiavam, como Dom Vicente Scherer, de Porto Alegre, e Dom Agnelo Rossi, de São Paulo. E cardeais que fizeram oposição a ela, como Dom Paulo Evaristo Arns, de São Paulo, e Dom Aloisio Lorscheider, de Fortaleza. O que prevejo é que, na Assembleia Geral, alguns bispos manifestarão solidariedade a Dom Angélico e outros demonstrarão indiferença.

Como lidar com a esperança, e o que espera do futuro?

Norteio minha vida por este princípio: guardar o pessimismo para dias melhores.

E Bolsonaro?

Acho que a candidatura dele desinfla quando tiver início a campanha eleitoral, pois ele não conta com o apoio de três grandes forças eleitorais: a mídia, os bancos e as Forças Armadas.

Mudando um pouco de assunto, gostaria de ouvir algumas palavras suas sobre a bancada evangélica no Congresso e a crescente adesão de brasileiros a este credo.

Os evangélicos empreenderam uma estratégia política para ocupar cadeiras no Congresso Nacional. Após a ofensiva sobre o Legislativo, agora avançam no Executivo e estão de olho no Judiciário.

Por que tantas pessoas aderem às igrejas neopentecostais que prometem erradicar o sofrimento pessoal? Porque a maioria integra a população de baixa renda e não tem acesso a direitos básicos, como serviço de saúde de qualidade. Na falta de Estado, busca-se a Igreja. Quem de nós já viu esse tipo de Igreja milagreira em Londres, Paris ou Berlim?

Por fim, uma fala sobre o Papa Francisco. Que tem achado de seu papado? Existe inferno? O inferno é aqui?

O papa Francisco é um milagre de Deus para uma Igreja, a católica, que retrocedia sob os pontificados de João Paulo II e Bento XVI. O polonês era diplomata; o alemão, teólogo; e o argentino é pastor. Não há nenhum estadista, hoje no mundo, que brilhe tanto quanto o papa Francisco. Sua sensibilidade social e sua defesa intransigente dos mais oprimidos, como os refugiados africanos e de guerras no Oriente Médio, fazem dele um líder singular, de grande autoridade moral.

Como bem disse Dostoiévski, “o inferno é o sofrimento de não poder mais amar”.