O Brasil não acabou

O Brasil não acabou

Morris Kachani

14 Maio 2018 | 09h51

 

“Seria excelente se discutíssemos com paixão, compreendendo que as ideias brigam, mas as pessoas não devem brigar.”

Jornalista e escritor, hoje com programa na GloboNews e coluna no jornal O Estado de S.Paulo, aos 77 anos, Fernando Gabeira protagonizou importantes momentos da vida política brasileira. Mineiro de Juiz de Fora, mas muito mais carioca da gema, combateu a ditatura; foi candidato a governo e prefeitura do Rio de Janeiro e também à presidência da República; deputado federal por quatro mandatos consecutivos; e pioneiro na defesa do meio ambiente. Apesar do admirável e longo percurso na política acabou por abandonar a atividade. Voltou para as redações, onde começou sua vida profissional, e dedica-se também à produção literária.

Gabeira participou da luta armada contra a ditadura militar como militante do movimento Revolucionário Oito de Outubro, o famoso MR8. Em 1969, sequestrou, junto com mais 11 jovens guerrilheiros, o embaixador norte-americano Charles Elbrick. O episódio foi relatado em seu livro “O que é isso companheiro?”, que virou um clássico da literatura nacional. Um ano depois, ao resistir à prisão, levou um tiro nas costas que perfurou o fígado, mas resistiu. Passou então uma década exilado no Chile, Itália e, principalmente, na Suécia onde estudou Antropologia pela Universidade de Estocolmo.

Quando a ditadura entrou em declínio, Gabeira voltou ao país e virou, novamente, assunto nacional. Não mais pela ousadia de, ainda garoto, capturar diplomata e enfrentar os anos de chumbo. No verão de 1980, o ex-guerrilheiro, acostumado a frequentar nu as praias da Grécia, passou a comparecer ao Posto Nove, em Ipanema, vestido com uma tanga lilás de crochê. Com isso pretendia debater o machismo e a diversidade sexual. Esse foi outro aspecto político de sua trajetória: a defesa de pautas polêmicas como profissionalização da prostituição, casamento gay e legalização da maconha.

Nesse maio de 2018, em que se comemora os 50 anos de maio de 1968, o Brasil atravessa uma de suas maiores crises – política, moral e econômica. Os momentos são distintos, mas a data emblemática. Para pensar o contexto atual do país sob essa perspectiva histórica, o blog entrevistou Fernando Gabeira. Discreto, elegante e muito lúcido, o jornalista retirou-se da política, mas não desistiu do Brasil.

Por Juliana Cunha Lima Neves

Estamos em maio de 2018, comemorando 50 anos de maio de 1968. Para o senhor, que foi testemunha e protagonista de nossa história política, o Brasil está melhor? Valeu a pena a luta?

A luta que houve no Brasil não está circunscrita apenas ao que houve, em 1968. Ela é muito mais ampla. Valeu a pena porque conquistamos a democracia, ultrapassamos o primeiro obstáculo que era a impossibilidade de escolher diretamente um presidente da República, surgiu o movimento em torno das eleições diretas e, depois disso, houve um processo democrático que chegou ao ponto que chegou.

Hoje o sistema partidário está falido, mas as instituições que o regulam estão trabalhando no sentido de punir responsáveis pelos erros que aconteceram, que é o caso da Lava Jato. E prepara-se agora, no processo eleitoral, uma resposta articulada da sociedade sobre tudo isso que aconteceu. Evidentemente que é uma resposta limitada. Não houve uma reforma política de fato. As coisas estão de tal maneira, que as portas da renovação estão muito estreitas. Mas, o processo democrático está em curso e teremos que partir dessa crise para reconstruir.

Não que o país esteja destruído. Reconstruir o sistema político, partidário, as estruturas políticas com um objetivo de estabelecer, novamente, uma conexão entre o sistema político e a sociedade.

E nos costumes, no que o senhor acha que avançamos ou regredimos?

Na verdade os movimentos no Brasil não se deram só no campo da política, mas no da cultura também, e o tropicalismo é um exemplo disso. O maio de 1968 e as ideias de 1968 no exterior são um pouco diferentes do que aconteceu aqui. No Brasil foi a partir do declínio da ditadura militar que começaram mais fortemente as pretensões do feminismo, da luta contra o racismo, dos homossexuais. Isso estava em gestação no fim da ditadura militar. Quando cheguei ao Brasil, em 1979, havia um jornal chamado Lampião que era o primeiro porta voz do movimento gay e surgiu com uma distância grande de 1968. Da mesma maneira, o movimento feminista ganhou maior dimensão no país a partir da democratização. Esses movimentos se fortaleceram no processo de democratização.

O movimento de 1968 se expressou em diferentes países e em tempos diferentes. Aqui a luta principal era em torno da derrubada do governo autoritário. No exterior era uma luta mais cultural. O slogan de nosso “maio de 1968” era “proibido proibir” ou “desejamos o impossível”. São coisas que expressavam uma situação em que o movimento dos trabalhadores, já não era mais o grande sujeito das transformações. As expressões não eram mais econômicas, eram culturais. Esse processo foi mais lento no Brasil, quando as expressões culturais passam a ser mais importantes.

Existe hoje no Brasil uma grande presença do feminismo, do movimento negro, do movimento gay. Todas essas questões foram assimiladas. Agora, o quanto avançamos depende de como vemos. Se entendermos o avanço em termos de nossas identidades culturais, avançamos muito. Mas, precisamos entender também qual foi o preço do avanço das identidades culturais, que enfraqueceram um pouco a força da luta nacional. Começou a ter uma divisão bem forte na própria sociedade, que não está apenas nas identidades culturais, mas em toda luta política.

Nós nos dividimos muito mais do que estávamos divididos no passado. Na luta pelas Diretas estávamos todos no mesmo palanque. A luta nacional era uma coisa pensada. Tínhamos objetivos nacionais. Com o nível de radicalização e de hostilidade recíproca, que aconteceram de lá para cá, as ideias de um projeto nacional em torno de alguma coisa que supere identidades e diferenças ideológicas é muito difícil hoje. Talvez mais do que no passado.

 O que é ser progressista?

Para responder a esta pergunta, é preciso avaliar a palavra progresso. Que tipo de progresso se quer. Tem progressista que quer o crescimento econômico. Tem o progressista que não deseja o progresso econômico a todo custo, mas um progresso sustentável. Não só na preservação de recursos naturais, mas também em uma ética das nova geração. A ética nas novas gerações é progressista.

Como o senhor se define hoje politicamente?

Eu não sinto essa necessidade de me definir. Tive uma formação mais de esquerda, procuro avaliar o que considero correto ou não nas ideias de esquerda. E, hoje, tomo posições um pouco desconfiado de uma rigidez ideológica. Busco encontrar soluções que, independente de serem direita ou esquerda, me pareçam mais adequadas. Eu respeito as pessoas que são de esquerda e de direita, mas nem sempre elas têm razão em tudo.

O que é ser esquerda?

Não acho a forma de ser de esquerda no Brasil adequada. Na minha opinião, ser de esquerda hoje é compreender, primeiro, que a democracia não é apenas uma tática. A democracia não é um pretexto para se chegar ao controle total do poder. A democracia é uma visão estratégica e algo a se conquistar progressivamente, cada vez mais. Isso já define um nível de esquerda fundamental. Ser de esquerda também significa avaliar se ela tem alguma alternativa para o capitalismo. É algo para se discutir. Se a alternativa para o capitalismo se produz na mesa de trabalho ou vai se mostrar ao longo do desenvolvimento do próprio capitalismo.

Em outras palavras, se a história tem script ou não. Eu sou daqueles que acham que hoje a história não tem script pré-determinado. Então, nesse sentido, eu não sou de esquerda. Não tenho nenhuma fé no curso da história, em determinado rumo.

O Brasil atravessa uma de suas maiores crises – política, moral e econômica. Passamos pelo impeachment de Dilma Rousseff, por um período de grave recessão na economia, temos enfrentado o combate a corrupção e testemunhado um conflito institucional entre judiciário e classe política. Como desdobramentos tivemos intervenção federal no Rio de Janeiro, a morte de Marielle e a prisão de Lula. Qual a sua visão sobre esse momento que vivemos?

O momento é de pensar nas eleições de 2018 e discutir, amplamente, a reconstrução do país em novas bases. Isso, para mim, é o principal do momento, que está ofuscado pelos fragmentos do passado. A prisão do Lula, todas as coisas que foram avaliadas em termos de corrupção, o desenvolvimento da Lava Jato já são hoje secundários frente a necessidade que temos de olhar para frente. De pensar como vamos sair dessa crise e buscar algum entendimento.

Seria excelente se discutíssemos com paixão, mas discutíssemos também compreendendo que as ideias brigam, mas as pessoas não devem brigar. Seria necessária uma discussão que clareasse o rumo dos políticos sobre o que fazer, a partir de janeiro de 2019.

As eleições de 2018 podem apaziguar a instabilidade política do país?

Eu não acho. Nas eleições sempre há muita polarização. Mas, se conseguirmos retirar essa polarização da cena principal, o lado mais radical da polarização, fica mais fácil a gente se aproximar de alguns consensos nacionais. Agora é inevitável que exista polarização de extremos. É inevitável que pelas circunstâncias históricas e desenvolvimento da conjuntura, o extremo mais a direita cresça e chegue aos seus limites nessas eleições. Alguns extremos da direita chegaram no segundo turno em outros países como na França na eleição do Macron e Marie Le Pen. Esse processo me parece que vai também se configurar no Brasil.

 O senhor já tem candidato a presidência da República?

Não (risos). Nessas eleições minha intenção não é comentar as características de um ou outro candidato. Mas, discutir coisas que possam ser consensuais para tentar levar qualquer vencedor a considerar isso uma demanda que tem que ser atendida.

Além de jornalista e escritor, o senhor tem um percurso político admirável:  combateu a ditatura, foi candidato a governo e prefeitura do Rio de Janeiro, também a presidência da República, foi deputado federal por mais de um mandato, defendeu causas nobres e caras ao Brasil, principalmente, nas questões ambientais. Por que o senhor continuou jornalista e escritor e abandonou a política?

Perdi quase todas as eleições, de modo que não posso ser considerado um vencedor nesse campo. Fui eleito como deputado quatro vezes e procurei desenvolver meu trabalho. Em determinado momento senti que a questão da corrupção tinha um papel fundamental. Me dediquei um pouco ao combate a corrupção. Fui sub-relator de uma CPI que funcionou, chamada CPI dos Sangue Sugas, que teve efeito razoável. Mas, a partir do segundo governo do Lula, as coisas ficaram muito difíceis para se lutar contra a corrupção no Congresso. Você estava em território minado. Eu senti que era deputado, mas que não conseguia fazer aquilo que era necessário. Então decidi abandonar e voltar a minha carreira de jornalista, que gosto muito. Comecei quando garoto e estou terminando agora.

 O atual cenário político do Rio de Janeiro é desolador. A Lava Jato e essa crise toda trouxe à tona a precariedade da política carioca. O Estado tem pouquíssimos quadros qualificados de políticos.  O senhor era com certeza um deles, mas não permaneceu na política. O que acontece no Rio de Janeiro?

O que aconteceu no Rio foi um longo período de dominação do PMDB. E toda minha atividade eleitoral, independente das propostas da campanha, era no sentido de derrotar esse grupo, que me parecia bastante problemático pela corrupção e pela incompetência. Isso não foi realizado porque se vivia, no momento, uma euforia do petróleo. Havia também muito dinheiro injetado no Rio de Janeiro através da aliança entre o Lula e o Cabral. A sociedade se deixou seduzir pela candidatura do Cabral e pelo que propunha, que era muito sedutor: prosperidade, abundância de dinheiro, algo que interessava muita gente. Todos participando desse banquete. Então houve uma tendência à vitória dele.

Era muito difícil competir com o Cabral. Além deles terem muito dinheiro, que vinha da corrupção, tinha também a sedução do crescimento econômico e um investimento maciço do governo federal aqui. Isso fez com que a oposição se desarticulasse e, agora, com a queda do Cabral não tem no Rio de Janeiro nenhuma alternativa para a reconstrução. Eu concordo que há uma escassez grande de quadros para a transição.

O descrédito da atividade política e dos políticos dominam o país como um todo. O que seria, na sua opinião, a tão desejada renovação política no Brasil? Como chegar lá?

Uma coisa que a prática no Congresso me mostrou é que a renovação não pode ser apenas a entrada de novos nomes. Porque mesmo que entrem com boas intenções, depois de um tempo, que nada mudou na estrutura, no funcionamento do Congresso, as pessoas passam a falar a linguagem dos velhos. Elas começam a falar o idioma antigo.

É preciso mudar aspectos do funcionamento, do mecanismo para que a pessoa não seja sufocada ou engolfada pelo tradicional. A renovação nunca pode ser confiada como uma renovação a partir do zero. Vou te dar um exemplo cômico. Se tivéssemos 512 deputados novos e mais o Eduardo Cunha eleito, era capaz dele enrolar todos e dirigir o Congresso durante muito tempo, com os mecanismos e as coisas que existem lá. Então é fundamental que exista uma preocupação mais articulada de se apoiar pessoas que passaram pelo Congresso, dispostas a renovar, mas que não tiveram oportunidade de fazer isso no mandato. Elas podem transmitir essa experiência, que ajudaria a conduzir um outro caminho lá dentro.

É preciso fazer um redesenho institucional?

O redesenho institucional implica uma coisa muito ampla, que talvez a gente não possa fazer. Deve haver uma série de medidas e caminhos a ser conquistada em associação com esse grupo renovador. Um grupo que se salva no Congresso e a sociedade. O foro privilegiado é uma das metas. Acabar com o foro privilegiado e outros fatores que podem contribuir um pouco para controlar a corrupção.

Outra coisa que minha presença lá dentro ensinou é que um grupo articulado de renovadores, em contato e permanente debate com a sociedade, tem poder de conquistar muitas coisas. Nós tivemos dificuldade para garantir o voto aberto nas cassações de mandatos. Quando essa questão foi colocada houve um grande empenho da sociedade para que o voto aberto fosse adotado. E levamos isso a voto aberto e a votação foi quase maciça. Então cada vez que você consegue colocar um tema na agenda e envolver a sociedade, a pressão sobre o Congresso é grande, e você pode obter algumas vitórias. Isso dá mais poder à sociedade dentro do próprio Congresso.

Em maio de 2018, como o senhor enxerga o futuro do Brasil?

Eu não enxergo claramente o futuro do Brasil. Mas, o Brasil avança em vários campos. Em termos econômicos estamos vivenciando uma recuperação econômica. Acho que o Brasil pode recuperar a importância econômica que estava adquirindo inclusive no mundo. Podemos reconstruir o sistema político partidário, que tenha o mínimo de respeito e integração com a sociedade. No campo cultural, espero um Brasil criativo, reverente com todas as suas características.

O Brasil não acabou. Não estou esperando um Brasil, porque o Brasil está aqui. E existem muitas coisas no Brasil, que me apoio em termos de esperança. Uma delas é o potencial de nossa riqueza natural. É claro que o processo de destruição ambiental traz preocupação. Mas, podemos esperar que exista, cada vez mais no Brasil, uma consciência de preservação do meio ambiente. Eu espero um Brasil mais sustentável e consciente da importância das suas riquezas naturais.

Agora vou te confessar a última coisa. É isso que espero, mas já esperei coisas e nem todas as coisas que esperei se realizaram. Tudo vai depender de combinar com os russos.