O desabamento, segundo Guilherme Boulos

O desabamento, segundo Guilherme Boulos

Morris Kachani

07 Maio 2018 | 11h43

Foto: Werther Santana

Dois moradores da região do Largo do Paissandu, perto de onde o edifício Wilton Paes de Almeida desabou, faziam as contas, neste domingo de manhã:

– Pense bem. O sujeito mora digamos, em Itaquera. Gasta 500 reais de aluguel. Mais 200 de condução por mês para vir ao Centro. Fora o tempo que leva pra ir e voltar.

Quem são essas pessoas?, interpelo.

– Garçom, pedreiro, eletricista. Esse pessoal que move a mola da cidade. Onde tem trabalho pra essa gente, é no Centro, responde um.

– Fora as crianças. Aqui tem o Sesc, tem as praças, tem escolas melhores, completa o outro.

A conta é de que mesmo pagando 400 reais, como os ocupantes do Wilton Paes de Almeida pagavam, compensa.

Então lhes pergunto sobre a criminalidade nas ocupações. “Infiltração” foi a resposta.

– 60% dos ocupantes mais ou menos, tem esse perfil do trabalhador. Mas a infiltração é inevitável. O poder da criminalidade unida é um fato. Cansei de ouvir, sempre que tem um problema, “chama os irmãos pra resolver” (‘irmãos’ são o PCC).

*

Fiz questão de visitar o local da tragédia como preâmbulo para a entrevista com o Guilherme Boulos, coordenador do MTST e pré-candidato à presidência pelo PSOL. Vinha insistindo em falar com ele, pois o assunto do déficit habitacional é parte essencial de sua agenda. Concorde-se ou não com ela, queria ouvir sua interpretação sobre os acontecimentos – apenas fragmentos dela aparecerem por aí.

Foto Amanda Perobelli

No domingo pela manhã, a fumaça continuava saindo dos escombros. Uma cerca dividia os moradores que se abrigaram na praça, com seu punhado de pertences, dos curiosos do lado de fora. Muita gente prostrada, uma briga aqui outra ali. Evangélicos circulando com suas ideias e pilhas de livros. Entre os desabrigados, articuladores e militantes. Algum cheiro de maconha. Como em um big brother a céu aberto, dos tristes espetáculos que São Paulo sabe proporcionar.

Volto para os dois moradores da região, antes de entrar com a entrevista feita com o Boulos. É que um deles dormia quando ouviu o estrondo.

– Achei que era mais uma explosão da cracolândia. Tentei adormecer novamente mas acordei com a fumaça e a sirene dos bombeiros, explicou.

Este é o inconsciente coletivo.

*

Entrevista com Guilherme Boulos

Conte sua visão geral sobre o que aconteceu no Centro de SP.

Guilherme Boulos – O que ocorreu foi uma tragédia que levou à morte de pessoas e a centenas de desabrigados que ainda hoje estão ao relento, no Largo do Paissandu, sem que a Prefeitura de São Paulo ou o Governo do Estado tenham apresentado qualquer alternativa concreta de moradia, até aqui.

Essa tragédia, de algum modo, podia se dizer que era anunciada. Não é segredo para o poder público da condição de abandono de dezenas e até centenas de imóveis, de edifícios nas regiões centrais. Não é apenas de São Paulo, mas de toda grande cidade brasileira. O cenário que nós temos é desolador em relação às políticas públicas de moradia.

Existem no Brasil 6 milhões e 350 mil famílias sem teto, segundo o IBGE é o déficit habitacional, e ao mesmo tempo 7 milhões e 900 mil imóveis ociosos, abandonados. Tem mais casa sem gente do que gente sem casa.

É importante registrar que esses imóveis estão em situação ilegal, porque a Constituição determina que uma propriedade tem que cumprir uma função social, o que não é o caso de uma propriedade abandonada. Ou seja, o abandono de imóveis, muitos deles nas regiões centrais, que poderiam ser requalificados para moradia popular, leva a uma situação de deterioração desses imóveis.

Então faltou uma atuação do poder público no sentido de reformar esses imóveis, de redirecioná-los para a moradia popular e a gente espera que essa política seja efetivada para que novas tragédias não aconteçam.

Destes 7,9 milhões de imóveis que mencionou, são todos eles abandonados e passíveis de ocupação? Como diferenciar abandono e ociosidade? Um imóvel com suas dívidas quitadas e em dia mas que não está em uso porque não consegue alugar, em que medida ele deveria ser requalificado para moradia popular, na sua avaliação?

Esses imóveis a que me refiro estão em situação de abandono. Não são casas de veraneio, ou imóveis que estão para alugar. São imóveis em situação de completo abandono. São esses que são passíveis de ocupação e não cumprem função social. Importante diferenciar isso. Se não se cria uma ideia que se difunde de maneira preconceituosa, de que o movimento social vai ocupar o quintal das pessoas, a casa de praia de alguém, e isso não existe.

O que sentiu quando foi ao Largo do Paissandu?

Eu estive lá no dia em que aconteceu a tragédia, no Largo Paissandu, e pude dialogar com as famílias que estão desabrigadas, muitas delas desabrigadas até o momento, no local. É triste de se ver pessoas que sofreram uma tragédia, algumas perderam amigos ou entes queridos, e agora sofrem com o descaso. Você vê a completa falta de solidariedade do poder público. Enfim, as pessoas continuam lá, ao relento. A incapacidade de sentir a dor do outro é uma coisa que impressiona.

Eu tenho visto nos últimos 16 anos na militância, ao lado dos sem-teto na luta por moradia, que é um sofrimento invisível. E nesse caso foi visibilizado lamentavelmente pela tragédia, mas depois disso as pessoas preferiram se dedicar a outros assuntos e esquecer que tem centenas de pessoas desabrigadas como resultado disso.

O poder público não ofereceu ainda nenhuma alternativa habitacional.

Eu queria aproveitar essa questão para lamentar a atitude de jornalistas, inclusive, que saíram da maneira mais descuidada e leviana reproduzindo fake news, algumas delas culpabilizando as vítimas, outras criminalizando os movimentos sociais.

Uma dessas fake news é de que eu não teria ido ao local, que eu teria tratado a questão com descaso – o que é uma mentira atestada muito facilmente. Eu estive… Tem fotos, tem vídeos da minha presença no local fazendo reunião com as famílias.

O MTST, muito embora não organizasse aquela ocupação, depois por solidariedade àquelas famílias entrou para dialogar com o poder público para encontrar uma solução. É triste ver gente como Zuenir Ventura, no Globo, reproduzindo da maneira mais leviana fake news e querendo comparar a minha suposta não ida lá com a ida do Michel Temer que saiu de lá escorraçado por querer fazer populismo em cima de corpos.

Eu fui lá fazer o que eu faço há 16 anos na minha vida, que é estar junto com os movimentos de moradia, junto com as pessoas que precisam de casa, buscando construir alternativas.

Sobre as reações do Doria (e vários artigos pipocando, que relacionam criminalidade e ocupação), do Márcio França, da Prefeitura de SP…

É uma perversidade a tentativa de culpar as vítimas pela tragédia. Nós vimos isso nos últimos dias, pessoas dizendo: “Mas os sem-teto estavam em um lugar inseguro, ocuparam um lugar inseguro”. Como se as pessoas ocupassem por vontade, como se não fosse por falta completa de alternativa.

O que leva alguém para uma ocupação é o drama que milhões de brasileiros sofrem entre no final do mês ter que optar por pagar o aluguel ou comprar o leite da criança. Ninguém ocupa porque quer e não são os sem-teto ou os movimentos que têm condições técnicas de saber qual é o estado de segurança de um imóvel. Quem deveria fiscalizar isso de maneira permanente é o poder público.

Agora, ver o governador Márcio França reproduzindo esse tipo de ideia é algo deplorável, ver o ex-prefeito João Doria indo além disso e relacionando de maneira leviana com o crime organizado, com o narcotráfico…

Bom, se for assim ele tem algo a responder, porque circularam aí, inclusive, nos jornais, nas redes sociais, fotografias dele posando ao lado de representantes daquela ocupação.

E o Temer que foi fazer populismo em cima da tragédia, que apareceu lá para demonstrar uma preocupação que é visivelmente falsa.

Em relação à Prefeitura de São Paulo, e estendo isso ao Governo do Estado de São Paulo, eles não assumiram até agora a sua responsabilidade de uma solução para os desabrigados. As pessoas seguem no Largo do Paissandu sem qualquer assistência por parte do poder público. Então é imprescindível de que mais do que declarações, a Prefeitura e o Governo do Estado encontrem soluções para acolher e abrigar essas famílias.

A Prefeitura ofereceu albergue às vítimas, e vai vistoriar os outros imóveis ocupados no Centro. Disseram que convidarão os movimentos sociais a participar força-tarefa. No que vai dar isso? Queria que comentasse sobre estas ações da Prefeitura.

As pessoas não podem ser tratadas como bicho. As pessoas que estão na praça não aceitaram ir para o albergue porque isso significa dividir as famílias, significa não poder ficar com seus pertences. No albergue as pessoas só poderiam ir para lá de noite, não poderiam ficar durante o dia. Não dá pra tratar as pessoas como bicho.

Quanto a essa reunião, ela vai ocorrer. E o MTST, junto com vários outros movimentos sociais, se incorporou para buscar alternativas para as famílias, e vamos cobrar para que a alternativa seja de moradia digna para todos que estão lá.

Qual o perfil do MSLM? E do líder deste movimento? No que se diferencia do MTST?

Esse movimento é amplamente desconhecido, não apenas por nós, mas pelo conjunto do movimento de moradia de São Paulo. Nós fomos buscar saber a procedência, as posições do movimento após a tragédia e foi difícil de encontrar alguém que soubesse o que era.

Em relação às diferenças com o MTST, se procedem as acusações que estão colocadas, de cobrança de aluguel e distorção, essa é a diferença mais evidente. O MTST nunca cobrou qualquer tipo de taxa, de mensalidade, de o que quer que seja das famílias que fazem parte do movimento, como é público e notório. E as ocupações do MTST estão abertas para quem quiser atestar pessoalmente.

Aliás, é incrível como, partindo de práticas oportunistas de setores isolados, se buscou fazer nos últimos dias uma operação para criminalizar e desmoralizar o conjunto de movimentos sociais que lutam por moradia. Bom, se há oportunistas no movimento por moradia, nós não podemos deixar de constatar que há mais oportunistas no Congresso Nacional do que no movimento por moradia. É preciso saber separar o joio do trigo e não fazer uma generalização que julgue o conjunto de pessoas e movimentos que lutam por moradia digna pela régua de oportunistas e aproveitadores.

Que acha honestamente que deveria ser feito com as 70 ocupações do Centro?

Olha, os prédios que estão ocupados no Centro, deveriam ser requalificados e destinados para a moradia popular. Existe um programa para isso, existem recursos que poderiam ser destinados para isso. Mas, lamentavelmente, também existe um preconceito, um preconceito de que pobre não pode morar nas regiões centrais. De uma lógica de cidade que joga os pobres sempre para as periferias mais distantes.

Então, a luta por moradia no centro é essencial dentro de um projeto de reforma urbana e direito à cidade, que coloque as pessoas mais próximas de seus locais de trabalho, onde há uma disponibilidade de serviços públicos, infraestrutura, equipamentos culturais, de lazer. Então é essencial que se coloque na mesa, nesse momento, o debate das moradias populares no Centro. O poder público tem todos os instrumentos, se o edifício for privado, para desapropriá-lo e destiná-lo para a moradia popular. Se o edifício for público, já se tem, inclusive, um passo além. É essa política que deve ser feita.

Você as conhece? Tente descrever um pouco estas moradias, para quem nunca visitou uma ocupação.

A maior parte das ocupações do MTST não são de prédios no Centro, mas, sim de terrenos, tanto em regiões mais centrais, mas também nas periferias. Então, eu tenho menos contato pessoal com as ocupações do Centro, embora as conheça.

Via de regra, são imóveis que ficaram abandonados por muito tempo, com dívidas com o poder público, com até litigio em relação à propriedade na Justiça, e que os sem-teto ocupam, organizados, para dar uma função social a esses imóveis. As ocupações que eu pude visitar de movimentos sérios, são sempre organizadas, com assembleias, com regras internas definidas, também, por assembleias e com participação das pessoas na gestão do espaço.

É possível traçar um perfil do morador de ocupação no Centro?

Eles são, via de regra, o mesmo perfil dos sem-teto que participam de ocupações em todo o Brasil: pessoas que não conseguem mais pagar o aluguel, que estão em vias de despejo ou que chegaram a ser efetivamente despejadas por essa razão, ou que estavam morando de favor em casa de parentes, em puxadinhos, e tal, pessoas em situação de rua, que vão para a ocupação na tentativa de encontrar um abrigo.

E eu tenho visto, e essa ocupação em que ocorreu a tragédia também é uma expressão disso, muitos imigrantes – imigrantes que sem condições de moradia vão para as ocupações.

A informação de que cobravam até 400 reais de aluguel procede? Que acha disso?

É preciso apurar. Agora, pelo relatos e depoimentos que temos visto de moradores na imprensa, aparentemente havia, sim, uma cobrança de taxa, uma cobrança imposta, extorsiva – o que é absolutamente inadmissível. Explorar a miséria das pessoas, explorar a situação precária das pessoas para obter benefícios pessoais e ganhos é algo que deve ser veementemente condenado, sem qualquer tipo de ambiguidade. E essa é a nossa posição, minha e do MTST.

Comente um pouco mais sobre fake news.

Os ataques que foram feitos contra mim nos últimos dias são, sobretudo, a difusão de fake news. Primeiro, a ideia de que a ocupação era organizada pelo MTST e que, portanto, o MTST e eu seríamos responsáveis pelas práticas que o movimento que lá organizava, realizou.

Isso é fake news. E se difundiu a ideia de que eu não teria ido ao local, o que eu já mencionei que é outra mentira. E daí o desdobramento de outras fake news, que atacaram, inclusive, a minha família, dizendo que teria patrimônio de terrenos, atribuindo terrenos de maneira mentirosa a mim e a minha família. Estamos, evidentemente, reagindo a isso, não apenas nas redes, esclarecendo as verdades, criando uma campanha para que as pessoas compartilhem a verdade e denunciem as fake news, como também judicial e criminalmente.

Nós entramos com uma ação judicial contra várias figuras que estão difundindo isso, inclusive jornalistas ou gente que algum dia já foi algo parecido com um jornalista, como Augusto Nunes. Estamos, também, entrando com uma ação judicial contra Alexandre Frota, contra o movimento MBL, que é um dos principais alimentadores de notícias falsas nas redes.

Nós precisamos saber, o Brasil precisa saber quem é que financia essa rede criminosa de fake news. Nós estamos a cinco meses das eleições e já está nesse nível, imagine como vai estar nos próximos meses. Não é possível admitir que as pessoas propaguem e se utilizem de notícias falas para fazer a disputa de ideias ou a disputa política. Isso não é só baixaria, como é crime. E assim vai ser tratado.

Nessa guerra de informações, em algum lugar li que você disse que o edifício não “pertencia” ao MTST. Foi um ato falho?

Eu usei esse termo para responder ataques que vinham com a mesma expressão nessas notícias falsas, alegando que a ocupação inteira “pertencia” ao MTST. Então a minha expressão foi uma resposta. Mas, evidentemente, o que está em questão no sentido dessa resposta é que a ocupação não era organizada pelo MTST e, de fato, como é público e notório, era organizada pelo MLSM e não pelo Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto, que é o movimento pelo qual eu respondo.