Os fetiches de Charles Cosac

Os fetiches de Charles Cosac

Morris Kachani

14 Setembro 2017 | 08h47

No salão de casa com a escultura de Tunga, feita com pedras de quartzo

Em um apartamento de uns 1000 metros quadrados, em um belo edifício no Higienópolis, cercado de dezenas ou talvez centenas de obras assinadas por artistas como Siron Franco, Ivan Serpa, Miguel Rio Branco ou Tunga, o líder máximo da Biblioteca Mário de Andrade, segunda maior do país, e ex-publisher da saudosa editora Cosac Naify, Charles Cosac, me recebeu para um agradável café, em um final de tarde de domingo.

Minha intenção inicialmente, era de compartilhar as raízes sírio-libanesas e assim fechar um ciclo iniciado com o Luiz Schwarcz, outro publisher, com quem dividi uma conversa sobre nossas origens judaicas comuns.

Com Cosac claro, também tinha a tentação de ouvir alguma pérola excêntrica que pudesse se transformar em notícia e repercutir pelos jornais. Mas esta tentação tão própria do jornalismo superficializante se desfez ao encontrá-lo, pois logo notei que era a sinceridade e talvez até, alguma ingenuidade, que colaboravam com esta fama. E o que é uma pérola excêntrica diante de uma figura tão ímpar e complexa?


Era domingo de tarde e ele estava vestido como se estivesse indo para uma festa. O cinto da calça por exemplo, ostentava uma mini escultura de cachorro, banhada em dourado. Metade da casa era acarpetada em vermelho, em homenagem a “Gritos e Sussuros”, de Bergman.

E o que dizer sobre seu hábito de não ler as duas páginas finais dos seus livros, e sobre ter relido 150 vezes “Crime e Castigo”, de Dostoievski? Charles Cosac não vê televisão e também não lê jornais e revistas. Ele é analógico. Aprendeu a usar o email no celular com o trabalho na Prefeitura.

ANTES DA ENTREVISTA, UM POUCO DE HISTÓRIA…

Sua família fez fortuna com a mineração. O pai, Mustafá, com lascas de quartzo na Bahia, e a mãe, Hend (rebatizada Vitória no Brasil), com ferro em Minas Gerais.

Nasceu no Rio de Janeiro em 1964. Se formou em matemática, mas fez mestrado em História e Teoria da Arte na Universidade de Essex, na Inglaterra. Iniciou seu doutorado sobre o artista plástico russo Kasimir Malevitch, quando decidiu abandonar os estudos e voltar para o Brasil.

Quando começou a publicar os primeiro livros no Brasil, em 1997, Cosac foi chamado de suicida. Sua posição no mercado editorial logo se tornou incômoda. Afinal ele só lançava livros de arte em edições luxuosas e a preços mais baixos que a concorrência. Os editores apostavam numa vida curta para o jovem e desatinado colega, então com 32 anos, que chegara há pouco da Europa pensando ser viável publicar e sobreviver no restrito mercado bibliográfico brasileiro de artes visuais.

A editora entrou no mercado justamente lançando belos livros de arte, de qualidade

impecável, vendidos a preços justos. Depois, agregou a área da moda, publicando a biografia de estilistas, história da moda e até da boneca Barbie. Em seguida, decidiu abraçar o segmento literário e, a partir de então, lançou livros de autores clássicos, consagrados e novatos que fazem a festa do público e da imprensa especializada. Eles se esmeraram nas traduções diretas para o português de alguns dos clássicos russos, norte-americanos, e de literatura contemporânea de diversos países. Mas a CosacNaify quase nunca passou pro “azul”.

A editora não tinha dívidas, não faliu. Ela foi fechada ano passado, pois para continuar funcionando, algumas coisas teriam que ser alteradas e ele não gostava da ideia de mudar.

Assumiu a direção da biblioteca no início de 2017, indicado pelo secretário da cultura André Sturm. Ele diz que tem sido um grande desafio; é o seu primeiro emprego com

registro na carteira. Ele doa seu salário à biblioteca, e o investe na compra de livros.

Houve algumas mudanças na biblioteca. Por exemplo, na grade de atividades culturais, as rodas de samba foram excluídas. Charles foi acusado de elitista pois disse que de roda de samba já bastavam as dos bares ao lado do prédio, e que haveria música erudita e jazz na programação. A biblioteca também suspendeu o funcionamento 24h, devido ao escasso número de visitantes entre meia-noite e 8h.

Outro ponto de sua gestão é tentar parcerias com as editoras e livrarias para conseguir descontos na compra de livros para o acervo da biblioteca. Charles também está trabalhando no projeto da Biblioteca Infantil, para crianças de até 7 anos, dentro da BMA.

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“Acho que a cada ano minha família cava um Maracanã nas montanhas. É um eterno conflito, porque eu condeno (a mineração) mas sou conivente ao mesmo tempo”

 “Eu fui mais ou menos poupado sobre a situação do Brasil, até um pouco fora da realidade”

 Acho que pra conhecer uma cidade, você tem que andar de ônibus, ir na biblioteca municipal e  ir no cemitério

“Moro em São Paulo há 21 anos, e acho que a cidade só melhorou, ela não piorou. Tenho fé no Doria. Mas me magoava um pouco a campanha dele de “self-made man”, que o dinheiro dele foi ele quem fez. Parecia que ele tava me mandando um recado”

 “Eu não quero depender de enfermeira brasileira dando beliscão, aqui é o país onde não se respeita o velho, nem a criança. Tenho que fugir daqui na velhice, tenho que ir prum país europeu, eu acho. Então desde os 15, venho pagando mensalmente uma previdência, que me permitirá escolher dentre um leque de asilos, na Áustria, na Alemanha, na França”

 “A próxima exposição que vou fazer, de arte sacra, eu queria misturar com grafite, lá na biblioteca. A ideia é super interessante, mas quando eu vi que ia me pôr na berlinda (risos), suspendi o grafite”

 Com 7 anos, fui fazer minha primeira confissão, e eu fui tentar falar pro padre que eu era gay. E ele falou que eu não era, e aquilo feriu muito a cabeça. Fui criado de maneira a acreditar que eu não podia mentir, e quando fui falar a verdade, o padre não deixou. A repressão começou com aquela confissão”

 “Nunca acordei ao lado de ninguém. E tenho grande orgulho disso. Não tenho tempo para relacionamentos”

 “Demorou pra entender que eu não ia resolver o problema dos sem-teto deixando a biblioteca aberta para seis pessoas”

 “O grande escândalo da Mário é que 15 dos 22 andares não estão no sistema de computação. É um absurdo! Na verdade, a gente é mais repositório de livro do que biblioteca”

 Eu adoro comprar roupa! Só compro do Saint Laurent, do Armani ou da Gucci, não tenho nenhuma roupa brasileira. Agora, eu não compro roupa estrangeira no exterior”

 

Remetendo ao nome do blog, o que seria o Inconsciente Coletivo hoje pra você?

O inconsciente coletivo no Brasil? Santo Cristo! (silêncio) Pra mim, seria o futuro, o próximo capítulo, o que vai acontecer com o Brasil realmente. Acho que está acontecendo alguma coisa, e ninguém sabe o que deveria estar acontecendo. Não existe uma oposição coesa, você entende? São várias vertentes, e todas elas têm alguma razão…

 

E você está onde nesse lugar?

Eu tô num lugar muito confortável, na posição de espectador e usufrutuário, porque os recursos da minha família vêm do Brasil, e dependo deles pra sobreviver. Minha família começou a chegar nos anos 20 e tantos, 30, fugindo da pobreza. Eu, na condição de uma pessoa nascida aqui, brasileira, passei muito à margem dos problemas do país, porque não eram assuntos comentados em casa.

Acho que uma família que vem fugindo da miséria, não está preocupada com política. Ao menos, ninguém da minha família se engajou politicamente. Por exemplo, eu nasci em 1964, uma data antipática, e passei até 1975, 1976 sem entender o que era o regime militar. Depois que eu fui para um colégio de educação libertadora, onde se falava em anistia, em AI-5, é que  vim a aprender retroativamente.

Também o fato da minha família ser muito fechada colaborou. Houve muitos casamentos entre primos, a família não se expandiu. Ela foi se esvaindo de alguma maneira, não tinham novos agregados. Porque quando você casa com uma prima, sua tia é a sua sogra, e a família não cresce numericamente.

Mesmo na época da editora, como eram recursos de família, nunca me preocupei muito, a não ser pelas pessoas, com a situação do Brasil. Nunca tive essa visão mais global, que o momento não está bom, que “não vamos fazer isso”. Eu fui mais ou menos poupado disso, até um pouco fora da realidade.

 

Você reverencia bastante as suas raízes?

Eu tenho uma teoria de que existem dois tipos de migração, a voluntária e a involuntária. Quando a migração é voluntária, a tendência é que a cultura fique pra trás. Quando é involuntária, você leva sua cultura com você. No caso da minha família, eles vieram por pobreza, miséria, então é voluntária. Não se falava muito do Oriente, da Síria, do Líbano. Eu vim desenvolver esse interesse pelas minhas raízes depois de adolescente, mas nunca tive incentivo dos meus pais.

Não era uma coisa muito forte pra mim. Primeiro eu tinha que descobrir a Europa, como uma pessoa nascida no Brasil, com uma visão muito eurocêntrica da vida, também herdada dos meus pais, e até dos meus tios. Eu me interessava mais pela França e pela Inglaterra. Na medida em que fui envelhecendo e buscando coisas em mim, veio a Síria, e de uma forma muito contundente, muito indisciplinada.

Fiquei muito impressionado quando eu pousei em Damasco, antes da guerra. Cheguei muito tarde, eram 3h da manhã, e fui pro hotel diretamente. No dia seguinte tomei café, saí andando na rua, e eu vi milhares de pessoas parecidas comigo, parecidas com meu pai, com minha mãe, com as minhas tias, meus primos. Quando eu usava roupa árabe, ninguém olhava pra mim. E esse sentimento de pertencer me agradou muito. Eu amei ter ido pra Síria, visitei algumas cidades, sem nenhum plano. Cheguei a andar 13 horas num dia. Pegava ônibus, pegava “besta”… eu queria me perder!

Acho que tudo na vida tem que ser um encontro. Eu quero esbarrar nas coisas, não quero ir até elas. Aí à noite, quando eu estava cansado, pegava a caixinha de fósforo do hotel e entrava num táxi, mostrava e voltava.

Acho que pra conhecer uma cidade, você tem que andar de ônibus, ir na biblioteca municipal e  ir no cemitério. A biblioteca lá é incrível, de uma riqueza extraordinária, não havia aquele ceticismo que a gente tem, aquele cuidado. Eu comecei a entender muitos aspectos dos meus pais que eu não atribuía à cultura deles simplesmente porque não a conhecia. Foi mais fácil conviver com eles depois de conhecer de onde eles vieram. Infelizmente eu já era um tanto adulto, isso aconteceu no final da juventude.

 

Você é filho único?

Não, tenho duas irmãs. A Beth, que é do primeiro casamento da minha mãe, é metade síria, metade judia. Minha mãe se casou com um judeu daqueles do Brooklyn, sabe? Ela ficou com ele 9 anos. Depois se divorciou, e se casou com meu pai, que era primo-irmão dela, pra quem ela já estava prometida, e teve mais dois filhos, que é a Simone e eu.

Então teve aquela coisa do semitismo… Todos os árabes são semitas. Semita não é ser judeu; é a pessoa daquela região. É a mesma coisa que você querer diferenciar um baiano de um pernambucano. Você pode até diferenciar, mas não pode falar que são duas raças distintas. Nós, judeus e árabes, somos semitas.

 

Como é que foi e como é pra você lidar com a herança?

Eu acho que a melhor coisa que aconteceu comigo foi sair árabe. Aí já vem um pouco de nacionalismo, que é um sentimento que eu tenho muito medo. Eu tenho muito orgulho de ter 100% sangue árabe, uma vez que sou filho de primos-irmãos, e meus pais, até pouco tempo, nunca deixaram eu falar que era brasileiro, ofendia o ouvido deles. Minha mãe me dizia, “você nasceu no Brasil por mero acidente, mas você seria exatamente como é se tivesse nascido na Síria”.

Havia uma relutância muito grande da minha família em se integrar com a cultura brasileira. Foi uma infância e adolescência no meio da família, uma vida entre tios que, para nós, eram como pai e mãe.

 

Prevaleciam valores patriarcais, meio como “Lavoura Arcaica”?

Mais ou menos. Acho que o sistema árabe é matriarcal. Lá em casa, por exemplo, quando eu queria uma coisa, tinha que falar primeiro com a minha avó, para ela permitir e depois liberar pro meu pai. O caminho era esse. E eu via uma subserviência muito grande dos meus tios paternos e maternos em relação às mães, não tanto em relação aos pais. Uma idolatria! Meu pai beijava os pés da minha avó, a sola, todos os dias. Tinha verdadeira veneração.

Ele não era assim com minha mãe, que é prima-irmã dele. Nunca beijou os pés dela, mas existia um respeito porque eles eram primos-irmãos. Acho que sempre que havia uma divergência, passava na cabeça deles que o sogro era tio também, que a sogra era tia. Então as discussões iam até um ponto.

Isso não quer dizer que foram casamentos felizes. São todos infelizes, mas eram muito respeitosos, tranquilos, muito sem expectativas.

 

A herança em si, como você falou, pode blindar a vida, de certa maneira. Como foi isso pra você?

Era difícil morar no Rio de Janeiro, uma casa enorme, a maior da Urca. Eu morei na casa dos meus tios, e minhas primas não podiam usar biquíni. Só podiam tomar sol no último andar da casa porque ninguém via. Nenhum empregado podia ver. Era difícil saber que minha tia não podia usar batom, ou calça comprida.

 

A família é cristã?

É. Como mamãe teve esse jejum de 9 anos em Nova York, ela era a ‘puta’ da família. Primeiro, ela foi desquitada. Segundo, se casou com um judeu o que seria, digamos, a pena máxima. Terceiro, ela desistiu do judeu, voltou. Quarto, ela re-casou com um primo que ficou esperando. Quinto, ela dirigia, usava calça comprida, salto alto, maquiagem, fumava, queria que a gente estudasse fora. Mamãe modernizou muito eu e minha irmã. Nosso destino seria outro se tivéssemos saído de outro tio e outra tia. Ela não era uma mulher preconceituosa.

Isso ajudou um pouco, mas eu morava com meus tios, que era barra mais pesada. Um dia, eu tinha 13 anos, e um amigo chegou em casa para estudar vestindo shorts. Meu tio teve um ataque histérico, porque tinha cabelo na perna dele. Ele achou aquilo um insulto absoluto. Eu morava na cidade libertina, da nudez, do sol, e ao mesmo tempo, aquela repressão toda de nunca poder sentar à mesa com os braços expostos. Na minha família, depois dos 5 anos, não pode mais usar shorts. O cristianismo é muito mais aberto, mas tem umas regras muito parecidas com o islamismo, não são tão diferentes.

 

Você chegou a mexer com mineração?

Não. Mineração é um karma na minha vida, porque eu queria muito que minha família não fosse mineradora. Desde criança tenho um constrangimento de mineração. Na mina da minha mãe, eu fui duas vezes. Uma com 7 anos, depois com 45, e vou agora. Quer dizer, três vezes. Na do meu pai, eu fui uma vez só.

Eu preferiria que minha família tivesse se envolvido em outro negócio, porque o dinheiro de mineração não é feliz. É um dinheiro que envolve a exploração de solo, de subsolo, bastante exploração humana, que são pessoas mal pagas, trabalhando em condições muito perversas. Acho que a cada ano minha família cava um Maracanã naquelas montanhas. É um eterno conflito, porque eu condeno mas sou conivente ao mesmo tempo, na medida que usufruo desses recursos. Existe sempre a esperança de que alguém venha, que possamos vender nossas ações, ou que a família decida vender a mineração.

 

O que você pensa a respeito do imposto sobre herança?

Meus pais eram precavidos, embora não conhecessem bem o Brasil. Quando eu tinha 13 anos, meu pai chamou eu e minha irmã, que tinha 15, e falou que nós éramos muito velhos pra pedir dinheiro. Então ele nos emancipou, nos deu um cartão de crédito e uma conta bancária. Um escândalo! Um menino de 13 anos com cheque e cartão de crédito. Ele fez a partilha dos bens justamente pra não ter que pagar imposto de transferência.

Estou falando de bens imóveis. Naquela ocasião, nos anos 60, 70, ter imóveis era um bom negócio. Hoje em dia, eu tenho pânico de imóveis. Têm IPTU altíssimos, não alugam, ou alugam e você não recebe aluguel. Infelizmente herdei alguns. Meu pai jurava que poderia morrer e eu, minha irmã e minha mãe poderíamos viver dos aluguéis. Mas aí veio a inflação, e outros aspectos da inadimplência, que nunca permitiam isso, nunca.

 

Mas você acha que deveria aumentar o imposto sobre herança?

O imposto sobre herança no Brasil é de 40%. Na América, é 70%. Então digamos que aqui seja baixo. Agora, que eu me lembre, como cidadão, eu nunca usufruí do sistema do Brasil, embora minha família tenha feito dinheiro aqui. Não acho que eles fizeram bonito, na medida que eles ganharam dinheiro aqui e nunca fizeram nenhuma benesse pelo Brasil, entende?

Isso eu tento consertar a meu modo, porque acho que minha família não foi generosa, vovô não apoiou nenhuma biblioteca, nenhum laboratório. Mas essa não é bem a cultura do Brasil. A cultura seria vir, fazer dinheiro, mandar os filhos pra Europa, e abrir uma conta na Suíça, que era mais ou menos o fluxo, como eram as coisas. Um certo esquecimento em relação ao Brasil.

 

Você está pessimista com relação ao Brasil?

Eu acho que depois de tudo que a gente escutou na televisão, aquelas gravações, do presidente da República recebendo propina na garagem da própria casa, acho que é muito humilhante pra nós ainda tê-lo como presidente.

Depois do que aconteceu com o Temer e com o Aécio, a gente realmente ficou descrente da austeridade que esperamos dos governantes. E eles estão nos mesmos lugares, ocupando os mesmos cargos. A coisa foge um pouco à nossa opinião, porque é impossível concordar com isso. Também falar que, ao optar por isso, nós estamos optando pela governabilidade do país, é outra tapeação. Uma espécie de auto-engano pra gente conviver com esse desconforto que é saber que o presidente da República não é uma pessoa honesta.

 

Como você vê o fenômeno Doria?

Aí você vai me desculpar, que eu sou meio alienado. Eu não tenho lido muito, eu não vejo nada de mídia social. Dizem que ele aparece muito em vídeos, grava muitos, mas eu nunca vi nenhum. Como prefeito de São Paulo… bem, ele ganhou no primeiro turno, né? As pessoas tinham muita fé nele.

Trabalhando na prefeitura, com todas as dificuldades que enfrento na biblioteca, eu vejo esperança. Eu acho que São Paulo está bem. Apesar de ser um momento de austeridade, todos os recursos vieram, não houve atraso, as coisas andam. Moro em São Paulo há 21 anos, e acho que a cidade só melhorou, ela não piorou. Só aumentou o trânsito, mas isso é normal porque aumentou o número de automóveis. Eu tenho muita fé no Doria, mas se ele vai se candidatar à presidência da República, ou ao governo do Estado, eu não tenho a menor ideia.

Eu trabalho na prefeitura, e acho que o Doria não sabe nem quem eu sou, nem meu nome, nem que eu existo. Ele tá preocupado com outras coisas.

Mas me magoava um pouco a campanha dele de “self-made man”, que o dinheiro dele foi ele quem fez. Parecia que ele tava me mandando um recado. Dava a impressão de que todo herdeiro é um ordinário. Não, tem muito herdeiro que faz coisas legais, até aumentam a fortuna da família, ou fazem caridade, ou seguem por outro lado. Eu me sentia meio discriminado por não ter me preocupado em não ter que fazer dinheiro.

 

É muito intensa a sua relação com as artes plásticas.

Olha, eu não tenho a menor dúvida de que as artes visuais são o melhor produto de exportação do Brasil. Mas confesso também que, agora que saí da editora, é que estou me abrindo para me familiarizar com o panorama contemporâneo, porque antes também não dava tempo.

As pessoas falam, “você não acha essa sua casa grande demais pra você?”. É claro que é. Mas não é que eu moro aqui. Eu moro aqui também, tem essas coisas que habitam comigo, que requerem espaço. Se eu for botar tudo no guarda-móveis, e pagar o seguro, vai custar uma fortuna. Então acabo morando aqui de graça, porque o conteúdo vale mais do que o local.

Artes plásticas é como religião. Eu tenho que ter uma afinidade muito espiritual. Então pra uma obra entrar aqui nessa casa é muito difícil, muito complicado, porque eu exijo muito dela. A coleção tá aqui nessa casa, tá aqui ao lado, na minha mãe, tá na Itália, na casa da minha irmã, nos Estados Unidos.

 

Você acha grafite legal?

Grafite sempre me interessou, bem antes dOs Gêmeos, que até nem gosto. Inclusive, a próxima exposição que vou fazer, de arte sacra, eu queria misturar com grafite, lá na biblioteca. Como minha família tem muita obra de arte sacra, desde a minha infância eu achava que ninguém olha pras costas dos santos. Eles ficam contra a parede, num oratório ou altar, mas muitos deles têm uma massa escultórica de uma beleza inacreditável, que ninguém dá bola. Outra coisa, as cores do barroco mineiro e baiano são exatamente as cores do grafite.

Então queria fazer essa sobreposição, e atrair públicos diferentes às artes diferentes. A ideia é super interessante, mas quando eu vi que ia me pôr na berlinda (risos), suspendi o grafite. Então será arte sacra do século 17 ao século 21, trazendo artistas contemporâneos que trabalham em cima do tema da religiosidade cristã.

 

Você acredita em Deus?

Acredito sim. Eu sou cristão praticante, não sou católico. Já fui mais, já fui menos. Tem momentos em que eu quebro as regras, e vou na Igreja Católica. Eu fui criado em colégio de padre, e acho que fiquei a vida inteira, até uma certa idade, oscilando entre conversar com um psiquiatra ou um padre. Depois, eu passei a conversar com psiquiatra, padre e advogado (risos). Mas não mudou muito não. Eu consulto padre semanalmente, advogado quase que diariamente. Rezo todos os dias.

Eu me confesso, embora tenha um certo trauma com confissão. Com 7 anos, fui fazer minha primeira confissão, e eu fui tentar falar pro padre que eu era gay. E ele falou que eu não era, e aquilo feriu muito a cabeça. Fui criado de maneira a acreditar que eu não podia mentir, e quando fui falar a verdade, o padre não deixou. A repressão começou com aquela confissão. Não foi nem em casa, ou com bullying.

 

Foi tranquilo na sua casa?

Papai nunca aceitou, fez vista grossa. A minha mãe, acho que sempre soube mas não quis saber do assunto. Eu também vivi distante deles. Quando voltei ao Brasil, com 33 anos, meu pai realmente tocou no assunto. Eu achei que a gente fosse se aproximar, mas na verdade a gente se afastou. A grande revolta do meu pai não foi ter tido um filho gay, foi o fato de eu não ter dado continuação à mineração deles. Ele começou a trabalhar com 13 anos, veio do buraco, a minha família nasceu no subsolo, porque na Síria é miséria com neve, não é miséria tropical. Então ele ficou longe, nunca me fez companheiro dele, nunca me fez visitar as minas. Ele me pôs num colégio, depois me mandou pra Europa. Não podia esperar que eu voltasse e falasse “agora vou continuar”.

 

Você tem um projeto pessoal, de vida?

Não. Eu sempre tive consciência que eu sou sozinho. Com 15 anos você não pensa nisso, mas eu pensei, “poxa, vai chegar um momento que eu não vou poder amarrar o sapato”. E eu não quero depender de enfermeira brasileira dando beliscão, é o país onde não se respeita o velho, nem criança. Tenho que fugir daqui na velhice, tenho que ir prum país europeu, eu acho.

Então desde os 15, venho pagando mensalmente uma previdência, que me permitirá escolher dentre um leque de asilos, na Áustria, na Alemanha, na França. Com 70 anos posso entrar, e ficar até morrer. São asilos que tem chá das 4, torneio de gamão, de xadrez, vai todo mundo pra ópera, todo mundo pro concerto. A cada três anos eu mudo minha escolha. Agora eu tô em um que fica nos arredores de Viena.

 

Você sempre foi sozinho? Não teve relacionamentos estáveis?

Nunca. Nunca acordei ao lado de ninguém. E tenho grande orgulho disso. Não tenho tempo para relacionamentos. São quatro horas por dia. Filho, seis, numa média ponderada. Não dá. Eu precisava de seis horas a mais, queria que o dia tivesse 30 horas. Acho também que eu não seria um bom papai, você entende? (risos) Eu ia ser meio biruta, ia querer educar eu mesmo, ia sair marginal, não ia sair boa coisa. Então me limitei a um pastor alemão, que realmente é o que sei criar. Minha vida é isso aí mesmo.

 

Você usa remédio de alteração de humor?

Desde os 13 anos, mas só psicotrópico. Não sou psicótico-maníaco-depressivo, eu sofro de depressão crônica, mas nenhum psiquiatra se aventurou a me diagnosticar. Eu acredito muito na alopatia, tenho muita relação com os meus médicos, todos os “gistas” que a gente tem na vida. Sou amigo deles, e é uma das razões que me mantém aqui em São Paulo. Pra mim foi difícil trazer mamãe com 81 anos do Rio pra cá. Foi como transplantar uma árvore de 81 anos, agora com 89. Aqui ela quebrou a bacia, desenvolveu Alzheimer. Não tá sendo fácil pra mim, mas aqui ela tem proteção. Eu cuido dela.

 

Você está curtindo dirigir a biblioteca?

Tem horas que é um desespero total, outras que é maravilhoso. A ideia da biblioteca é certamente sedutora. Eu sempre tento falar pras pessoas que, antes de livros, nós estamos lidando com vidas. Somos lá 150, 180 vidas. Sempre tento lembrar a eles que a biblioteca tem que continuar, a despeito de qualquer partido político, qualquer insegurança, incerteza que venha pairar no país, porque a ideia da biblioteca antecede o Brasil. Ela é mais velha que o Brasil, ela é muito sagrada.

 

A biblioteca estava legal quando te passaram o bastão?

Foi entregue pra mim em perfeito estado. Haviam divergências, mas eu tenho uma relação muito amistosa com a gestão anterior. A questão das 24h foi a grande divergência, o grande escândalo que não deu em nada. De fato, a biblioteca nunca ficou 24h aberta. O que era aberto era a Sala de Convivência, a Sala de leitura e as áreas de circulação.

O número de ocorrências ali dentro era tremendo, de dia e de noite. Brigas, tráfico de drogas, exibicionismo, assédio sexual. Não é o melhor local da cidade.

Quando eu fechei as 24h, sabia que tinham seis pessoas que habitavam a biblioteca, e sofri muito com isso. Elas iam e usavam os guarda-volumes pra elas. Várias vezes abrimos e encontramos documentos falsos, armas, drogas, só não encontrei feto. Tomavam banho no vaso sanitário do banheiro; o cheiro era horrível, uma coisa sórdida, imunda.

Fui na Secretaria de Direitos Humanos, conversei com várias pessoas cujas opiniões são importantes pra mim. Demorou pra entender que eu não ia resolver o problema dos sem-teto deixando a biblioteca aberta para seis pessoas. O dano que aquilo causava à biblioteca era muito maior. Então assumi e fiz a alteração de horário de funcionamento, das 8h às 22h. E melhorou muito pra gente.

Teve outras pequenas medidas que foram tomadas, como o banheiro, que era conhecido como um dos maiores e melhores pontos gays da cidade, e que hoje não é mais.

Houve o choque de ouvir as pessoas falando “Ah, é um lugar público”, e eu tento explicar que justamente por isso a gente tem que ter uma conduta condizente com um lugar público. Na sua casa, você pode fazer o que quiser. As pessoas tem a ideia de que o público pode ser depredado, destruído, maltratado, mal usado porque é delas também. Que elas têm o direito de destruir o que é público, como se destrói telefones, latinhas de lixo. Então sofri muito no início, cuspiram na minha cara até. Eu tentando falar com as pessoas, e alguém vai e escarra na sua cara. É muito duro você levar um cuspe e não poder reagir, passar o lencinho simplesmente, lavar o rosto.

Mas trabalhar num prédio cheio de livros… A Mário tem coisas que você enlouquece! Dá vontade de morder, chorar, rasgar. Tem coisas lindas demais, como manuscritos, que é a coisa que mais adoro. Eu vi a 1ª tradução de O Corvo, do Edgar Allan Poe, escrita com a caligrafia do Machado de Assis. O “Eu” do Augusto dos Anjos, todo corrigido com a caligrafia dele. Como eu fiz história e teoria da arte, gosto muito de pesquisa, era rato de biblioteca. Até gosto mais de arquivo, e lá temos acervos importantíssimos. A gente pode fazer muita coisa com o que se tem na biblioteca.

 

O que você tem vontade de fazer?

Eu queria que a Mário fosse tombada enquanto Museu do Livro, o primeiro no Brasil, que não temos. A gente tem poucos cursos sobre livros; houve uma discussão enorme em se oficializar a profissão de conservador, que foi profissionalizada, mas não oficializada. Então as poucas pessoas que estavam interessadas em fazer curso superior em restauro, desistiram. Isso nos põe numa situação muito vulnerável. Oitenta por cento das artes do Brasil está em São Paulo, e o único curso que ainda existe é em Belo Horizonte, por causa da policromia, do barroco.

O museu poderia preservar, divulgar e expor o seu acervo. Não quero transformar a biblioteca num museu, mas pelo seu acervo, ela tem uma vocação museológica, muito didática, que estamos tentando explorar.

 

Então a Mário de Andrade está bem. Dois meses atrás, entrevistei o João Batista de Andrade, quando ele ainda era Ministro Interino da Cultura, e o que ele falou da Biblioteca Nacional me chocou.

Olha, eu não sou biblioteconomista. Eu recebo ajuda constante, consulto muito a Professora Maria Christina Barbosa de Almeida (FAPESP), e o Profº Luiz Bagolin (ex-diretor da MA), discutindo assuntos de biblioteconomia. O grande escândalo da Mário é que 15 dos 22 andares não estão no sistema de computação.

Então ainda usamos o arquivo manual. Isso representa 70% do nosso acervo. É um absurdo!

Na verdade, a gente é mais repositório de livro do que biblioteca. Enquanto não começar a ser sanado, porque não vou ver o fim, eu não vou me dar por satisfeito. Nós devemos pensar em projetos, inclusive fazer um Plano Piloto pra Mário, para que o próximo diretor continue fazendo o trabalho que tem que ser feito, o que infelizmente não dá repercussão, mídia. Nem sempre a Secretaria, a Prefeitura apoiam porque não vai sair no jornal.

Embora a arquitetura seja muito bonita, a obra tenha sido bem feita, a biblioteca tá um pouco desarrumada internamente. Nesses noves meses, ao contrário do que esperavam de mim, eu me preocupei mais com esses aspectos internos do que os externos.

 

A Cosac Naify editava coisas muito boas, e de repente, teve um fechamento. Logo depois, você assumiu a Mário de Andrade. Como você viveu essa transição?

Foi muito difícil. Na editora seria “abrir, continuar e decair”. Eu optei por “abrir, continuar e fechar”.  Eu poderia ter continuado com a editora, mas não da forma que ela era, não seria a Cosac Naify. E custou muito mais caro parar do que continuar, porque havia pessoas que trabalhavam comigo há muitos anos, eram verdadeiros casamentos. Foi uma pequena fortuna pra fechar. Mas eu não tinha mais coragem de aplicar aquele recurso na continuidade e na esperança de que um dia ela fosse ser auto sustentável. Também existia um cansaço muito grande da minha parte.

Agora, quem na verdade fechou a editora foi o público, não fui eu. Muitas vezes eu sou parado na rua, em restaurantes, “Por que você fechou?”. “Porque você não comprou livro”! O brasileiro tinha um carinho enorme pela Cosac Naify, mas ela não vendia pra se pagar. É muito simples isso. Por isso que não posso culpar o Brasil, a Dilma, o Governo. Se alguém é responsável pelo fim, foram os leitores. A minha vida pessoal sempre foi bancada integralmente pela minha família, não pela editora. Não foi que gastei o dinheiro da editora com outras coisas.

 

Você lê pra caramba?

Não. Era um leitor pesado antes de abrir a editora, depois não deu mais tempo. Agora eu chego em casa com 500 relatórios, que eu tenho que ler e entender!

Estranhamente, eu comecei aos 11 anos com o Ibsen, que me marcou muito. Daí, com 12 anos, fui parar no Munch (Edvard Munch, o pintor norueguês). Depois voltei pro Nelson Rodrigues. Tive um percurso muito esquisito. Com 13 anos, eu podia recitar os livros pra você, de tanto que eu lia os mesmos.

 

Talvez a unidade final de sua trajetória seja o amor por livros.

 Os livros me revelaram muita coisa. Então é claro que eu tenho um fetiche danado por livros. Livro, roupa e cd, são meus fetiches de consumo. Mas eu acho que eu gosto mais do que tem dentro do livro do que ele como objeto.

 

Você é um homem vaidoso, não?

Eu adoro comprar roupa! Só compro do Saint Laurent, do Armani ou da Gucci, não tenho nenhuma roupa brasileira. Agora, eu não compro roupa estrangeira no exterior. Eu não suporto viajar pra comprar roupa. Lá, eu quero passear, ver museu.

Compro aqui, mesmo sabendo que é três vezes mais caro. Eu pratico minha vaidade no JK Iguatemi, e aí aqueço a economia, gero empregos, ajudo os Correios, sem mexer com a vida de ninguém. Acho que o grande lance é você aceitar que você é um ser vaidoso, mas sem tentar mexer com os outros.

Pra mim é muito claro, o porquê de eu comprar mais alguma coisa de que não preciso. É toda uma neurose que a gente alimenta. Mas nunca mexi com a vida de ninguém, nunca tive relacionamentos, nunca projetei minha frustração em alguém.