Um xamã na avenida Paulista

Um xamã na avenida Paulista

Morris Kachani

20 Julho 2017 | 16h00

O perigo está acima de nós. O céu já caiu no passado e tornará a cair, mas para adiar o inevitável, os guardiões invisíveis da floresta dançam e cantam. Invocá-los no coração de São Paulo porém, impossível

Por Tracy Segal

Conversei com o xamã e líder indígena Davi Kopenawa. Ele veio a São Paulo para participar do seminário “Histórias Indígenas” no auditório do MASP, seguido por uma oficina de desenho ministrada pelo artista indígena yanomami Joseca, a qual Davi também conduzia contando histórias de seu povo.


A entrevista aconteceu no segundo andar do MASP, num canto à exposição permanente, com obras de um arco temporal que vai do século 4 A.C. a 2008 – pinturas, em sua maioria europeias, expostas em cavaletes de cristal, criados pela arquiteta Lina Bobardi – com um panorama para a cidade dos arranha céus. Este cenário toma ares antropofágicos quando avisto Davi vestido em roupas ocidentais cercado por estas imagens, em sua maioria de santos católicos, do nosso colonizador europeu.

Davi Kopenawa publicou um livro junto com um antropólogo francês, Bruce Albert, um tomo de 700 páginas que narra sua trajetória como xamã e líder indígena. Davi é Yanomami brasileiro, tem 61 anos, mas sua história difere daquela que estudamos na escola, a sua história do Brasil é outra. A distância entre nós se dá a princípio pela língua que, segundo Davi, é a alma de um povo, “decoramos a língua do outro mas a alma não é possível captar senão quando se aprende criança”. Ele me explica que Yanomami é a língua de Omame – o demiurgo que criou o seu mundo. “Com certeza nossa língua está acabando. A língua portuguesa está invadindo a nossa. Estamos imitando suas falas, seus costumes. Se perder a língua vai parar de comunicar com Xapiri, com o sol, com o tempo, com a chuva, verão. Eu penso isso.” Davi não traduz algumas palavras para o português, como Xapiri, que são seres vistos durante o transe provocado pela inalação do pó de Yakoana, são os guardiões invisíveis da floresta.

A “Queda do céu” – título deste livro lançado pela Companhia das Letras com tradução de Beatriz Perrone-Moisés – é a literalidade da catástrofe que, segundo a mitologia Yanomami, só a dança dos xamãs pode segurar. O livro é narrado na voz de Davi, transcrito e traduzido para o francês por Bruce Albert – vale ressaltar a beleza desta tradução que mantém construções de linguagem que revelam uma visão de mundo desse povo. Eles se conheceram há trinta anos, Bruce aprendeu Yanomami e dessa amizade intercultural surgiu o desejo de registrar sua história em peles de imagem – tudo que é impresso em papel é denominado de peles de imagem, desde um livro até o dinheiro. “A queda do céu” é um manifesto pela sobrevivência e existência de uma cultura tão distante e tão próxima da nossa.

Na manhã seguinte ao seminário, em roda debruçados sobre a mesa cheia de lápis coloridos e papeis, onde a oficina de desenho acontecia, Davi comenta: “O cheiro do branco é muito forte pra nós.” Nessa hora pensei que ele se referia ao nosso odor, ou perfume, já que uma senhora que participava da oficina usava um fortíssimo. Mas ele falava dos elementos pertinentes a nossa sociedade do consumo: “o dinheiro, TV, bebida, internet, isso é o cheiro da xawara [epidemia]. O primeiro contato com o homem branco trouxe gripe, sarampo, malária, tuberculose e outras doenças. Hoje, 2017, estamos enfrentando a doença mais perigosa. Essa doença se chama HIV, DST. E matou muitos yanomamis, porque o governo não cuidou antes do branco entrar. Tem outra xawara, que manipula nossos pensamentos, não deixa mais lembrar da floresta e do rio. Essa doença que é outra, que entrou na cabeça da gente, é o dinheiro.”

No seminário “Histórias Indígenas” Davi falou para um auditório lotado sobre a importância de “A queda do céu”: “eu gravei minha cultura e conhecimento yanomami, povo originário. (…) O livro tá divulgando problema do meu povo yanomami. Que estão estragando nossa saúde, nosso costume. O livro é pra branco aprender a respeitar a floresta, planeta terra. (…) Homem branco são recente invasores. Nós indígenas não somos recente encontrados, não. Já tinha aqui homem da floresta tomando conta da nossa floresta, cuidando e preservando.” Fala Davi para uma plateia composta de antropólogos, estudantes e interessados na cultura indígena.

No livro, ele se refere ao homem branco como homem mercadoria, uma observação bastante aguda de nossa sociedade de consumo. Durante nossa conversa perguntei sobre esse homem da cidade, e Davi aponta para meus apetrechos tecnológicos, diz que o computador que substituiu o lápis, aumenta a distância entre nós. “Homem da cidade não sai, só trabalha, olhando a margem da terra, o computador, mandando satélite, satélite fica pesquisando, são aliados pra negociar a nossa riqueza.”

Eu pergunto o que ele acha do uso de substâncias alucinógenas ritualísticas pelos brancos, como no caso da Ayuhasca e o rapé indígena que tem sido usado fora das tribos: “Eu acho que o homem e a mulher quer experimentar, pra ver como funciona. Pra ver benefício, esse é o pensamento. Eu acho ruim, porque ele não está acostumado. Ele está acostumado a bebida alcoólica, maconha, mas usar yakoana, ayuasca, não sabe usar, só quer ficar bêbado, olhando a luz do céu, olhando a lua, estrela e floresta. Eu uso quando a pessoa está doente, eu não fica bêbado. Tem que aprender a nossa língua Yanomami. Falar claramente, pra poder entender o canto da alma dos Xapiri, senão só fica bêbado enrolando no chão.”

Davi teve seu primeiro contato com um branco quando ainda era bem pequeno e conta que estranhou a pele clara, cabelos amarelos e os pelos no rosto, teve medo desse ser assustador. O povo Yanomami só foi ter contato com a cultura dos brancos há menos de um século, por volta dos anos quarenta com missionários proselitistas, o que já trouxe doenças letais aos indígenas, mas o perigo maior se deu nos anos setenta com a obra da Perimetral Norte e a invasão dos garimpeiros numa corrida pelo ouro sem precedentes que só foi contida em meados da década de noventa após a demarcação do território Yanomami na constituinte de 1988. No entanto, esse fantasma volta a assombrar hoje, com as companhias mineradoras e a frente de agropecuária local interessadas em expandir suas atividades no oeste do estado de Roraima. Davi conta no livro, que encucado com a avidez dos brancos pelo ouro e o petróleo, substâncias que vem das profundezas da terra, os quais ele não entendia o valor, quis saber a origem dessas “riquezas”. Os Xapiris trouxeram a resposta em sonho: “O que os brancos chamam de “minério” são lascas do céu, da lua, do sol e das estrelas que caíram no primeiro tempo”, que são os resquícios da primeira queda do céu.

Conversei também com o Marcos Wesley, coordenador do Instituto Socioambiental (ISA) em Roraima, sobre o impacto das recentes mudanças nas políticas indigenistas para a população Yanomami. Ele me falou de sua preocupação com o desmonte da Funai, principal órgão responsável por fiscalizar e proteger os territórios indígenas. Segundo Marcos o atual governo vem piorar um quadro que já era precário quanto à preservação dos povos originários: “Nos anos 80 e 90 teve a grande invasão garimpeira nas terras Yanomamis, que foi contida, mas não sem grandes prejuízos. 20% da população Yanomami morreu, além do grande impacto ambiental e sanitário. E hoje se vê com preocupação um aumento significativo – estima-se que há mais de quatro mil garimpeiros ilegais nas terras Yanomami hoje. E colabora com isso a falta de condições da Funai, agora e no futuro próximo. Não há perspectiva de melhora”, diz Marcos.

A população total dos Yanomami, no Brasil e na Venezuela, numa estimativa feita em 2011, é de cerca de 35.000 pessoas. Para resistir nessa incansável luta contra o genocídio, contra a invasão do garimpo, e pela manutenção das terras de um povo que antes não conhecia o conceito de propriedade, se torna necessário dominar os códigos dos brancos e as leis do mercado. Para que isso aconteça hoje vemos a implementação das escolas para os indígenas. Davi vê um lado bom e um ruim. A escola se torna uma ponte para a saída do índio da vida em tribo, seduzido pelo mundo do consumo. “É bom porque aprende a ler e escrever, mas o ruim é que aprende a fazer besteira, beber, fumar, virar ladrão e corrupto. Comida, casa, macaxeira, banana, essa é a nossa propriedade.” Ele acredita que o estudo em escolas deve servir para proteger a sua cultura, mas corre sério risco de acontecer o inverso, do ensino da cultura branca transformar os índios em empregados, tirando eles da tribo. Com a cultura branca vem a ideia monetária, e esta sim, para ele é a doença. Davi me mostra uma cédula de dois reais: “ Aqui começa. Índio vê que tem dinheiro, depois ele vê cem reais: Muito dinheiro! Começa a gostar dele, esquece a caça, a pesca, fica preguiçoso, esquece de trabalhar como antigamente.”

A narrativa escatológica gravada no livro coincide com a realidade estampada nos jornais que anunciam o aquecimento global, o degelo das calotas polares, e a iminência da catástrofe ambiental no planeta. Segundo a história Yanomami o céu já caiu no passado e tornará a cair, mas para adiar o inevitável, os Xapiris dançam e cantam, estes seres que de tão belos os Yanomamis precisam se adornar com penas e pinturas para os invocar. “Eles [xapiris] trabalham no nosso universo, o perigo está acima da gente. Por isso a queda do céu. Pode cair outra vez. Perigoso pra nós todos, não só pra Yanomami. O universo é um só. O universo é bom e é ruim, perigoso. O perigo que tá em cima, o pajé tá sustentando, cuidando pra não cair em cima da gente.”

Pergunto se seria possível fazer um ritual Yanomami aqui, invocar os Xapiris na cidade, então ele me mostra na tela de seu celular um jovem pajé em transe num ritual em sua tribo. Nas imagens o forte rapaz canta na língua Yanomami, algo que apesar de incompreensível é hipnótico, seu corpo está pintado, e enfeitado com penas que saem de seus braços, sua dança, mesmo mediada pela pequena tela, transpassa uma força ancestral, os movimentos me remetem à imagem de um guerreiro. Insisto em saber se existem Xapiris aqui na cidade: “Na cidade a alma da floresta já morreu. A força da natureza fugiu daqui”, me responde ele enquanto caminhamos pela Avenida Paulista num domingo de sol e frio entre guitarras distorcidas e badulaques do mundo moderno. E gente muita gente. Seu olhar era estrangeiro, quando eu lhe perguntava o que achava sobre que via na avenida. Respondia sem titubear: “Bom”, tudo pra Davi era bom.