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Jornalismo de verdade na ficção

Paulo Silvestre

10 agosto 2012 | 17:15

Nesta semana, a série The Newsroom (sem título em português) estreou na HBO. Fiquei bem impressionado com o que vi: uma pequena aula de jornalismo sério em meio à dramaturgia de um seriado que pretende mostrar as histórias e as pessoas por trás de um telejornal. Se você perdeu o primeiro episódio, pode assisti-lo na íntegra online.

Não pretendo fazer aqui uma sinopse, mas devo dizer que, assim como a série In Treatment tinha um óbvio apelo a um público formado por psicólogos, The Newsroom deve agradar em cheio a jornalistas e a qualquer pessoa que se interesse pela indústria da notícia. E isso porque ela desmitifica a imagem criada em torno dos jornais e das pessoas. Mostra que a coisa vai muito além daquela piadinha dos coleguinhas que sugere que o William Bonner fica de cueca por trás da bancada do Jornal Nacional.

A primeira cena da série, reproduzida acima, já é um tapa na cara dado pelo ranzinza âncora Will McAvoy, protagonista da série. Mas o episódio fica bom mesmo a partir do meio, quando Jim, um produtor recém-chegado, recebe uma notícia bombástica de duas fontes. E, apesar da resistência explícita de Don, o produtor executivo que estava deixando o programa, ele vende a pauta para McAvoy, totalmente calcado em fatos. E o âncora compra a ideia e a matéria vai ao ar.

Don representa o que se vê por aí nas redações –de todas as mídias– ultimamente: um profissional acomodado em realizar o seu trabalho com o uso da tecnologia e outros facilitadores, e acovardado de apostar em uma pauta grandiosa. Seu faro jornalístico é limitado por uma forma de atuação aplaudida pelas empresas de mídia preocupadas em cortar custos, em que repórteres ficam presos nas redações, fazendo entrevistas por telefone ou –pior ainda– por e-mail. Mais que isso: amedrontados que um eventual erro lhes custe o pescoço e, dessa forma, preferem a segurança da mesmice e do óbvio. Não é de se admirar que os furos jornalísticos estejam cada vez mais raros e sem graça.

Jornalismo não é isso! Jornalismo é a combinação de inteligência, perspicácia, trabalho duro, relacionamento e –sempre– coragem. Jim Harper e Will McAvoy demonstraram isso no episódio. Isso deveria ser ensinado nas faculdades de jornalismo.

Na verdade, o episódio me lembrou uma aula específica de Ética há uns dez anos, ministrada por Jorge Tarquini (@JorgeTarquini), um dos melhores professores que eu tive (considerando as faculdades de Engenharia e de Jornalismo). Em determinado momento da aula, um colega se posicionou dizendo que “jornalista que quer manter o emprego” escreve apenas e sempre e do jeito que a chefia manda, que a liberdade de imprensa só funciona para o dono do jornal. Essa frase, digna de Assis Chateaubriand, não me passou pela garganta. Afinal, eu já estava no mercado há dez anos, e já tinha passado pela Folha, que os colegas adoram criticar por supostamente ter um jornalismo “pasteurizado”. E nunca fiz isso.

Seguiu-se um acalorado debate na aula. Não sei se consegui convencer o colega que o que ele tinha dito era uma tremenda bobagem: essa visão derrotista infelizmente se espalha como um vírus já entre os alunos de jornalismo. Quase sempre, o vírus mata o jornalista que cada um poderia se tornar. Felizmente, a ética, a moral e a coragem de alguns liquidam o vírus.

As faculdades de jornalismo, que sofrem com o fim da obrigatoriedade do diploma para exercer a profissão, deveriam criar cadeiras de “coragem jornalística”. É possível –sim– fazer excelente jornalismo mesmo em ambientes hostis e competitivos. Precisamos de mais Jim Harpers.

Nesta semana, a série The Newsroom (sem título em português) estreou na HBO. Fiquei bem impressionado com o que vi: uma pequena aula de jornalismo sério em meio à dramaturgia de um seriado que pretende mostrar as histórias e as pessoas por trás de um telejornal. Se você perdeu o primeiro episódio, pode assisti-lo na íntegra online.

Não pretendo fazer aqui uma sinopse, mas devo dizer que, assim como a série In Treatment tinha um óbvio apelo a um público formado por psicólogos, The Newsroom deve agradar em cheio a jornalistas e a qualquer pessoa que se interesse pela indústria da notícia. E isso porque ela desmitifica a imagem criada em torno dos jornais e das pessoas. Mostra que a coisa vai muito além daquela piadinha dos coleguinhas que sugere que o William Bonner fica de cueca por trás da bancada do Jornal Nacional.

A primeira cena da série, reproduzida acima, já é um tapa na cara dado pelo ranzinza âncora Will McAvoy, protagonista da série. Mas o episódio fica bom mesmo a partir do meio, quando Jim, um produtor recém-chegado, recebe uma notícia bombástica de duas fontes. E, apesar da resistência explícita de Don, o produtor executivo que estava deixando o programa, ele vende a pauta para McAvoy, totalmente calcado em fatos. E o âncora compra a ideia e a matéria vai ao ar.

Don representa o que se vê por aí nas redações –de todas as mídias– ultimamente: um profissional acomodado em realizar o seu trabalho com o uso da tecnologia e outros facilitadores, e acovardado de apostar em uma pauta grandiosa. Seu faro jornalístico é limitado por uma forma de atuação aplaudida pelas empresas de mídia preocupadas em cortar custos, em que repórteres ficam presos nas redações, fazendo entrevistas por telefone ou –pior ainda– por e-mail. Mais que isso: amedrontados que um eventual erro lhes custe o pescoço e, dessa forma, preferem a segurança da mesmice e do óbvio. Não é de se admirar que os furos jornalísticos estejam cada vez mais raros e sem graça.

Jornalismo não é isso! Jornalismo é a combinação de inteligência, perspicácia, trabalho duro, relacionamento e –sempre– coragem. Jim Harper e Will McAvoy demonstraram isso no episódio. Isso deveria ser ensinado nas faculdades de jornalismo.

Na verdade, o episódio me lembrou uma aula específica de Ética há uns dez anos, ministrada por Jorge Tarquini (@JorgeTarquini), um dos melhores professores que eu tive (considerando as faculdades de Engenharia e de Jornalismo). Em determinado momento da aula, um colega se posicionou dizendo que “jornalista que quer manter o emprego” escreve apenas e sempre e do jeito que a chefia manda, que a liberdade de imprensa só funciona para o dono do jornal. Essa frase, digna de Assis Chateaubriand, não me passou pela garganta. Afinal, eu já estava no mercado há dez anos, e já tinha passado pela Folha, que os colegas adoram criticar por supostamente ter um jornalismo “pasteurizado”. E nunca fiz isso.

Seguiu-se um acalorado debate na aula. Não sei se consegui convencer o colega que o que ele tinha dito era uma tremenda bobagem: essa visão derrotista infelizmente se espalha como um vírus já entre os alunos de jornalismo. Quase sempre, o vírus mata o jornalista que cada um poderia se tornar. Felizmente, a ética, a moral e a coragem de alguns liquidam o vírus.

As faculdades de jornalismo, que sofrem com o fim da obrigatoriedade do diploma para exercer a profissão, deveriam criar cadeiras de “coragem jornalística”. É possível –sim– fazer excelente jornalismo mesmo em ambientes hostis e competitivos. Precisamos de mais Jim Harpers.