Quer garantir o seu emprego? Volte para a escola agora!

Quer garantir o seu emprego? Volte para a escola agora!

Paulo Silvestre

17 Julho 2017 | 08h45

O personagem Ralph, da animação “Detona Ralph”: 30 anos fazendo a mesma coisa não o impediram de mudar e fazer algo melhor para si- imagem: reprodução

O personagem Ralph, da animação “Detona Ralph”: 30 anos fazendo a mesma coisa não o impediram de mudar e fazer algo melhor para si

Com a aprovação da reforma trabalhista há alguns dias, as discussões em torno do futuro do emprego, direitos, deveres e possibilidades de todas as partes se acirrou. Entre tantas conversas que estou participando sobre o tema, uma me chamou bastante a atenção, pois se levantou que todo esse debate acalorado pode ser inócuo! E o motivo é muito simples: não há emprego para todos! É verdade que a crise política e econômica agravou dramaticamente esse quadro, mas ela não é a origem do problema. Pior que isso: quando a crise passar, a coisa nunca mais será como antes. Como garantir seu emprego então nesse cenário?

A resposta reside em uma aparente contradição: pare de pensar no emprego! Você precisa começar a pensar em você! E goste ou não, esteja disposto ou não, o fato é que a solução para o problema passa necessariamente por voltar aos bancos escolares.

Sabe aquela história de que mau jogador de futebol “marca a bola”, ao invés do adversário? Na mesma linha, Jeff Bezos, fundador e CEO da Amazon, costuma dizer que devemos prestar mais atenção nos consumidores que nos concorrentes. O que as duas coisas têm em comum é um apelo para se concentrar naquilo que permite que você “agarre o touro pelos chifres”. Por isso, repetirei o que disse logo acima: pare de se preocupar com o emprego e comece a se preocupar com você! E esteja pronto para se reciclar!

Essa é uma mudança crítica na maneira de agirmos. Fomos acostumados a pensar que “temos que dar duro” e sermos corretos, porque assim, no fim do mês, o salário cairá em nossas contas. Não quero dizer que temos que abandonar esses valores –claro que não! Mas isso é resultado de décadas de governos paternalistas e de um sistema de ensino de base que ainda forma indivíduos para a Revolução Industrial, para executar tarefas com eficiência, respeitar a hierarquia, não questionar o status quo e não correr riscos.

Sinto ser o portador das “más notícias”, mas isso já era! E sempre foi, mas o modelo antigo, sedimentado desde a República Velha, acolhia esse comportamento. Só que a tecnologia digital, a globalização e as seguidas crises estão extirpando essa pseudossegurança da realidade.


Vídeo relacionado:


O vídeo acima nem é tão novo (dá para ver que alguns dados já estão desatualizados, mas foi a versão mais recente que consegui). Mesmo assim, traz alguns dados interessantes. Por exemplo, as profissões que mais contrataram em 2010 não existiam em 2004. E o Departamento de Trabalho dos EUA (equivalente ao nosso Ministério do Trabalho) estima que os estudantes americanos atuais terão passado por 10 a 14 empregos quando chegarem aos 38 anos!

Não faz muito tempo que ter uma boa faculdade e falar inglês eram suficientes para uma carreira vencedora até a aposentadoria. Entretanto, nesses tempos exponenciais em que o mundo se reinventa de maneira galopante, em que enormes quantidades de novos profissionais são despejadas no mercado a toda hora, isso ficou longe de ser suficiente.

Como resultado, a “idade de obsolescência profissional” está cada vez mais baixa. O vídeo traz outro incômodo dado: a quantidade de informação técnica está dobrando a cada dois anos. Ótimo, certo? Porém, em outras palavras, isso significa que o que um estudante em um curso técnico aprende no primeiro ano pode estar desatualizado quando ele chegar ao terceiro ano do curso. Ou seja, antes mesmo de se formar.

Como então querer segui adiante com o que aprendemos na faculdade, por melhor que ela tenha sido?

 

Melhores indivíduos, cidadão e sociedade

Felizmente algumas escolas já perceberam essa onda de mudança e estão transformando a maneira como ensinam e como formam os cidadãos. Não estou dizendo que devem começar a pensar apenas no mercado, criando pequenos mercenários, para quem os fins justificam os meios, e que relações afetivas devem ser suprimidas. Na verdade, é exatamente o contrário disso!

As boas escolas, desde o Ensino Fundamental até a universidade, são aquelas que reforçam valores como colaboração entre pares, desejo de correr riscos de uma maneira consciente, e trabalho para crescer como indivíduo e como profissional ao mesmo tempo em que se constroi uma sociedade mais justa e igualitária para todos. Em outras palavras, formam pessoas que se bastam e que estão dispostas a fazer com o outro, a empreender, a transformar o mundo, fugindo de zonas de conforto.

Um caso extremo dessa mudança, que já citei aqui várias vezes, e a Quest to Learn, escola pública em Nova York em que todas as aulas são dadas usando jogos, com resultados acadêmicos incríveis! Sei que isso é tão sensacional quanto difícil de implantar. Mas as mudanças podem ser promovidas gradualmente. De qualquer forma, mesmo que pequena, já trará bons resultados.


Vídeo relacionado:


Isso é excelente para os pequenos cidadãos, futuros profissionais. Só que agrava ainda mais a situação de quem já está no mercado, com o “jeito velho” de encarar o trabalho. Pois a turma que está chegando agora não apenas está com o lado técnico mais atualizado, como também pensa do “jeito novo”.

Acha que estou exagerando? Então, dê uma olhada a sua volta e veja as mudanças que a economia compartilhada está provocando na sociedade. Só para ficar em alguns exemplos óbvios, veja o que Uber (no transporte urbano), Airbnb (em hospedagem), Mercado Livre (no varejo) fizeram.

Mas o modelo de “open business” vai muito além, alterando a maneira como algumas empresas já trabalham. Há algumas semanas, contei aqui a minha experiência no Red Hat Summit, onde pude ver resultados muitos interessantes de colaboração até mesmo entre concorrentes, o que gerou um debate de alto nível. Pois é algo que, a princípio parece loucura, mas que, nessa nova realidade, traz resultados ótimos onde antes se via apenas risco. O próprio conceito de colaboração está se redefinindo. Em um outro artigo, mencionei sistemas de análise de big data, como os da SAP, que trabalham com quantidades gigantescas de dados médicos fornecidos pelas pessoas. Elas cedem essa informação para que seus médicos possam cuidar melhor de sua saúde individual, mas isso também permite que sejam criadas políticas de saúde e tratamentos mais eficientes para todos.

Mas como mudar a maneira de pensar depois de muitos anos no mercado?

 

De volta aos bancos escolares

Infelizmente não podemos mais nos matricularmos em uma Quest to Learn. Mas não quer dizer que não podemos continuar aprendendo coisas novas sempre!

Cursos de especialização, MBAs, mestrados e doutorados são opções interessantes para aumentar o nosso estofo acadêmico e até criarmos algo inédito para nossas profissões. Mas, como professor de pós-graduação, tenho observado com atenção uma busca crescente por cursos de extensão.


Vídeo relacionado:


O motivo é simples. Eles são bem mais curtos (e baratos) que as alternativas acima (normalmente duram apenas algumas semanas) e trazem conteúdos bastante atualizados e específico e de aplicação imediata no cotidiano profissional. Além disso, permitem que os alunos, que já são profissionais, façam um ótimo network com pessoas de sua própria área ou de outras, ligados por interesses em comum.

Isso traz vários ganhos interessantes, especialmente para aqueles com mais tempo de carreira. Muito mais que os “conteúdos frescos”, os alunos entram em contato com ideias profissionais diferentes, e até conflitantes. Isso abre a mente para visões diferentes do mercado. Por isso, não é de estranhar que muitos novos empreendimentos surjam desses cursos de extensão. Trata-se, portanto, de uma reciclagem múltipla.

Para concluir, gostaria de mencionar brevemente a premiada animação “Detona Ralph” (2012), da Disney. Para quem não assistiu (recomendo fortemente), ele conta a história de um personagem digital, que é o vilão de um antigo videogame. Mas, depois de 30 anos fazendo a mesma coisa, ele decide que quer mudar, e mudar para algo melhor. Mas, para isso, ele precisa sair de sua zona de conforto, correr riscos, conhecer gente nova e ajudar os outros.

Nessa hora de emprego escasso, todos nós somos Ralphs. Temos que querer melhorar, por nós mesmo e por quem está a nossa volta. Precisamos assumir o protagonismo de nossas vidas e, para isso, nos reciclar e parar de achar que algo ou alguém resolverá nossos problemas.

O que aprendemos até hoje pode ter nos definido até agora, mas o nosso futuro está em nossas mãos.


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