A quem interessa bater na PF?

A quem interessa bater na PF?

Sim, a operação impôs um perverso efeito dominó ao setor mais importante da nossa combalida economia, mas talvez este seja o menor dos nossos problemas.

Mario Vitor Rodrigues

22 Março 2017 | 09h08

foto: Alex Silva/Estadão

foto: Alex Silva/Estadão

 

Até para os leigos na matéria já não resta dúvida: a Polícia Federal errou na divulgação de determinados detalhes que envolveram a operação Carne Fraca, com destaque para a suspeita de que papelão estaria sendo misturado aos produtos da BRF. Assim como não restam dúvidas, diga-se, de que crimes foram cometidos. Afinal, não há de ser por acaso que tanto pessoas físicas quanto jurídicas já estão sofrendo sanções da justiça por seus atos.

Sim, a operação impôs um perverso efeito dominó ao setor mais importante da nossa combalida economia, mas talvez este seja o menor dos nossos problemas. Com o passar do tempo e os esclarecimentos prestados aos grandes países importadores, o susto que reverberou mundo afora, cedo ou tarde, passará.

Na verdade, este episódio revelou bem mais do que texturas inconvenientes. Serviu para escancarar nossa saturação com notícias sobre casos de corrupção e acima de tudo para suscitar um questionamento: a quem interessa bater na Polícia Federal?

A jornalistas e blogueiros, decididos a parecerem mais realistas do que o próprio rei? Pode ser. Em um momento assim, com a sociedade cada vez mais refém das repercussões nas redes sociais, remar contra a maré às vezes provoca um falatório danado.

Ao cidadão, insisto, farto da bandalheira a ponto de começar a culpar o mensageiro pelas malfadadas notícias? Também faz sentido. Seria contraproducente, um gol contra daqueles, porém não há como negar ao sujeito exasperado o direito à irracionalidade.

E quanto ao Ministério Público, capitaneado pelo marketing messiânico de seus procuradores? Nesta segunda-feira mesmo, o presidente da Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal, Carlos Eduardo Sobral, alertou sobre uma “disputa institucional” entre as categorias. Disse ele que, graças à postura de Dallagnol e companhia, a PF perdeu espaço para o MP na Lava Jato, passando a ser vista pela sociedade como uma mera “cumpridora de mandatos”.

Está claro que nenhuma das condições acima é excludente, assim como ninguém discute que a Polícia Federal precisa atuar com responsabilidade, mas, antes de permitirmos que a nossa desconfiança seja instrumentalizada, talvez devêssemos dispensar especial atenção ao comportamento da classe política.

Principalmente quando o maior dos caciques vem a público ferir a instituição. Refiro-me, é claro, ao discurso feito ontem pelo presidente Michel Temer, abusando das estatísticas para desqualificar e tachar a operação de “insignificante”.

No fim das contas, político é um bicho danado: se é pelo poder, o pau pode comer solto, mas viram cupinchas fraternos quando a classe é ameaçada.