Bichos escrotos

Bichos escrotos

Viva o embate político entre nós, mas chega de bancar o otário.

Mario Vitor Rodrigues

21 Maio 2017 | 09h10

Imagem: as fotos acima, do senador afastado Aécio Neves (PSDB) e da ex-presidente Dilma Rousseff, são montagens retiradas da internet

Baratas, ratos e pulgas. Segundo a banda Titãs, eram esses os bichos escrotos que atazanavam a vida dos cidadãos civilizados em 1988. Seria ótimo se ainda fosse assim, mas, além de a realidade ser outra, claramente ainda não estamos adaptados a ela.

É o que ficou claro na última sexta-feira, logo quando surgiu a noticia dando conta de possíveis adulterações no áudio gravado por Joesley Batista durante sua visita a Michel Temer. A maioria de nós comprou sem demora a tese que apenas interessava ao governo e demais políticos encalacrados pelas delações. Se Temer aproveitou a deixa? Ontem mesmo, em novo pronunciamento.

Em síntese, e esta é uma verdade histórica: o instinto de sobrevivência dos corruptos pode até ser visceral, mas a nossa complacência nunca deixou de ser uma grande aliada.

Tal comportamento não é novo, deu-se quando Collor vociferou sua inocência, repetiu-se quando Dilma nos apresentou Bessias e acontece sempre que as mentiras de Lula são ponderadas.

Se estamos traumatizados com tantos casos de corrupção? Talvez sim. Motivos não faltam.

É muito grave, por exemplo, que um líder político importante como Aécio Neves, quase eleito presidente, tenha um comportamento tão mafioso.

É gravíssimo imaginar o atual chefe de estado recebendo um meliante em sua casa, que escute dele toda sorte de crimes contra o país e nem ao menos emitia um muxoxo de indignação.

Assim como é imperdoável que um partido popular como o PT, eleito seguidamente, tenha alcovitado e aperfeiçoado assaltos contra a sociedade, enriquecido suas castas e sequestrando o processo eleitoral.

A lista é longa e a realidade muito dura. Não é possível considerar normais tantas falcatruas, seus volumes e modalidades. Mesmo quando testemunhamos nossas instituições funcionando, como agora, fica difícil levantar a cabeça.

Todas essas e muitas outras considerações podem ser válidas, entretanto não nos eximem de responsabilidade por essa quase patológica propensão ao auto-engano. Em aceitar placebos retóricos de quem só está interessado em se livrar das garras da lei.

A verdade é que político algum pensa duas vezes antes de ludibriar o eleitor para conseguir votos, de desviar verbas públicas, ou na hora de simular embates ideológicos de modo a manipular nossos caminhos.

Meu desejo é o de que Michel Temer seja escorraçado da presidência e responda na justiça por ter prevaricado, que Lula e Dilma voltem para a cadeia por terem embolsado milhões, e que Aécio não deixe sua irmã sozinha.

Mas, acima de tudo, para que nenhum deles, tampouco nenhum outro, alcance novos sucessos criminosos com a nossa ajuda.

Viva o embate político entre nós, mas chega de bancar o otário.