De Caracas a Charlottesville, no limite da cegueira

De Caracas a Charlottesville, no limite da cegueira

A verdade é que não restam muitas opções para quem se recusa a aceitar os fatos.

Mario Vitor Rodrigues

13 Agosto 2017 | 10h11

imagem: cartoon/internet

 

“O assunto é absolutamente polêmico”, garantiu Chico Alencar, em entrevista concedida à Época. Uma afirmação que, descontextualizada, pode muito bem induzir ao engano. Estaria o nobre deputado tratando da crescente altercação entre Donald Trump e Kim Jong-un? Avaliando prós e contras do chamado “distritão”? Ou, quem sabe, opinando sobre a reforma da Previdência? Nada disso. O intuito foi, tão somente, o de tergiversar sobre o apoio manifestado pelo seu partido à sanguinária ditadura imposta por Nicolás Maduro.

E não parou aí. Ao longo da conversa, o parlamentar socialista ainda foi capaz de afirmar que “a democracia deve ser um valor absoluto da esquerda”.


Ao contrário de Chico, sou incapaz de estranhar o endosso do PSOL à carnificina patrocinada pelo Estado venezuelano. A natureza autoritária, violenta e inescrupulosa do socialismo, aliás, não tem como surpreender quem for minimamente afeito aos livros de história. Por outro lado, não deixou de ser inusitada a tentativa de associar à esquerda valores democráticos. De tal forma que um questionamento se impõe: seria Chico Alencar um caso de ignorância sincera ou trata-se apenas de um perfeito cara de pau?

Com quase 30 anos na política, mais da metade deles no Partido dos Trabalhadores, o deputado carioca não merece o benefício da dúvida. Entretanto, é preciso ressaltar, ele não está sozinho.

Nas últimas horas, tanto Dilma Rousseff quanto Donald Trump, em falas praticamente idênticas, ratificaram a falta de empatia que há tempos disseminam em seus discursos. “Não vou culpar apenas Maduro, existe um conflito”, sapecou a ex-presidente afastada. “Condenamos a violência de todos os lados”, salientou o presidente americano enquanto neonazistas aterrorizavam a pequena Charlottesville.

De Chico a Dilma, de Freixo a Trump, tal ausência de decoro bem que poderia permanecer relegada à esfera política. Não deixaria de ser uma postura detestável, mas, fosse assim, pelo menos não contaminaria a sociedade. Infelizmente, já atravessamos esse rubicão.

Basta constatar como reagiram vários formadores de opinião, assim que seus partidos prediletos se posicionaram em favor de uma ditadura: passado o desconforto inicial, buscaram logo redefinir o que é “ser de esquerda”.

E também vale checar os inúmeros comentários publicados na internet após as atrocidades protagonizadas por supremacistas brancos na Virgínia. Houve quem misturasse direito de expressão com atos que imediatamente seriam tachados de terrorismo, caso tivessem sido promovidos por sujeitos mais bronzeados, com a barba por fazer e usando um turbante na cabeça.

A verdade é que não restam muitas opções para quem se recusa a aceitar os fatos. Ou bem o sujeito demonstra ter dificuldade para rever conceitos, ou se mostra um absoluto desconhecedor da própria ideologia que tanto apoia.

Para uma sociedade habituada ao culto de personalidades e políticos, não deixa de ser alvissareiro vê-los despidos, suas limitações morais expostas como se fossem tripas em decomposição.

Mas quando se percebe uma propensão ao fanatismo pelas esquinas, não resta muito o que comemorar.

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