Dois mitos com uma só cajadada (e o melhor nem é isso)

Dois mitos com uma só cajadada (e o melhor nem é isso)

A decisão do TRF4 permite vislumbrar o debate como deve ser: despido de paixões ideológicas.

Mario Vitor Rodrigues

28 Janeiro 2018 | 09h42

Imagem: internet

 

Não deu outra: mal o desembargador Victor Luiz dos Santos Laus dissipou os rumores sobre um possível pedido de vista, acompanhando os votos dos seus colegas, Leandro Paulsen e João Paulo Gebran Neto, logo desatou o discurso de que não havia motivo para comemorações. Afinal, o líder popular mais importante na história da República acabava de ter a sua condenação por corrupção passiva e lavagem de dinheiro confirmada, com pena acrescida de 9 para 12 anos de prisão.

Sem muito esforço, é possível lembrar que tal argumento também surgiu quando Dilma Rousseff foi afastada. Defenderam, então, que o impeachment de alguém eleito pelo voto direto não deixava de provocar um abalo na ordem democrática. Ainda por cima em se tratando da primeira presidente eleita.

Sou capaz de respeitar essas opiniões, porém não de dar razão a elas. No fim das contas, a história da República e de seus personagens, bem como a ordem democrática, não podem prescindir do cumprimento da lei. Assim como a legitimidade de um político não se encerra na vontade do eleitor, mas em sua própria conduta enquanto representante público.

Por falar na derrocada de mitos, celebrar a condenação de corruptos como Luiz Inácio torna-se ainda mais justificável, nesse caso, pela amplitude dos seus benefícios: além de Lula ter encontrado o seu jazigo político sem espaço para contestações razoáveis, quem há tempos lucra com a aversão ao petismo igualmente tende a definhar.

E a perspectiva é alvissareira não apenas por conta de Jair Bolsonaro e seus filhos, que desde o início não hesitaram em abusar dessa estratégia. Movimentos como o MBL e páginas de notícias na internet também amealharam grande notoriedade graças ao descalabro político, ético e econômico imposto pelo projeto petista.

Idêntico efeito deve recair sobre outra ala, a dos articulistas com viés à esquerda, que não se recusou a surfar na dicotomia PT x PSDB, como se de fato fossem partidos em extremos opostos. Em alguns casos, pior ainda, há quem alimente um fictício embate entre a esquerda e a direita, como se o nosso espectro político não se constituísse, por larga margem, em matizes da primeira.

Ainda não sabemos se o STF terá a pachorra de abençoar um grande acordo que salvaria, além de Lula, outros importantes caciques da política nacional. Seja como for, a decisão tomada pelo TRF4 permite vislumbrar, ainda que por uma nesga, o debate sobre as políticas públicas como deve ser: centrado em bons exemplos e na eficiência; despido de paixões ideológicas.