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Entre a realidade e o descaramento

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Entre a realidade e o descaramento

Verdade seja dita, enquanto o choro é livre e o corporativismo político grassa, cabe ao cidadão saber separar a realidade do descaramento.

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Mario Vitor Rodrigues

15 Março 2017 | 11h03

Foto: FJ DIORIO/Estadão

Foto: FJ DIORIO/Estadão

 

Não se trata de um modismo à toa, lá se vão anos desde que o assunto caixa 2 ultrapassou as fronteiras de Brasília. Ultimamente, porém, três declarações a esse respeito merecem especial atenção. Inclusive uma nem tão recente assim.

Pela ordem. Corria o ano de 2005 quando Lula, então presidente, declarou o seguinte, ao ser questionado sobre essa prática criminosa cometida pelo Partido dos Trabalhadores: “o que o PT fez, do ponto de vista eleitoral, é o que é feito no Brasil sistematicamente.”

Já no início deste mês foi a vez de seu antecessor, Fernando Henrique, dizer o que pensa a respeito do tema, depois que o tucano Aécio Neves teve o nome envolvido na suspeita de recebimentos não contabilizados para sua campanha em 2014: “Há uma diferença entre quem recebeu recursos de caixa 2 para financiamento de atividades político-eleitorais, erro que precisa ser reconhecido, reparado ou punido, daquele que obteve recursos para enriquecimento pessoal, crime puro e simples de corrupção.”

Por fim, coube a Emílio Odebrecht e José Eduardo Cardozo compartilharem suas visões, ambos durante depoimentos prestados ao juiz Sérgio Moro. Na opinião do empreiteiro, caixa 2 “faz parte do modo reinante”, enquanto para o ex-ministro da Justiça “é uma realidade da política brasileira”.

Verdade seja dita, enquanto o choro é livre e o corporativismo político grassa, cabe ao cidadão saber separar a realidade do descaramento.

Não sou político, tampouco empreiteiro ou empresário, entretanto suponho que Lula, Emílio e José Eduardo estejam certos.

E como eu poderia pensar diferente, se desde sempre estou exposto a um noticiário repleto de situações escabrosas e negociatas?  Como questionar essas premissas, se durante o meu cotidiano percebo delitos morais de todos os tipos e em todos os níveis? Estou ou não diretamente envolvido, diga-se, tanto sendo achacado quanto sendo conivente.

Trocando em miúdos, por qual motivo nossas instituições haveriam de ser diferentes se apenas são reflexo da sociedade que as escolheu?

Diga-se, Fernando Henrique também não deixa de ter razão em suas colocações. É claro que existem diferenças entre o uso de caixa 2 para obter vantagem eleitoral e a troca de favores por meio de propina. Mesmo porque, nem as doações declaradas garantem lisura ou evitam o famoso toma lá, dá cá.

O problema em seu discurso, porém, assim como nos outros citados, está na subliminar tentativa de normalizar uma pratica criminosa que, na melhor das hipóteses, propicia condições para a corrupção. Sem falar que fere de morte a democracia, uma vez que desequilibra a própria disputa eleitoral.

Qualquer democracia corre riscos quando a retórica de demonização generalizada da classe política ganha corpo. A ladainha de que ninguém presta, no fundo, só beneficia os interessados em vestir a fantasia de salvador da pátria. É uma pena, mas, não só esse clima já está instalado, como extrapola o compreensível.

Aguardemos, mas se levarmos em conta os nomes já veiculados como fazendo parte da tão aguardada lista de Janot, parece inevitável que os caciques e as legendas habituadas a comandar o país desde a redemocratização saiam gravemente chamuscados.

Sinceramente? Tomara.

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