Entrevista: Fernando Gabeira

Entrevista: Fernando Gabeira

"O que eu às vezes reflito é o seguinte: Existe uma tendência intrínseca à roubalheira ou é um sistema político no qual você só pode avançar se aceitar determinados termos?"

Mario Vitor Rodrigues

11 Julho 2017 | 14h00

Foto: Fábio Motta?Estadão

 

A pauta inicial previa um papo sobre o crescente clima de insegurança na cidade, mas foi impossível ignorar a crise política que assola o país. Escritor, jornalista e ex-deputado federal pelo Rio, Fernando Gabeira me recebeu em seu apartamento, localizado em uma discreta rua de Ipanema, avisando logo que não se furtaria de opinar  sobre qualquer assunto. E assim foi.

Após um período de relativa calmaria, segundo muitos, graças às UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora), como você enxerga o atual momento do Rio e os recentes episódios de criminalidade? 

A violência está inserida em um contexto um pouco maior. O Rio está acordando de um sonho baseado no petróleo, no fluxo generoso de verbas federais e em uma estrutura corrompida que estimulava a euforia econômica. Agora, grande parte desses elementos são colocados em contato com essa realidade. E as UPPs foram um desses elementos. Eu sempre falei, e o próprio Beltrame (José Mariano Beltrame, ex-secretário de Segurança do Rio de Janeiro) reconheceu nas nossas conversas, que uma estratégia contra a violência baseada nas UPPs, para ter alguma efetividade, precisaria de um exército chinês. São quase mil comunidades, era evidente que, nos lugares onde as UPPs se instalassem, haveria uma tendência para a dispersão. Foi por isso que outras comunidades menores e de porte médio acabaram sendo atingidas. Basta ver as realidades de Macaé e de Campos, que, proporcionalmente, é a cidade mais violenta do Estado. Agora, você não tenha dúvida, na medida em que as UPPs vão se enfraquecendo, eles vão voltar a se concentrar. É inevitável.

(faz uma breve pausa e continua)

…é claro, conta muito, também, essa desmoralização do Estado. O tipo de governo que houve aqui, entende? A corrupção no Rio de Janeiro ganhou dimensões…eu não posso dizer oceânicas porque já foi muito usado, tem que inventar outra palavra. Isso dificultou muito, porque não houve uma passagem de um governo para outro. Na verdade, uma parte da quadrilha foi colocada na cadeia e os cúmplices continuaram governando. Eles perderam a legitimidade para conduzir uma reconstrução. A única missão que têm agora, como todos os políticos, é correr adequadamente da polícia. E de se proteger, uns aos outros.

O eleitor carioca estará sempre fadado a escolher entre o “rouba-mas-faz” e o populismo de esquerda?

Olha, eu acho que na última eleição houve uma fratura numa parte representativa dos eleitores. Eu diria que na classe média, porque o Eduardo Paes tomou uma posição arrogante diante da realidade. Se tivesse havido um campo que se distanciasse dos polos que foram para o segundo turno, o resultado poderia ter sido diferente. Mas eu acho que, com raras exceções, a escolha em si, o ter em quem votar, acaba sendo dramático em todos os estados do Brasil.

Por falar nisso, como você vê o voto obrigatório?

Eu sempre fui contra. Sou contra tudo o que é obrigatório: voto, serviço militar, programa eleitoral gratuito e até a Voz do Brasil. Acho que tudo isso poderia ser revisto.

Muitos se mostram preocupados, dizem que, se o voto não for obrigatório, fulano ou beltrano terão mais chances de se eleger…

Às vezes as pessoas se confundem nesse campo, porque o Brasil é um país com eleitores muito pobres, passíveis de serem manipulados pelo populismo e acabariam formando maiorias estranhas, mas a experiência do voto facultativo mostra que você tem menores abstenções de acordo com a importância dos candidatos. Na eleição do Obama, o nível de abstenção foi muito menor, porque havia naquele momento candidatos vocalizando os desejos da sociedade.

E esse “Fora, Temer”? É genuíno, ou não passa de um discurso encomendado? Afinal, desde a reabertura, todos os presidentes já sofreram com essa campanha. A diferença é que, desta vez, quem sempre puxou o coro acabou sentindo na pele…

Olha, existem várias maneiras de medir isso e uma delas é a presença da sociedade nas ruas. Nesse sentido, não está acontecendo. A outra é ouvi-la sobre um determinado assunto; são as pesquisas, e aí existe uma tendência pela saída do Temer. Eu acho que alguns fatores deveriam ser analisados historicamente. Não precisamos ir muito longe, basta pegarmos a composição de forças que comanda o Brasil desde 2002. Em um determinado momento, formou-se uma coalisão entre PT e PMDB com o objetivo comum de se preservar no poder. Uma parte desse bloco desmoronou com a queda da Dilma, mas a que ficou adotava as mesmas práticas. Na medida que as investigações descobrem isso, a sociedade espera que se cheguem às mesmas consequências.

(outra breve pausa)

O que eu às vezes reflito é o seguinte: como explicar que os dois principais candidatos após o movimento pelas diretas, tanto o Collor quanto o Lula, levantavam a bandeira contra a corrupção e ficaram enredados nesse mesmo processo? Entende? Existe uma tendência intrínseca à roubalheira ou é um sistema político no qual você só pode avançar se aceitar determinados termos? As pessoas tem de pagar pelas suas responsabilidades, não resta dúvida, mas é preciso notar o que produz isso. Tem eleições, no interior do Brasil, para prefeito, que custam seis milhões de reais. Já as presidenciais, centenas de milhões. Além disso, manter-se no governo também é custoso, porque você precisa comprar os partidos aliados nesse chamado presidencialismo de coalisão. Sem falar que os dois principais candidatos ao poder, o PT e o PSDB, uma vez que o PMDB sempre foi um conjunto de poderes estaduais que se agregavam ao federal, miravam um projeto de 20 anos. Em resumo, os partidos se transformam em máquinas de fazer dinheiro que se encontram com empresários e empreiteiras…

PT x PSDB, esquerda x direita…Essas dicotomias existem?

Bem, de uma certa maneira, essa, entre direita e esquerda, foi vencida na França, na medida em que, nem a esquerda e nem a direita tradicionais chegaram ao segundo turno.

Constatar que lá fora já ultrapassaram esse Fla-Flu traz uma ponta de tristeza?

Não, não. Acho, inclusive, que aqui caminha-se para isso. Muito provavelmente, vão se configurar duas forças populistas, uma de cada lado, e, se houver uma pessoa com uma estrutura decente no meio, ela vai chegar à maioria. É muito possível. Agora, esses grupos mais aguerridos, o PT de um lado e o Bolsonaro do outro, precisam  dessa coisa recíproca, entende? Um precisa do outro para sobreviver e crescer.

Esse sentimento de aversão à política preocupa? O que dizer sobre esse “Fora Todos!” de que tanto falam por aí? 

Eu tenho refletido sobre isso e procurado ver em momentos históricos como se expressa. Na eleição da Dinamarca, em 1973, muitos partidos e candidatos caíram, foi um processo bastante forte. Voltando à recente eleição francesa, não foi propriamente um “fora todos”, mas um novo movimento que conseguiu vencer as eleições e formar a maioria do Parlamento. Acho que esse clamor se expressa dessa forma. A renovação por aqui ainda não tem estruturas definidas, mas o fato de ter havido um movimento com uma presença grande de pessoas nas ruas, e com organização, indica que já existe uma semente.

Há quem defenda o atual governo por conta das reformas, como as vê?

No meu entender, a previdenciária precisa ser melhor discutida. Você precisa fixar melhor a diferença e o papel dos funcionários públicos, porque o peso vem daí. E você precisa, também, incluir a dimensão das dívidas das empresas. Tem de encontrar uma maneira de cobrar essas dívidas. Já a reforma trabalhista corresponde a um avanço do capitalismo que nos colocou numa situação onde o trabalho é mais precário. De todo modo, você querer voltar atrás, para o tempo onde todos tinham carteira assinada e eram sindicalizados, não passa de um sonho conservador. O problema é como dar um mínimo de garantia nessa situação precária que a realidade global do capitalismo nos colocou.

E a reforma política?

Acho que eles não tem legitimidade, mas poderiam fazer duas coisas: a primeira, uma cláusula de performance, para evitar um grande número de partidos. Exigindo que tenham uma certa porcentagem de votos. E a outra é acabar com as coligações para as eleições proporcionais. Agora, no momento em que se colocar um novo governo, com legitimidade para discutir uma reforma política de fato, o parlamentarismo vai entrar em discussão e também, sobretudo, o voto distrital e o distrital misto.

Pensa em ser candidato?

Não penso. Hoje em dia eu tenho uma vida ao ar livre e não gostaria de voltar…Agora, se tivéssemos uma experiência nacional que eu visse indo por um bom caminho, doaria algumas horas extras para ajudar. Acharia normal.