Índio caprichoso

Índio caprichoso

Desde quando as nossas instituições devem se curvar à repentina popularidade alcançada por Janot?

Mario Vitor Rodrigues

02 Julho 2017 | 08h58

Foto: Divulgação/Movimento Limpa Brasil

Em tempos tão conturbados, muitas são as perguntas e poucas as respostas quanto ao futuro do país. Questiona-se o Judiciário, cogitam-se eleições antecipadas e até a importância das reformas econômicas é posta em xeque. Aparentemente, porém, de uma certeza ninguém escapa: Raquel Dodge está mancomunada com Michel Temer para livrá-lo de apuros e enterrar a Lava-Jato.

A futura procuradora-geral da República foi pinçada de uma lista tríplice oferecida pela própria ANPR (Associação Nacional dos Procuradores da República), em que figurou como segunda colocada, tendo recebido 587 votos. Dentre os três candidatos selecionados, apenas ela ostenta um diploma de peso no exterior (mestre em Direito pela Universidade de Harvard), e também foi a única a conduzir uma operação que resultou na inédita prisão de um governador durante o exercício do mandato (José Roberto Arruda-DEM, no Distrito Federal). Entretanto, de acordo com a sabedoria popular, se foi ungida por um presidente interessado em fugir das garras da justiça, boa sujeita não deve ser.

Como se vê, a lógica parece irresistível. E é uma pena que seja assim.

O problema não reside na desconfiança que se tem do presidente — duvidar de políticos deveria ser prerrogativa cotidiana de todo cidadão, e não uma reação ocasional, turbinada por mágoa e ranger de dentes —, mas na sofreguidão com a qual engolimos narrativas.

Um bom exemplo disso aconteceu nessa sexta, com o surgimento de balões de ensaio dando conta de insatisfações e até ameaças de renúncias dentro da PGR, pelo fato de Raquel ser rival de Rodrigo Janot.

Em nota, tal boataria já foi desmentida por procuradores ligados a Lava-Jato. E vale lembrar que a nomeação do procurador-geral é uma função do chefe do poder Executivo prevista na Constituição. Agora, ainda que não fosse assim, uma pergunta se impõe: desde quando as nossas instituições devem se curvar à repentina popularidade alcançada por Janot?

Ontem mesmo, em um congresso de jornalismo, ao ser perguntado sobre o que poderiam esperar dele durante o tempo que lhe restava no cargo, o procurador-geral resolveu inovar:  “enquanto houver bambu, lá vai flecha”. E depois acrescentou que manteria “o mesmo ritmo”. Achei as duas respostas ótimas. Principalmente a segunda. Só espero que o ritmo em questão não seja aquele dispensado a Mercadante, Dilma, Luiz Inácio e José Eduardo Cardozo.

Que não reste dúvida, Temer fez por merecer tamanha rejeição; sua conversa com Joesley ultrapassa com folga os limites do “nada republicano”. Só não vale fingir que se trata do primeiro politico disposto a lutar até o final por sua sobrevivência.

Dodge, em inglês, significa desviar.

Dependendo das flechas, nem é preciso.