Macron aponta o caminho

Macron aponta o caminho

O combate às fake news não deveria ser caro apenas para a França, mas também para o Brasil

Mario Vitor Rodrigues

07 Janeiro 2018 | 06h24

Foto: Geoffroy Van Der Hasselt/AFP

 

Jovem, excelente comunicador e tido por muitos como um exemplo alvissareiro de renovação na política. Seria Emanuel Macron uma espécie de Barack Obama europeu? A comparação, suscitada pelo ‘Le Parisien’ nos estertores de 2017, é tão inevitável quanto desejada: após a eleição de Donald Trump e a aprovação do Brexit, encadeadas mundo afora com manifestações xenófobas e até mesmo nazistas, nada mais genuíno do que o anseio por um líder capaz de passar mensagens moralmente inequívocas. Aliás, não custa lembrar, o próprio Macron personalizou esse embate quando derrotou a extremista Marine Le Pen.

Desde então, diga-se, o presidente francês não perdeu uma só oportunidade de estocar o colega americano. Com direito até a um debochado “make our planet great again”, em resposta a sua decisão de abandonar o Acordo de Paris. A última foi quando rejeitou o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel por parte de Washington, afirmando que não existe saída possível para o conflito israelo-palestino além da solução de dois Estados. E o fez em plena coletiva de imprensa conjunta com o premiê israelense, Benjamin Netanyahu, no Palácio do Eliseu.


Pois eis que, quarta-feira passada, mal começou o ano, Macron novamente surgiu para apontar o caminho. E tocou em um assunto que não deveria ser caro apenas para a França, os Estados Unidos ou as grandes potências, mas também para o Brasil: o combate às fake news

Em pronunciamento à imprensa, o mandatário desse povo que não titubeou em eleger um candidato moderado, quando a alternativa apontava para o radicalismo, defendeu a criação de uma lei mais rígida para enfrentar campanhas de desinformação: “especialmente em períodos eleitorais, na internet, se fazendo valer de milhares de contas falsas nas redes sociais”, disse. E foi além: “em um instante, espalhados por todo o mundo, em todos os idiomas, hackers inventam mentiras para sujar um político, uma personalidade, uma figura pública, ou um jornalista”.

Na verdade, o enfrentamento de Macron contra as “fausses nouvelles”, como dizem por aqui, não é avis rara. Já em maio do ano passado, pouco depois de ter sido eleito, ele veio a público acusar os órgãos de imprensa russos ‘RT’ e ‘Sputnik’ de serem “agentes influenciadores e não jornalistas”, por suas atuações durante as eleições francesas. Foram palavras duras: “Quando organizações de notícias espalham inverdades vergonhosas, já não são jornalistas, mas órgãos de influência”. O detalhe é que, assim como não se deixaria constranger pela presença de Netanyahu nos meses seguintes, tais comentários também foram testemunhadas de perto por Vladmir Putin, então em Versalhes para visitar o presidente eleito.

Bem, como eu dizia, o Brasil deveria ter todo o interesse em acompanhar de perto essa condução por parte da França – fala-se que mais detalhes sobre a lei serão divulgados nas próximas semanas.

Digo, o turbilhão que se sucedeu no país desde as últimas eleições presidenciais pode até embaralhar um pouco a nossa memória, mas é inesquecível o que a campanha de Dilma Rousseff fez com Marina Silva. Tão inesquecível quanto o que a ex-presidente afastada fez com o povo brasileiro, ao mentir deslavadamente sobre a saúde financeira do país e pedalar como nunca para garantir a sua reeleição.

Justiça seja feita, sequer precisamos voltar tanto no tempo para argumentar sobre campanhas difamatórias no nosso quintal: os ataques contra a Reforma da Previdência estão aí para comprovar que já somos mestres na arte de manipular a ignorância alheia e incutir o medo, de modo a guinarmos o entendimento da massa como acharmos mais conveniente.

Ainda por cima levando em conta as eleições que se aproximam, eis uma luta que deveria ser comum a toda sorte de grupos políticos e ideológicos. Sob pena de assistirmos a nossa própria democracia sendo sequestrada para atender a interesses vários, exceto o bem comum.