Muita calma nessa hora

Muita calma nessa hora

No fim das contas, por mais animador que seja constatar a crescente indignação da sociedade, não podemos permitir que este sentimento seja instrumentalizado por oportunistas.

Mario Vitor Rodrigues

16 Abril 2017 | 10h45

Nelson Antoine/Framephoto/Estadão

Nelson Antoine/Framephoto/Estadão

“Toda vez que se nega a política aparece um Bolsonaro, assim como apareceu um Hitler e um Mussolini.”  (Lula)

 

Foi logo após a divulgação da lista ponderada pelo ministro Fachin, enquanto eu navegava pelas redes sociais, que me vi na inusitada situação de concordar com Luiz Inácio. Rogo para que não me confundam. É claro que o grau de cinismo e a sorrateira autorreferência provocam engulhos, porém, nenhum dos dois esvazia o conteúdo da frase.

Acima de tudo no momento atual, não podemos nos iludir: demonizar a política seria mesmo arriscado. Por várias razões, mas principalmente pela falsa premissa embutida nesse  conceito de fora todos que pipoca por aí.

Basta reparar como, no fundo, quem preconiza esse tipo de sentimento nunca propõe uma anarquia per se. Pelo contrário, imediatamente depois, uma vez sugerida a ausência total de esperança, não se demora em defender aquela que considera a única saída possível. Às vezes com uma pitada de propaganda ideológica, mas nunca sem deixar de apresentar o nome de um candidato.

Em outras palavras, são pessoas que plantam desespero com o único intuito de dourar a própria pílula.

Pois muito bem, não duvidem, logo surgirão candidatos a salvadores da pátria de toda sorte. Principalmente aqueles que passarem incólumes pelo radar da Lava-Jato — como se esse fato em si comprovasse honestidade ou significasse virtude, não obrigação.

Ora essa, mas do que estou falando se, na mesma tarde em que o país acordava para o maior escândalo de corrupção de sua história, Marina Silva ressurgia para aproveitar o momento com mensagens subliminares?

Justo ela, com vinte anos de PT nas costas, tendo sido ministra de Lula e fiadora de Aécio Neves, aparece se achando em condições falar sobre futuro e honradez?

Aliás, voltando ao eterno líder petista, ele também não se faz de rogado. Enriqueceu como poucos e comandou o esquema talhado para sequestrar a democracia, no entanto, permanece alardeando o próprio nome como ideal para tirar o país do fosso que cavou.

Isso, é claro, para não falar sobre os mentecaptos de sempre, Ciro Gomes e Jair Bolsonaro, ou sobre o fanatismo sem escrúpulos do PSOL.

Insisto, mesmo acontecendo a reforma que todos desejamos, incluindo aí a cláusula de barreira, o fim do voto obrigatório e até uma mudança no modelo de governo, continuaremos tendo a responsabilidade de escolher os nossos representantes.

Ainda que fizéssemos um improvável mea culpa, revíssemos nossos valores e admitíssemos que corrupto algum surgiu por acaso, que foi sempre escolhido por nós, o caminho não será outro que não o político.

Vale dizer, nem por um instante sou adepto do discurso apaziguador defendido pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Ao contrário dele, figura central nessa tragédia e interessado no melhor desfecho possível para o seu PSDB, sou um cidadão que sofre na pele as consequências de tanto descalabro.

E também não sou como Chico Buarque, Wagner Moura, os vários Zés de Abreu e Sabatellas. Nem eles, tampouco os  ditos intelectuais, capazes de defender o indefensável, só para não terem de admitir que passaram a vida inteira do lado errado da história.

No fim das contas, por mais animador que seja constatar a crescente indignação da sociedade, não podemos permitir que este sentimento seja instrumentalizado por oportunistas.

Como a história faz questão de nos ensinar há gerações, o que está ruim sempre pode piorar.

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