Never forget

Never forget

Que nossos conterrâneos, acostumados a abusar de estereótipos quando falam de nós, conheçam as razões para tanta desgraça

Mario Vitor Rodrigues

18 Fevereiro 2018 | 09h01

Foto: Givaldo Barbosa/local

 

A intervenção anunciada hoje pode ser um perigoso passo para a consolidação e o aprofundamento de um estado de exceção no Brasil”, diz a nota oficial do Partido dos Trabalhadores sobre a intervenção federal na segurança pública do Rio. Convenhamos, para quem chegou a negar a Constituição, foi contrário ao Plano Real e aos projetos assistencialistas precursores do Bolsa Família, sem falar na lei de Responsabilidade Fiscal, não poderia existir postura mais coerente. A filosofia do “quanto pior, melhor” sempre balizou o discurso petista quando o partido se viu distante do poder.

Desta vez, entretanto, ao menos para quem testemunhou o início da parceria entre o brizolismo e o próprio PT, responsável pela continuidade de um modelo populista enfestado por Garotinhos e Cabrais, o desprezo não poderia ser maior. Começou ali a romantização das favelas. Foi a partir de então que, ainda por cima colonizado por um sentimento de culpa típico em sociedades culturalmente cristãs, associado à força do funcionalismo público local, o cidadão fluminense se viu enredado.

Ademais, extrapola todos os níveis de indignidade que uma escalada assim vertiginosa de violência possa servir como ferramenta para propaganda ideológico-partidária.

E que não me venham falar sobre o sepultamento da votação e consequente impedimento da reforma da Previdência. Assusta constatar que o timming político possa preponderar mesmo quando a perda de vidas está em jogo. Indo direto ao ponto, por maior que seja a repulsa pelo governo federal e ainda que Michel Temer deixe o Palácio do Planalto como sendo o presidente mais impopular em nossa história, se a intervenção merece alguma crítica, essa deve centrar na sua demora.

De resto, por mais duradoura que seja, é claro que a estadia dos militares na cidade não será capaz de resolver uma situação cultivada durante tanto tempo. Assim como o país, o Rio precisa investir forte na educação de base e erradicar discursos paternalistas que acabam por atrofiar a criatividade e o empreendedorismo do seu povo.

Na condição de carioca, o meu desejo não poderia ser outro: que deixemos de ser apenas o lugar mais emblemático graças à beleza natural e que, em paz, possamos gerar empregos e bom serviços. Livres do banditismo que se esconde nos morros, palácios e também aquele disfarçado de revolução.

Já, na de brasileiro, que a minha cidade possa servir de exemplo. Que nossos conterrâneos, acostumados a abusar  de estereótipos quando falam de nós, conheçam as razões para tanta desgraça.

E que não se esqueçam de seus autores.