O dindo agradece

O dindo agradece

No fundo, João demonstra nutrir um profundo desprezo pelo funcionamento de um jogo no qual ainda é novato.

Mario Vitor Rodrigues

08 Outubro 2017 | 10h33

Foto: João Doria

 

Ânsia por um pleito que restabeleça a legitimidade institucional no seio da República versus a expectativa de uma guinada na maneira de pensar o país e gerir a sua economia. Dificilmente tal confronto de perspectivas deixaria de ser contemplado em um resumo do atual momento político. Porém, ele não é o único. Existem outros acontecendo em paralelo, um deles em particular com potencial para influenciar diretamente o futuro da nação: a disputa que João Doria está conseguindo perder para ele mesmo em ser nomeado candidato pelo PSDB.

Peço aos defensores de Geraldo Alckmin um pouco de paciência. Não nego seu robusto cartel de conquistas eleitorais. Diga-se, à exceção da própria presidência, o atual governador de São Paulo disputou todos os cargos públicos eletivos possíveis e saiu vencedor. Apenas não pode ser comparado com o seu afilhado político em carisma, capacidade de comunicação e, acima de tudo, no quesito viço eleitoral.


Apesar disso, se hoje os tucanos fossem tomados por arroubos de autodeterminação, dificilmente deixariam de indicar Alckmin para liderar o retorno do partido ao Palácio da Alvorada. Uma escolha em grande parte fundamentada no comportamento açodado e por vezes acima do tom adotado por Doria.

No fundo, ao irritar-se com questionamentos da imprensa sobre suas viagens, sem falar no exagerado discurso antipetista que mais o aproxima de Bolsonaro, João apenas demonstra nutrir um profundo desprezo pelo funcionamento de um jogo no qual ainda é novato.

Não que desafiar jornalistas desagrade a sua claque. Idem para a retórica de que eleitores do PT possam ser “defensores de mazelas”. Apenas são posturas pouco inteligentes para alguém que dependerá do voto moderado, principalmente em um cenário tão dividido, se de fato quiser se eleger.

Por fim, Doria não deixará de ser escolhido caso consiga demonstrar que o seu nome garante maiores chances de vitória. Atropelar conceitos como lealdade ao desafiar seu padrinho político, entretanto, não colabora em nada para seduzir os grãos-mestres tucanos avessos ao seu postulado. Como, aliás, Alberto Goldman, vice-nacional do PSDB, deixou bem claro em suas últimas declarações.

Vale ressaltar, nessa última sexta-feira, em Belém, João alertou para o fato de que ainda não é candidato, rechaçou a hipótese de “acelerar o debate” e, quando convidado a se posicionar ideologicamente, disse com todas as letras não se considerar um candidato de direita: “Sou e sempre fui em minha trajetória uma pessoa de centro”.

Resta saber se decidiu abrandar o discurso ou se continuará decidido a melar um processo de nomeação que há poucos meses parecia bem encaminhado.

Enquanto isso, não resta dúvida, o relógio corre a favor de Geraldo.