No fundo do poço existe um porão

No fundo do poço existe um porão

Ou bem as reformas saem do papel agora, ou enfrentaremos dias sombrios em um futuro próximo.

Mario Vitor Rodrigues

26 Maio 2017 | 09h08

Imagem: montagem retirada da internet

 

O primeiro ato, acreditem, começou com um telefone sem fio: “Dono da JBS grava Temer dando aval para comprar silêncio de Cunha”, marchetou O Globo em sua versão on-line. Com o passar das horas, entretanto — economia, jornalismo e a própria sociedade já reféns da notícia — , um país aturdido descobriu que o alarde era incerto.

De fato, o presidente vacilou, ouviu confissões sobre mesada para políticos presos e a compra de juízes sem esboçar qualquer reação, mas o “tem que manter isso aí” continuava fora do contexto anunciado.

É claro que o segundo ato não poderia começar de outra forma. Pendurados estávamos e pendurados continuamos, tanto na apuração malfeita quanto no ego de um procurador-geral da república. O terceiro? Ainda está sendo escrito, e com sorte desmanchará outros caroços desse angu: afinal, estamos ou não vivendo ecos da ajuda fundamental que Ricardo Saud — diretor da JBS e hoje delator — deu a Fachin para que ele fosse nomeado ministro do STF? E o que a CVM tem a dizer sobre a compra de dólares feita pela JBS na véspera do estardalhaço?

Está tudo certo, que a nossa cena política virou uma matriosca de escândalos não é novidade, entretanto engana-se redondamente quem enxerga o atual cenário como se fosse o fundo do poço. Muito mais grave do que vivenciar o afastamento de outro chefe de Estado, do que as batalhas campais disfarçadas de atos democráticos, ou do que qualquer crise governamental, será a quebra definitiva do país. Processo esse que, não duvidem, já começou e logo atingirá um ponto irreversível, caso não enfrentemos as reformas econômicas com a seriedade e a urgência que elas merecem.

Com razão, fala-se muito sobre a reforma da previdência, uma vez que só ela já seria suficiente para postergar a catástrofe total, entretanto, o problema é maior e impõe outras transformações, sob pena de passarmos as próximas décadas fazendo remendos e colhendo os frutos nefastos desse atraso.

Além da previdenciária, as reformas trabalhista, fiscal e microeconômicas também pedem passagem. E não só pelas interseções entre elas, mas para que floresça um tripé basal comum em todas as sociedades promissoras: isonomia entre os cidadãos, maior produtividade e melhor distribuição de recursos, sem o qual jamais perceberemos um comportamento lógico por parte dos agentes econômicos.

Para não dizer que tudo está perdido, temos a grande vantagem de não precisar prever o futuro. Já vivemos em um Estado ganancioso por arrancar mais do que deveria dos seus cidadãos, injusto por estabelecer diferentes responsabilidades entre esses e que inibe o empreendedorismo com tantos encargos. Falta apenas a insolvência total, uma vez que não terá como arcar com as contas públicas previstas em um modelo tão atrasado quanto falido de administração.

Resumindo, resta torcer pela continuidade da Lava-Jato, fiscalizar para que a Constituição não seja atropelada por esse indecente discurso que fala em eleições antecipadas, mas, acima de tudo, para que acordemos de vez: ou bem as reformas saem do papel agora, ou enfrentaremos dias sombrios em um futuro próximo.