Odorico faleceu; Sucupira admirou-se

Odorico faleceu; Sucupira admirou-se

Mesmo para quem até hoje se deixou seduzir cegamente, agora tudo faz sentido.

Mario Vitor Rodrigues

16 Julho 2017 | 10h08

Imagem: Paulo Gracindo interpretando Odorico Paraguaçu – acervo/Rede Globo

 

Em “O Bem Amado”, novela escrita no ano 1973 por Dias Gomes, Odorico Paraguaçu é um político corrupto, de discurso populista, prefeito da fictícia Sucupira e obcecado pela necessidade de inaugurar o cemitério local. Uma sátira precisa do país, mas que desde a última quarta-feira precisaria de adaptações.

Passadas quatro décadas, eis que Sérgio Moro finalmente deu razão a quem nele depositava tanta esperança. Foi condescendente além do esperado ao sentenciar Lula — nove anos e meio para quem capitaneou a vandalização moral e financeira de todo um país soam quase ofensivos —, porém não deixou de fazer justiça. Por outro lado, como já era de se imaginar, tampouco o condenado recuou. O anúncio de sua candidatura à presidência, em um discurso recheado de retóricas datadas, funcionou como um guizo para a militância.

A verdade, entretanto, é que Luiz Inácio morreu politicamente. E as boas notícias não param por aí.

Farta dos desmandos da classe política, do toma lá dá cá e da promiscuidade entre o público e o privado, uma importante parcela da sociedade resolveu dar um basta. Essa postura, contudo, apenas ganhou vulto graças ao impeachment de Dilma Rousseff. Antes, enquanto o poder estava nas mãos de uma trupe ainda mais nefasta, a mesmíssima fatia de cidadãos ignorava tais condutas.

E é aí que surge a condenação de Lula. Como se fosse a última peça do quebra-cabeça. Um potente farol, sem o qual grande parte dos brasileiros não seria capaz de contemplar tantos malabarismos.

Digo, embora as críticas às reformas trabalhista e previdenciária não se sustentem além do fanatismo ideológico, é perfeitamente viável criar um curto-circuito capaz de estigmatizá-las.

O mesmo se dá com os atuais índices de desemprego. Por mais óbvia que seja a responsabilidade do governo Dilma, o cidadão comum raramente consegue refleti-la no pêndulo político. Sabedora dessa incapacidade, a máquina publicitária da esquerda não hesita em se aproveitar.

Inclusive o descontentamento oposicionista por conta dos acertos entre parlamentares e governo, quando este último lança mão de todas as cartas para sobreviver, pode e deve ser relativizado: é compreensível que provoque engulhos a todos, menos aos defensores de quem fez o diabo para se eleger.

Mas a capacidade petista e de seus aliados políticos em tecer narrativas, desta vez, enfrenta algo inédito: uma condenação calcada em provas tão robustas que, além de destronar sua referência eleitoral, despem o seu estratagema argumentativo. Mesmo para quem até hoje se deixou seduzir cegamente, agora tudo faz sentido.

A casa caiu.

O sítio.

E o triplex.

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