Os donos da bola – quarta-feira e além

Os donos da bola – quarta-feira e além

O PT atropelou todos e continuará assim após quarta-feira, confirmada ou não a condenação de Lula

Mario Vitor Rodrigues

21 Janeiro 2018 | 08h23

Foto: WILTON JÚNIOR/ESTADÃO

 

A cada primavera, ônibus cobertos com a imagem de Joseph Stalin podem ser vistos pelas ruas das cidades russas. Seu rosto substitui anúncios de celulares, refrigerantes, detergentes para lavrar roupa e comida de gato (…); uma imagem em particular, na qual ele aparece vestindo um sobretudo branco, faz bastante sucesso. Nela, Stalin lança um olhar ameaçador para os cidadãos, como se dissesse: “Vocês ainda se lembram de mim? Pois eu estou aqui, não fui a lugar nenhum…e não se esqueçam disso!”

Começa assim o último artigo de Nikita Petrov para a Foregin Affairs, intitulado “Don’t Speak, Memory”. Nele, o historiador, dedicado a estudos sobre as agências de segurança soviéticas e seus mecanismos de repressão, relata como vem tomando corpo na Rússia contemporânea uma tentativa de reescrever o período stalinista. Segundo Petrov, a Academia, parte da imprensa e o próprio Estado não têm poupado eufemismos para contornar o assassinato de 12 milhões de pessoas dirigido pelo ditador russo.

Pois, mesmo não existindo evento comparável ao Holodomor em nossa história, devo admitir que o texto conseguiu provocar em mim um temor desgraçadamente razoável: não viver tempo suficiente para testemunhar um Brasil livre da narrativa petista.

Vale ressaltar, falo aqui de uma máquina que já foi capaz de desferir ataques ao Plano Real e à Lei de Responsabilidade Fiscal; aos projetos precursores do Bolsa Família por constituírem compra de voto e até de negar a Constituição.

Tudo isso, é claro, antes que o PT assumisse o poder.

Depois, uma vez atingido esse objetivo, tanto o discurso quanto as atitudes mudaram. De um lado, interessados em lucrar eleitoralmente com a cizânia, aprofundar-se ainda mais na tática divide et impera. Por outro, não hesitaram em surfar no sucesso alheio enquanto semeavam a tese da herança maldita, seguindo à risca outro lema basal para qualquer partido de esquerda que se preze: “tudo pela causa”. Aliás, pela própria causa, como bem revelou a Operação Lava-Jato.

E foi assim, de Ribeirão Preto a Minas Gerais, de Brasília ao Rio de Janeiro, para não falar em Santo André (…), que o Partido dos Trabalhadores atropelou todos com audácia suficiente para atravessar o seu caminho. E continuará sendo assim após quarta-feira, confirmada ou não a condenação de Luís Inácio. As recentes declarações de Gleisi Hoffmann e do ilustre condenado, uma falando em morte e o outro em regular os meios de comunicação, impedem qualquer dúvida a esse respeito.

Verdade seja dita, o sucesso eleitoral alcançado pelo projeto petista deve muito à capacidade de organização do partido, à inteligência política e ao carisma de Lula, além, é claro, da frouxidão tucana e do fisiologismo peemedebista. Com toda sorte o período teria sido ainda mais duradouro sem a condenação de Antônio Palocci. Entretanto, não é possível excluir da equação o nosso absoluto desdém, como sociedade, pelo próprio futuro. 

No fim das contas, é esse o ponto que interessa: se a sanha do Partido dos Trabalhadores e da esquerda em geral está longe de terminar na próxima quarta-feira, não resta outra saída aos brasileiros fartos de suas ameaças, seus discursos demagogos e suas táticas desprovidas de limites morais que persistir no confronto.

Sem apelar para radicalismos no sentido contrário, obviamente, mas interessando-se pelo debate político, conscientizando-se e participando de uma peleja em que, queiramos ou não, os donos da bola somos nós.

Ou pelo menos deveríamos ser.