Quando a natureza marca

Quando a natureza marca

A sorte do brasileiro avesso a extremismos é que Ciro gosta de falar.

Mario Vitor Rodrigues

05 Novembro 2017 | 09h39

Ilustração: Kleber Sales

 

É batata, a cada resultado de pesquisa que sugira um confronto entre Lula e Bolsonaro no segundo turno das próximas eleições, desata a histeria país afora. Por um lado, trata-se de uma reação alvissareira, sinal de que sabemos identificar gatunos e mentecaptos. Entretanto, não deixa de ser ilógica: pesquisas de intenção de voto um ano antes do pleito são tão seguras quanto previsões climáticas quinzenais. Sem falar no alto índice de rejeição que ambos suscitam, fator decisivo em um ambiente eleitoral como o nosso, em que o cidadão é constrangido a votar.

Tudo isso dito, cabe ficar de orelha em pé com relação a uma possível candidatura de Ciro Gomes. Na impossibilidade de votar em Luiz Inácio, e dada a postura manquitola de Marina Silva, não será de surpreender uma união da esquerda em torno do pedetista.


A sorte do brasileiro avesso a extremismos é que Ciro gosta de falar. E não é muito brilhante ao descortinar suas referências morais.

Na última quarta-feira, por exemplo, esteve em Salvador com o petista Jaques Wagner. Diga-se, em meio a declarações sobre certa “marcha pela civilização” e “maior unidade no campo progressista”, o ex-governador da Bahia não pensou duas vezes antes de referendar a visita: é um bom candidato.

Vá lá, uma aproximação de Ciro com o partido que liderou o maior saque aos cofres públicos na história do país não pode provocar estranheza. Não se lembrarmos que foi ministro da Integração Nacional durante o primeiro mandato de Lula.

O mesmo não se pode dizer, entretanto, de seu recente flerte com Jair Bolsonaro. Primeiro, foi capaz de elogiar a integridade do deputado, que, não custa lembrar, já foi capaz de louvar publicamente um torturador. Depois, colocou-se na mesma prateleira do sujeito ao garantir que mais cedo ou mais tarde ganharia a preferência de seus seguidores — “o eleitor do Bolsonaro é meu”.

Muitos alegam que tal falatório é comum aos pré-candidatos. Que a proximidade de uma eleição provoca esse feito, com uns buscando falar mais alto do que outros e nem sempre escolhendo as melhores palavras ao logo do caminho.

Faz sentido, mas não dessa vez.

A verdade é que ao pré-candidato sequer falta experiência política para justificar seus chiliques típicos de coronéis novelescos. Muito pelo contrário, ao longo de quase 40 anos de vida pública, passou por inúmeras legendas, dentre as quais o PMDB e o PSDB.

No fim das contas, a persona boquirrota e o desequilíbrio emocional são tão úteis quanto sintomáticos. Ao mesmo tempo que denunciam, mascaram o desespero de quem há tempos range os dentes em busca de um maior protagonismo.

De todo modo, o país nada tem a ver com isso.

E, felizmente, pode contar com o próprio Ciro para ser lembrado deste fato.