Respeitem a Constituição

Respeitem a Constituição

Se nunca existiu um xeque-mate tão ajustado para cima de políticos e poderosos, a quem interessa jogar o tabuleiro para o alto?

Mario Vitor Rodrigues

18 Maio 2017 | 10h57

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

 

“Nem Dilma, nem Temer”. Era dessa maneira que o jornal Folha de São Paulo intitulava o seu editorial em 02 de abril de 2016, quando o afastamento de Dilma Rousseff pintava inevitável. Não que pudesse ser de outra forma, o texto se encerrava em um emaranhado de zigue-zagues retóricos, mas lá pelas tantas fez jus ao título com o seguinte trecho: “dada a gravidade excepcional desta crise, seria uma bênção que o poder retornasse logo ao povo a fim de que ele investisse alguém da legitimidade requerida para promover reformas estruturais e tirar o país da estagnação”.

Em resumo, tratava-se de um senhor desaforo à Carta Magna, tanto assim que logo recebeu o apoio de oportunistas de plantão como Marina Silva. De quebra, também advogava para os mesmos grupos que pediram e apoiaram o impeachment de absolutamente todos os presidentes democraticamente eleitos desde a reabertura política, relutantes em experimentar do próprio veneno.


Muito bem, passados 15 meses, o título finalmente ganha algum sentido literal, mas a premissa do texto continua cretina.

Que não reste dúvida, se tanto Dilma quanto Temer mostraram-se inaptos para governar o país, é tão somente por terem assumido as funções para as quais foram eleitos. Se, ao contrário, prevalecesse o discurso de ambos os seus detratores, seja pela volta dos militares ou via cínicos editoriais, jamais teriam sido desnudadas suas tramóias, tanto desapreço pelo decoro, falta de caráter e respeito para com os brasileiros.

Ao contrário do que velhos sabujos como Ronaldo Caiado e Miro Teixeira já começam a apregoar, é justamente em momentos de crise que devemos nos agarrar à Constituição Federal de 1988. Diga-se, além de seu guardião por lei, o Supremo Tribunal Federal, deveria partir de nós mesmos, primeiro como indivíduos e depois como sociedade, o rechaço deste que, enfim, é um golpe para ninguém botar defeito.

Se a CF não pode ser modificada? É claro que sim. Se pode ser melhorada? Ora essa, mas é óbvio. Se devemos nos prender a leis bizantinas que se mostrem contraproducentes e atrapalham o melhor funcionamento do país? De jeito algum.

Porém nunca desta forma. Não de maneira casuísta. Jamais abrindo uma porta tão perigosa, capaz de nos catapultar para o sinistro universo dos referendos e das constituintes.

Por fim, de fato, o momento é crítico, entretanto, não podemos deixar de reconhecer as ótimas notícias da noite passada, além do calvário político de Michel Temer e Aécio Neves: diferentemente do que muitos gostam de apregoar, nossa mídia está longe de ser golpista, e nossas instituições, mais uma vez com destaque para o Ministério Público e a Polícia Federal, funcionam com absoluta independência.

Vale a reflexão, se a Lava-Jato é uma realidade, se nunca existiu um xeque-mate tão ajustado para cima de políticos e poderosos, a quem interessa jogar o tabuleiro para o alto? Quem ganha com esse discurso que busca, acima de tudo, zerar o contador? A quem interessa, indo direto ao ponto, essa conversa de “Diretas Já!”?

O afã provocado pelos acontecimentos é totalmente compreensível, mas respeitar a Constituição está longe de ser apenas a nossa melhor opção.

É a única.