Silêncio constrangedor

Silêncio constrangedor

Está claro que ninguém deve ser obrigado a opinar sobre política ou a vestir a carapuça do militante oportunista. O problema é que foi justamente essa a opção adotada por grande parte dos nossos artistas mais incensados.

Mario Vitor Rodrigues

23 Julho 2017 | 10h35

 

Universidade de Brasília, auditório Darcy Ribeiro, maio de 2013. Nicolás Maduro recebe líderes de partidos e movimentos sociais em apoio ao seu governo e à dita Revolução Bolivariana. Disputado, o beija-mão conta com a presença de figuras proeminentes da esquerda brasileira, dentre as quais Luciana Genro, Randolfe Rodrigues, Ivan Valente e Chico Alencar, todos do PSOL. Além de João Pedro Stédile, pelo MST, e alguns representantes da UNE.

Manágua, julho de 2017. Em resolução final, o Foro de São Paulo (fundado por Lula e Fidel Castro em 1990) defende o regime comandado pelo ditador venezuelano, sugere uma nova Constituição e garante que a revolução é vítima de ataques por parte “do imperialismo e seus lacaios”. Gleisi Hoffmann chega a discursar, demonstrando solidariedade “frente à violenta ofensiva da direita contra o governo da Venezuela”. PT, PCdoB e PDT endossam o texto derradeiro.

Compreendido entre os dois momentos, o saldo fala por si: mais de cem mortos e exatos 114 presos políticos, além de inúmeras arbitrariedades. Uma escalada de violência e autoritarismo tão ultrajante que provocou o aumento das pressões diplomáticas mundo afora, mas ainda é insuficiente para sensibilizar a nossa classe artística e os chamados intelectuais.

Está claro que ninguém deve ser obrigado a opinar sobre política ou a vestir a carapuça do militante oportunista. O problema é que foi justamente essa a opção adotada por grande parte dos nossos artistas mais incensados. Há tempos que não faltam posicionamentos públicos assertivos sobre o assunto, repletos de termos como “democracia” e “legitimidade”.

Além do que, convenhamos, quando precisamente as vacas premiadas, eleitas como o seu apoio, decidem aplaudir ditaduras assassinas, já não é possível usar a fartura de conflitos internacionais como argumento para eximir-se da responsabilidade.

O ideal seria um pronunciamento público. Via redes sociais já estaria ótimo. Só não vale se contentar com os sermões ministrados pelos vários Freixos e Molons, comuns nesses convescotes bolados para “pensar o país” que frequentemente ocorrem nas áreas nobres de Rio e São Paulo.

Em qualquer sociedade, a influência de pessoas públicas é algo comum. Para o bem e para o mal. No nosso caso, contudo, cabe lamentar a pouca diversidade de pensamento e a falta de coragem para se posicionar sobre o que é certo.