Temer sendo Temer

Temer sendo Temer

Seja como for, uma pergunta se impõe: como é possível nutrir tamanho desapego por alguém que em duas ocasiões seguidas foi escolhido para ser o primeiro na linha sucessória do cargo político mais importante do país?

Mario Vitor Rodrigues

08 Março 2017 | 12h03

 

Foto: ANDRÉ DUSEK/ESTADÃO

Foto: ANDRÉ DUSEK/ESTADÃO

 

Minha terra tem calheiros onde cantam os jucás, sapeca logo em sua primeira postagem o satírico perfil “Michel Temer poeta”, no Twitter. A conta é um deboche só – e as boas sacadas não param por aí –, mas sua simples existência desnuda certa ingenuidade generalizada em relação ao atual presidente. Até mesmo uma conveniente amnésia, dependendo do freguês.

Seja como for, uma pergunta se impõe: como é possível nutrir tamanho desapego por alguém que em duas ocasiões seguidas foi escolhido para ser o primeiro na linha sucessória do cargo político mais importante do país?

Alegar ignorância não vale. Com quase 40 anos de vida pública, eleito deputado estadual e federal, além de ter presidido a Câmara dos Deputados em duas ocasiões antes das eleições para os cargos de vice-presidente, Temer não é exatamente o que se pode chamar de novidade.

Tampouco a sua turma, o PMDB, corre o risco de passar despercebida quando observamos a cena política. Muito pelo contrário, trata-se da maior legenda, uma das mais antigas, influente há décadas na vida do brasileiro e com predileção pelo papel de eminência parda em Brasília.

Quem o diz é a lógica, mas talvez foi por coincidência que milhões de brasileiros não suspeitassem de nada quando ambos, então base de apoio e parceiro de chapa, eram fundamentais para garantir a continuidade do projeto de poder petista. Isso mudou, entretanto, desde o momento em que a mitologia do golpe precisou de um rosto.

A crise econômica e a operação Lava Jato também ajudam na hora de alavancar críticas contra Temer. É claro que a maior recessão em nossa história foi gerada durante as gestões petistas, mas é impossível evitar que respingue no governo atual. Idem para o desgaste provocado por indícios e vazamentos vários decorrentes da operação Lava Jato.

Está tudo certo, é de fato vergonhoso constatar que o governo federal está afundado em tramoias e casos de corrupção. Assim como é legítimo e acima de tudo necessário criticar o presidente. Seja ele quem for. Político algum pode ser idolatrado, encarado pelo povo como um popstar.

Ainda assim, alto lá com os oportunistas interessados em reescrever a história para colher frutos ou diminuir prejuízos.

Digo: por mais repugnante que seja, a viscosidade de Romero Jucá não provocou o mesmo alarido quando ele era líder do governo no Senado, durante as gestões Lula e Dilma.

Por mais suspeitos que possam parecer os laços entre Alexandre de Moraes e o Executivo, não me lembro dessa mesma massa que hoje rejeita sua nomeação criticando aquela de Dias Toffoli.

Ora essa, nem mesmo com o descortinar do mensalão o pessoal que hoje esbraveja pegou pesado com Luiz Inácio. Na verdade deram um prêmio ao sujeito, reelegendo-o presidente.

O grande problema é que Temer, assim como Renan Calheiros, Lula e grande elenco, sabe jogar muito bem um jogo ainda pouco compreensível por todos nós. Jogo este que, com todas as suas artimanhas, e mesmo sendo fundamental para nossa própria existência, não fazemos nada para interromper.

No fundo, quando elegemos esse pessoal, sem nem ao menos contestarmos o voto obrigatório ou exigirmos uma ampla reforma política, até nossa indignação, justíssima indignação, perde um pouco o sentido.

A verdade é que Temer continua sendo Temer. Nenhum deles mudou.

E nós também não.