Um cemitério de narrativas

Um cemitério de narrativas

Alvíssaras! Os dias do rolo compressor se foram e já não há quem possa exigir para si o monopólio da moralidade.

Mario Vitor Rodrigues

10 Setembro 2017 | 09h43

Foto: Dida Sampaio/Estadão

 

Kathmandu, junho de 2015. O ambiente ao meu redor em nada se parecia com aquele nas avenidas Atlântica e Paulista, onde o impeachment de Dilma Rousseff começava a ganhar corpo: mesas baixas, almofadas coloridas e luz de velas, com direito a uma suave música instrumental que ditava a quietude no salão. Encontrar opções mais agitadas em Thamel não seria difícil, o bairro é famoso pela noite agitada, entretanto eu precisava de tranquilidade para escrever um artigo onde defenderia a permanência da presidente.

A minha teoria era elementar. Após anos violando o país, não somente através de saques aos cofres públicos, mas também aparelhando o Estado e incentivando uma divisão nunca antes vista em nossa sociedade, seria uma dádiva para o petismo sair de cena como mártir. Quem assumisse o poder dificilmente seria capaz de reverter o estrago herdado e, desta forma, ainda por cima ungido pela narrativa do golpe, o Partido dos Trabalhadores teria boas chances de voltar à baila.


O artigo foi publicado poucos meses antes de o TCU denunciar as pedaladas fiscais, fazendo com que o afastamento de Wanda extrapolasse o oportunismo político para se tornar um imperativo moral.

As previsões acabaram se confirmando, Lula e o PT de fato buscaram refúgio sob a capa do vitimismo para tentar trucar a próxima eleição. Apenas não estavam preparados para a competência da Lava Jato, que a Força Tarefa estivesse atenta aos seus movimentos escusos – como na tentativa de obstrução de Justiça por parte de Dilma ao nomear ministro o próprio Luiz Inácio -, tampouco para delações devastadoras de grão mestres como Antônio Palocci.

Nem eles, nem eu.

Verdade seja dita, nunca ficou tão claro o real benefício trazido pelo segundo processo de impeachment bem sucedido na história da República quanto nas últimas semanas: mais do que ver o país livre de uma sujeita corrupta e incapaz de fazer sentido, um cemitério de narrativas. E a impossibilidade por parte da esquerda em continuar manipulando a realidade.

Pois sim, durante anos consolidou-se a imagem de uma Dilma Rousseff competente e honesta. Assim como Lula amealhou a fama de alguém comprometido em tirar o povo da miséria, nem que para isso fosse preciso enfrentar uma elite poderosa e convenientemente caucasiana. E, é claro, talvez a maior fábula de todas, a de que o PT fosse um partido comprometido com os bons costumes, o único caminho possível para desfazer a tradicional balbúrdia ética na cena política.

Alvíssaras! Os dias do rolo compressor se foram e já não há quem possa exigir para si o monopólio da moralidade.

A lamentar, somente que tenha durado tanto tempo.