Um pullover cada vez menor

Um pullover cada vez menor

Mario Vitor Rodrigues

01 Março 2017 | 09h39

foto: Felipe Rau/Estadão

 

Assumindo o risco de exagerar na obviedade, mas à guisa de introduzir o assunto, vale salientar: cidadão algum, a caminho do trabalho, espera por um encontro fortuito com o prefeito da sua cidade. Nem ao despertar, durante aquele lusco-fusco temporal entre o sonho e a lucidez, imaginamos topar com o mandatário do município em um prosaico ponto de ônibus.

Idem para o presidente da república, diga-se. Seja ele quem for, dificilmente cogitamos surpreendê-lo pelas esquinas ou em nosso local de trabalho. Ainda por cima se o endereço deste for uma plataforma petrolífera na bacia de Campos.

No fundo, noves fora a visibilidade, ações desse tipo raramente provocam o clamor desejado. Bem ao contrário, na maioria das vezes são estratégias tão explícitas – praticadas desde sempre por titulares e aspirantes a cargos públicos mundo afora –, que nossa reação inicial pende para o bocejo.

A menos, é claro, nos casos em que a razoabilidade cede espaço para a paixão política.

Durante as últimas semanas, por exemplo, João Doria tem colecionado críticas por seus argutos movimentos de advertising e credit claiming, como os acadêmicos de ciência política costumam dizer lá fora. Em português claro, nem todos aprovam sua habilidade em vender as próprias imagem e gestão. E pouco importa se fizeram vista grossa quando Fernando Haddad e Lula protagonizaram fanfarras no mesmíssimo sentido. Sem constrangimentos.

Convenhamos, no que depender do vigor demonstrado pelo novo prefeito paulista até aqui, com direito a uma notória sanha por reuniões matutinas e em acompanhar de perto cada iniciativa adotada, não faltarão motivos a seus antagonistas para torcer o nariz. E não apenas a esses, mas também a seus aliados e a classe política em geral.

Digo, para desespero de Geraldo Alckmin e Marina Silva – esta última que há tempos busca apresentar-se como alternativa ao sistema, apesar de militar no próprio há mais de três décadas – já começam a pulular pesquisas indicando sua aprovação. Inclusive em âmbito nacional, sepultando de vez  picuinhas que apenas servem para avacalhar o discurso da própria oposição, como a cruzada contra o estereótipo do “coxinha”.

Particularmente, como carioca apaixonado por São Paulo que sou, torço para que a cidade tenha a melhor administração possível, mas, independente disso, não parece restar dúvida quanto ao recado dado por seus cidadãos na hora do voto: a repulsa pela figura do político habitual. O desafogo de uma sensação encruada, cada vez mais palpável, de que eles-são-todos-iguais. Uma premissa que, logo de saída, disponibiliza o benefício da dúvida para quem minimamente representar uma mudança de rumos.

Em tempos tão bicudos, não é lá muito prudente tecer elogios ou ficar otimista com este ou aquele gestor público, porém, desde já, ao que tudo indica, Doria vai conseguindo expandir seu cacife eleitoral junto ao cidadão paulistano. Resta aguardar para ver se, com o passar do tempo, o Brasil seguirá o filão.

Ironia das ironias, o mesmo ceticismo que arrefece a esperança é também responsável pela sua presença.