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60% dos bipolares passam por problemas com drogas

Claudia Belfort

11 fevereiro 2010 | 22:50

Sempre que escrevo um post ou publico um relato no Vozes sobre transtorno bipolar os leitores se envolvem num grande debate. Há comentários de solidariedade, troca de experiências e embates de opiniões que só enriquecem o Sinapses.

Quando se trata de sexo e drogas então o espaço para comentários torna-se uma arena de ideias.  O relato da leitora Roberta é um exemplo. Surgiram tantas certezas sobre a impulsividade, uso de drogas e excesso de sexualidade no transtorno bipolar que pedi ao Dr Teng Chei Tung, médico Psiquiatra supervisor do IPQ-Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo um breve texto para tentar esclarecer algumas dúvidas e polêmicas que percebi nos mais de 100 comentários sobre aquele post.

O texto está logo abaixo, mas antes quero pedir um socorro. Baseada também nessa polêmica, pensei em criar mais uma seção no Sinapses,  “Opinião do especialista” ou  “Fala do doutor”,  ainda não escolhi o nome e pergunto se poderiam me ajudar apontando um desses dois ou sugerindo outro. O espaço seria dedicado a publicar pequenos textos de médicos, pesquisadores, psicólogos sobre os temas que tratamos no blog.  É só sugerir nos “comentários”.

Agora, ao texto do Dr. Teng

Bipolar: bebidas, drogas e sexo irresponsável, uma opinião de especialista

Dr Teng Chei Tung

O transtorno bipolar do humor (TBH) é uma doença complexa, com múltiplas funções psíquicas e físicas que ficam instáveis, prejudicando os pacientes e suas famílias tanto nos aspectos de saúde, como na adaptação profissional e social, podendo até matar por suicídio, acidentes e má saúde geral. Não é representado apenas por mudanças de humor, como alegrias e tristezas exageradas, afetam também o ritmo biológico (sono), o metabolismo (mudanças no apetite), a energia física (cansaço ou hiperatividade), ou mesmo a capacidade de pensar. Entretanto, uma das características mais comuns do TBH e que causam os maiores prejuízos é a impulsividade, na forma de atitudes impensadas e comportamentos descontrolados, muitas vezes relacionadas com prazer, como comida, compras, sexo e drogas.

Os pacientes não conseguem se controlar, portanto não têm culpa de serem impulsivos, a culpa é da doença, mas as conseqüências são terríveis, desde a vergonha de ser promíscuo sexualmente e pegar uma doença, ou de ser compulsivo por comida ou compras, ou na pior das situações, entrar nos vícios das drogas como o álcool, maconha, cocaína e outros. O curioso é que a impulsividade varia de paciente para paciente, alguns tem excessos em tudo, outros em apenas uma esfera (por exemplo, só se descontrolam nas compras). O descontrole na sexualidade não é tão comum, e nem sempre o excesso de sexualidade se traduz em promiscuidade, alguns pacientes ou se masturbam com freqüência, ou procuram pornografia, ou procuram o seu parceiro várias vezes ao dia. Os excessos sexuais e os excessos nas compras geralmente melhoram bem e rápido com as medicações, o mesmo não ocorrendo com as drogas e o álcool. Por serem drogas, eles acabam criando um segundo problema, a dependência, que precisará de um tratamento específico e mais complicado. Cerca de 60% dos pacientes bipolares passam por problemas com drogas.

E o que os familiares, amigos e colegas costumam fazer diante de um paciente impulsivo? Aconselhar, o que quase sempre não dá certo, e depois criticar, como se a falta de controle fosse uma responsabilidade do paciente. Neste caso, o mais importante seria tentar ajudar o paciente a aceitar ajuda profissional adequada, desmistificando a doença mental como algo vergonhoso e estigmatizante, e ajudá-lo a continuar no tratamento, que é muito difícil e longo, com muitas tentativas, trocas de medicações e recaídas. Um ponto importantíssimo em relação ao tratamento: as medicações são a forma mais poderosa, eficaz e segura de controlar o TBH. Tratamentos alternativos e religiosidade podem ajudar, mas nunca substituem um tratamento cientificamente comprovado.

Dr Teng Chei Tung, também é autor do livro Enigma Bipolar, consequências, diagnóstico e tratamento do transtorno bipolar, da MG Editores.

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As informações divulgadas neste blog não substituem aconselhamento profissional. Antes de tomar qualquer decisão, procure um médico.