Cinco poemas sobre a perda

Cinco poemas sobre a perda

Claudia Belfort

19 Agosto 2013 | 15h03

Um amigo publicou no seu mural no Facebook sobre a dor de perder,  eu gostaria tanto de lhe dizer algo definitivo sobre isso, algo que sobrasse, mas há algumas perdas que sobram em nós, capazes de fazer gigantesca sombra e que ficamos impedidos até de nos vermos. Perder é quando algo que deixou de existir ainda é, é uma dor de desmerecimento, de desamparo sobre a qual muita gente escreveu, ninguém foi definitivo, não é possível. Então separei cinco poemas de cinco autores sobre perda e a dor que ela traz.

 Ausência

Hei de edificar a vasta vida

que mesmo agora é teu espelho:


toda manhã hei de reconstruí-la.

Desde que te afastaste,

tantos lugares se tornaram inúteis

e sem sentido, como

luzes no dia.

Tardes que foram nicho de tua imagem,

músicas em que sempre me esperavas,

palavras daquele tempo,

eu terei de quebrá-las com minhas mãos.

Em que profundezas esconderei minha alma

para que não enxergue tua ausência

que como um sol terrível, sem ocaso,

brilha definitiva e impiedosa?

Tua ausência me cerca

como a corda o pescoço.

O mar em que naufraga.

Jorge Luís Borges – Primeira Poesia

 

Foto: Claudia Belfort

 

***

Tive uma joia nos meus dedos –

E adormeci –

Quente era o dia, tédios os ventos –

“É minha” , eu disse –

 

Acordo e os meus honestos dedos

(Foi-se a gema) censuro –

Uma saudade de ametista

É o que eu possuo –

 Emily Dickinson – Não  sou ninguém

***

O amor nos conhece

E as ruínas nos assombram

Como nadar na noite tão dura

 

Radovan Ivsic – Poesia Reunida

***

Na solidão das noites úmidas


Como tenho pensado em ti na solidão das noites úmidas,

De névoa úmida,

Na areia úmida!

Eu te sabia assim também, assim olhando a mesma cousa

No ermo da noite que repousa.

E era como se a vida,

Mansa, pousasse as mãos sobre a minha ferida…

 

Mas, ah! como eu sentia

A falta de teu ser de volúpia e tristeza!

O mar… Onde se via o movimento da água,

Era como se a ádua estremecesse em mil sorrisos.

Como uma carne de mulher sob a carícia.

O luar era um afago tão suave,

– Tão imaterial

-E ao mesmo tempo tão voluptuoso e tão grave!

O luar era a minha inefável carícia:

A água era teu corpo a estremecer-se com delícia.

 

Ah! em música, pôr o que eu então sentia!

Unir no espasmo da harmonia

Esses dois ritmos contrastantes:

O frêmito tão perdidamente alegre de amor sob a carícia

E essa grave volúpia da luz branca.

Oh! viver contigo!

Viver contigo todos os instantes…

Harmoniosa e pura,

Sem lastimar a fuga irreparável dos anos,

Dos anos lentos e monótonos que passam,

Esperando sempre que maior ventura

Viesse um dia no beijo infinito da mesma morte…

 Manuel Bandeira –  Estrela da Vida Inteira

 

***

Estás ausente

Mas há no amor como que eterna sobrevivência

É como rosa

Que não se corta

E nem se colhe pela manhã

Estás ausente

Mas este amor

É bem aquele

Feito de destrelas

Que persistiram

Até que o dia se aproximasse

 

Estás ausente

Vivo e perene

Nestes abismos

Do pensamento

Hilda Hilst – Balada de Alzira – Poema VI

 

 

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