Engenheiro revela transtorno psiquiátrico e vê carreira ruir

Engenheiro revela transtorno psiquiátrico e vê carreira ruir

Claudia Belfort

12 Fevereiro 2014 | 21h13

bipolar

(Foto: Vetta collection – Royalty free photos)
Você contrataria alguém com esse currículo? Engenheiro formado pela Unicamp. Inglês fluente, francês e espanhol. Experiência nas áreas de tecnologia e telecomunicações. MBA pelo Ibmec/RJ. Bipolar.”

Claro que ele não acrescenta bipolar no currículo, mas Marcos (nome fictício)  vive a experiência de quem, ao contrário da personagem do post anterior (Você contrataria um executivo com distúrbio mental?), que foi contratada a despeito de sua condição, viu sua carreira ruir após revelar no ambiente de  trabalho que estava sob tratamento psiquiátrico.

“Fui transformado em pária profissional”, sentencia. Não há oportunidades para pessoas como eu. Não há portas abertas, afirma. “Sabe quando eu voltei a trabalhar no meu ramo? Nunca.  A comunidade que trabalha nessa área é razoavelmente pequena, e as pessoas se conhecem e se falam, pois as trocas de emprego são frequentes”, conta.

A comunicadora social, Ângela (nome fictício) passou por algo semelhante, em Brasília. Diagnosticada como bipolar e borderline, ela trabalhava em uma emissora de TV, onde ninguém sabia de sua doença até sofrer um episódio fora do ambiente de trabalho. Mas o fato chegou à empresa e ela acabou sendo desligada. Para sair um pouco de cena, Ângela passou um tempo fora do país, mesmo assim, ao voltar não arrumou mais um trabalho fixo. Num mercado pequeno, onde todos se conhecem, ela é chamada apenas para trabalhos temporários, faz free-lances e cobre férias enquanto sonha em se recolocar e retomar a carreira.


Marcos e Ângela são exemplos do porquê muita gente que porta um distúrbio mental esconde sua condição, gente que sente na pele o que diz Marcos em seu testemunho (leia abaixo): Não há lugares nem pessoas interessadas em “reintegrar” gente com distúrbios mentais.

Leia o testemunho:

Olá Claudia, como vai.

Tenho aproximadamente 40 anos, sou bipolar tipo 1,  estabelecido inclusive em laudo psiquiátrico. Os primeiros sintomas talvez tenham surgido na infância, a doença aflorou de uma forma inicialmente branda e inconstante por volta dos 18 ou 19 anos, mas somente aos 35, quando tive um surto extremamente grave e repentino, que quase custou a minha vida, onde doença saiu do controle. Não vou entrar em maiores detalhes pessoais em razão do assunto em questão, embora possa afirmar que nunca me tornei alcóolatra, drogado ou suicida, mas conheci pessoas que não tiveram a mesma sorte.

A despeito da doença, estudei Engenharia, inicialmente na Escola Politécnica da USP, e me graduei pela Unicamp. Isso mesmo, as duas melhores escolas de engenharia do país. Pouco antes da doença sair de controle, concluí um MBA pelo Ibmec/RJ, com média geral 9,5 em 10. Sempre trabalhei no setor de alta tecnologia e telecomunicações. Sempre fui bem pago, nunca me faltou emprego, seis meses antes de estar formado eu já havia sido contratado, com salário e responsabilidades de engenheiro, só não tinha ainda o cargo formal. Também sempre procurei ser um funcionário íntegro e correto (mas não perfeito, porque isso ninguém é), meus avós eram pessoas simples, tendo um deles chegado no Brasil praticamente só com a roupa do corpo, que fizeram grandes esforços e sacrifícios para que meus pais, tios e tias chegassem à universidade, e em duas gerações eu e meu irmão estávamos nas melhores universidades do país, ele inclusive atingiu o grau de Doutor.

Às vezes eu chegava a acreditar que tinha algum problema, mas na maior parte do tempo creditava eventuais flutuações de humor às responsabilidades da vida adulta. Um trabalho que eu gostava mas continha muita pressão e estresse. A vida em São Paulo, Campinas ou Rio. O mestrado. Meu pai que na época lutava contra um câncer. Tinha uma garota, os amigos já tinham começado a fazer apostas de quando eu iria “tombar em combate”. Até que um dia eu sofri um surto ou qualquer outro nome que você queira dar. Então me tornei uma espécie de Rei Midas, onde comigo tudo o que eu tocava virava não ouro, mas areia, e se desmanchava.

Nesta época eu trabalhava numa empresa (que nem existe mais) de escala mundial, na filial do Rio de Janeiro. As pessoas obviamente perceberam que algo estava errado comigo. Meu chefe direto me chamou num canto. Eu abri o jogo para ele e disse que estava em tratamento psiquiátrico, tinhamos um ótimo relacionamento, inclusive uma paixão em comum por colecionar discos de MPB, e por diversas vezes parávamos depois do expediente junto à casa dele, caminho da minha, para tomar uma cerveja bem gelada enquanto ele esperava a esposa chegar da faculdade onde ela lecionava (eles não tinham filhos). Os olhos dele se encheram de lágrimas, ele respirou fundo, ficou um bom tempo em silêncio e me contou que uma irmã tinha cometido suicídio dois meses antes, e praticamente implorou que eu me tratasse. Depois ele chamou o resto da equipe separadamente, sem que eu estivesse presente, e foi taxativo que não iria admitir que alguém me causasse problemas, tendo inclusive repetido a estória da própria irmã.

Mas a chefia acima dele não partilhava da mesma opinião. Deixaram passar uns dois ou três meses, fui colocado de férias e demitido na volta, sob uma alegação genérica qualquer.

Como consequência, sabe quando eu voltei a trabalhar no meu ramo? Nunca. A despeito de toda a educação formal, a minha experiência e capacidade técnica. A comunidade que trabalha nessa área é razoavelmente pequena, e as pessoas se conhecem e se falam, pois as trocas de emprego são frequentes. Quando meu pai estava no final da vida, voltei para minha cidade natal para ajudar a minha mãe a cuidar dele, e hoje administro as coisas da família. Salvo dispositivo em contrário, eu estou “queimado”. Trabalhar numa operadora de telefonia celular, para um engenheiro, é algo como dar uma caixa de “Lego” para uma criança. Mas hoje não voltaria a trabalhar neste meio, as relações interpessoais e o ambiente são altamente tóxicos, vejo uma correlação direta com o fato destas empresas serem campeãs de reclamações nos órgãos de defesa do consumidor.

Consegui preservar uma parte das minhas economias, passei a ocupar o andar superior da casa dos meus pais, que estava vazio. Meu padrão de vida se tornou espartano. Vou escrupulosamente ao psiquiatra em intervalos de aproximadamente 40 dias, faço psicoterapia, levo uma vida autônoma, viajo, uma vez por semana faço um trabalho de caridade. Tomo meus remédios. Acabei de ler o artigo da “Harvard Business Review”, sou fluente em inglês, e também estudei francês e espanhol. Todo dia em que ligo o computador acesso as páginas de O Globo, Folha e Estado, e evetualmente algum jornal estrangeiro.

Mas eu fui transformado em pária profissional. Ninguém nunca me estendeu a mão, nem acredito que isso venha a acontecer.

Não há oportunidades para pessoas como eu. Não há portas abertas. Não há lugares nem pessoas interessadas em “reintegrar” gente com distúrbios mentais. Não há uma “Rede de Hospitais Sarah Kubitschek” para pessoas como nós. Somos material descartável.

Sou absolutamente contra qualquer tipo de cotas, mas hoje temos meia entrada para estudantes de 47 anos de idade com carteira estudantil falsificada, Estatuto da Criança e Adolescente, Estatuto do Idoso, defesa da comunidade LGBT, políticas de ação afirmativa para índios e negros, Minha Casa Minha Vida, Meu Carro Minha Vida, Minha Geladeira Minha Vida, Minha TV Minha Vida, Minha Cafeteira Minha Vida, Minha Privada Minha Vida, Meu Smartphone Minha Vida, políticas mandatórias de contratação de pessoas com deficiências físicas, isenção de imposto de renda para cardiopatas e pacientes oncológicos e por aí vai.

Mas para os portadores de distúrbio mental, só sobrou uma coisa: o preconceito.

Salvo casos bastante graves, como em praticamente qualquer outro tipo de doença, não somos incapazes. Não queremos ser aposentados por invalidez pelo INSS. Só queremos que parem de nos tratar como os leprosos do Século XXI. Não queremos viver no limbo, num purgatório em vida.

E, como conclusão,  esqueçam por um momento dos “pacientes” e pensem no prejuízo puramente financeiro para a sociedade. Será que alguém já fez a conta?

Quanto de renda uma pessoa como eu deixou de auferir nestes últimos anos? Quanto dinheiro eu deixei de redistribuir nas diversas formas de trocas financeiras, no consumo de bens e serviços? Quantos empregos indiretos (ou até mesmo diretos) eu deixei de criar? Quanto eu deixei de recolher em impostos? Quanto dinheiro a sociedade investiu na minha formação e depois jogou no ralo (ou puxou a descarga)? Pode ser um chute, mas se nada de errado tivesse acontecido comigo, hoje eu deveria ter um salário de cinco dígitos. O país está desesperado por mão de obra qualificada, mas descarta impiedosamente qualquer um que não se enquadre nos quesitos(?) de “normalidade”.

O governo federal bem que poderia lançar um novo programa social: a distribuição de “O Alienista”, de Machado de Assis, para toda a população brasileira. Poderia até traduzir a obra e exportá-la para todas as empresas do planeta. Deveria ser leitura obrigatória em todos os MBAs e faculdades de administração, psicologia e medicina do mundo.

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As informações divulgadas neste blog não substituem aconselhamento profissional. Antes de tomar qualquer decisão, procure um médico.