Loucura, doença ou sofrimento psíquico?

Claudia Belfort

16 Novembro 2009 | 12h28

Eu achava que usar palavras mais leves para denominar transtornos psiquiátricos não fazia diferença. Sabe que faz? Quem trabalha com palavras, como os jornalistas,  geralmente quer o termo mais conciso para definir uma situação. Facilita a compreensão e dispensa a tradução em novas palavras o que uma única resume. Mas retratar um fato é diferente de dar um diagnóstico e, da mesma maneira que há pessoas diversas, há reações diversas quando alguém se descobre portador de uma doença mental. Para alguns um termo pode clarear o entendimento de um problema, para outros pode ser motivo de confusão, medo, negação e até rejeição a um tratamento

Além do mais, o uso corrente de uma palavra – como esquizofrenia, atualmente usada também para referir-se a situações contraditórias – acaba dando a ela novos significados, estigmas ou visões equivocadas.  No caso da esquizofrenia, por exemplo, o Japão abandonou o termo em 2002 e adotou a expressão desordem de integração justamente para reduzir o preconceito e melhorar a prática clínica no tratamento do transtorno.

Quem trouxe essa reflexão ao Sinapses foi a cientista social, antropóloga e pesquisadora de saúde mental da Universidade de Brasília (UnB) Priscilla Menezes de Oliveira. No primeiro post que escrevi, ela comentou que a expressão doença mental é carregada de estigmas e que ela sugeria o uso de sofrimento psíquico grave.  Na sua opinião seria “mais fiel ao transtorno e não pressupõe a ideia de uma doença no sentido fisiológico”.  Conversei melhor com Priscilla e levei o tema a psiquiatras. Com maior ou menor intensidade, eles concordaram que, sim, é preciso cuidado com as expressões usadas para categorizar doenças mentais, como também é necessário ampliar a qualidade da informação sobre o tema.

A contribuição que um termo mais leve pode dar a um paciente, no entanto, também depende de seu nível de expressão e socioeconômico, afirma Dr. Luis Felipe de Oliveira Costa, psiquiatra e pesquisador do Albert Einstein e do hospital das Clínicas de São Paulo. “Do ponto de vista biológico não há diferença, mas existe muito preconceito. Por exemplo, a depressão já é aceita, mas quando falamos em bipolaridade a situação complica. O nome está associado à doença maníaco-depressiva e esta à loucura que por sua vez é um termo pesado que remete a uma psiquiatria do passado, quando não havia terapêutica”, explica. Costa também acredita que a denominação é importante, mas a melhor forma de fazer uma aproximação com o paciente é ser claro. “Expor com clareza a doença traz mais benefício que malefício. Não são os termos apenas que levam à adesão a um tratamento, mas a informação”.

Resolvi abrir mais o debate no blog e enviei por email três perguntas para a cientista social Priscilla e para o Dr. André Brunoni psiquiatra do Hospital das Clínicas de São Paulo a fim de confrontar as opiniões de um profissional da área médica e outro da área das ciências sociais. Abaixo, o que cada um pensa sobre o tema.

Em que uma denominação mais leve pode contribuir para a melhora do paciente?

Priscilla Menezes de Oliveira  – A denominação mais comum para o indivíduo com esses transtornos nos remete diretamente a pré-conceitos e consequentemente ao estigma. A expressão “doente mental” já está carregada de um sentido depreciativo tanto em relação ao transtorno quanto ao indivíduo. A partir do momento que se modifica a nomenclatura lhe retirando todo estigma incrustado, humaniza-se o cuidado com o indivíduo na dimensão do seu sofrimento.

 Dr. André Brunoni – A nomenclatura de um transtorno psiquiátrico para uma forma mais neutra pode diminuir o estigma associado ao nome o que permite que familiares e pacientes se refiram a sua condição clínica de forma mais aberta e menos estigmatizada. Mesmo entre os médicos, principalmente não-psiquiatras, a denominação mais leve pode ajudar,  pois facilita o raciocínio clínico, por exemplo, ao usar a sinonímia “transtorno bipolar de humor” ao invés de “psicose maníaco-depressiva” médicos não psiquiatras podem perceber que tal doença não ocorre apenas em estados psicóticos, extremos, e sim ao longo de dois polos. É nesta linha que vai a proposta do psiquiatra Jim Van Os, da universidade de Maastricht na Holanda, quando ele defende trocar o termo “esquizofrenia” para “síndrome da desregulação da saliência” – um termo mais técnico e menos estigmatizante. Vale lembrar que a troca de termos médicos não ocorre apenas na psiquiatria, alguns termos antigos e pejorativos como “débil mental” ou “mongolismo” foram renomeados para “deficiência mental” e “Síndrome de Down”, respectivamente.

A mudança de nome, se por um lado pode aliviar a carga psicológica sobre o paciente, também não pode desorientar portadores e sociedade sobre a gravidade do problema?

Priscilla Menezes de Oliveira – A mudança de nome deve vir juntamente com uma transformação do pensamento em um âmbito social. A terapia comunitária representa um importante avanço nesse sentido. É necessário expandir a informação sobre esses transtornos psíquicos. A falta de conhecimento se encontra hoje na forma como os indivíduos são atendidos e tratados e na forma como o transtorno é abordado. É preciso humanizar o transtorno, assim como expandir a informação ao público em geral. Tirar o sofrimento apenas do âmbito médico e analisá-lo também como um problema familiar e social.

Dr. André Brunoni – Em parte sim; contudo isto dependerá, na verdade, da capacidade dos médicos em transmitirem os dados necessários para a compreensão da doença pela sociedade. Se os profissionais informarem de uma maneira correta, explicando o prognóstico da doença, não haverá desorientação.

 Em que medida a adoção de novas terminologias pode auxiliar ou prejudicar na adesão ao tratamento?

Priscilla Menezes de Oliveira – A adesão ao tratamento deve ocorrer em paralelo a um trabalho de compreensão do transtorno, tanto do indivíduo como de sua família. Muitas vezes o diagnóstico é feito sem que haja uma explicação do que de fato significa tal expressão. A partir do momento que o indivíduo passa a entender seu transtorno, ocorre também uma melhor aceitação de sua condição. Eliminar o estigma, que hoje se encontra tão presente, de todo esse processo de aceitação e compreensão  é dar um passo a frente no tratamento desse sofrimento.

 Dr. André Brunoni – É claro que trocar o nome de “esquizofrenia” para a “síndrome da desregulação  da saliência”  não altera per se o transtorno. Porém, na medida em que a comunicação pode ser mais aberta com a diminuição do preconceito, o diálogo entre o médico e o paciente é facilitado, melhorando a aderência ao tratamento. Contudo, a mudança isolada de terminologia sem um incremento na comunicação e no diálogo será de pouca valia.