Minha 1a. vez foi há 30 anos

Claudia Belfort

03 Novembro 2009 | 05h54

O homem em seus 50 anos chegou de táxi no sítio onde moravam a mãe, a irmã, o cunhado e três sobrinhas por volta das 19h. Naquelas bandas do continente a noite já ia densa e eram raros os táxis que se dispunham a levar passageiros ao lugarejo. Estava magérrimo e a pele encolhida sobre os ossos acentuava sua cor sertaneja. Tremia, chorava, fumava e dizia não suportar mais os ratos que noite após noite vinham roer-lhe os dedos dos pés. Ele fugira do manicômio (ainda não se falava em clínicas psiquiátricas) onde fora internado oito semanas antes.

A mãe olhou para aqueles pés sujos e inquietos e viu que estavam intactos. Tocou então as netas para o quarto, aninhou o filho e acomodou-o em sua casa por cinco meses, quando ele se mostrou estável e voltou à própria família. Pouco mais de duas semanas depois, ele trancou-se no quarto aos gritos e delirante. Via a esposa com uma faca em punho ameaçando matá-lo. Urrou, entrou em pânico e se matou.

Esse foi o primeiro contato que tive com portadores de transtornos psiquiátricos. Faz 30 anos.

Desde então o tratamento e o diagnóstico de transtornos afetivos e de outras doenças mentais evoluiu muito. Os remédios são mais precisos e os efeitos colaterais menos agressivos. O tema já aparece com certa frequência na imprensa e recentemente até em novelas. Um aspecto, porém, não mudou: o tabu. É raro alguém se declarar portador de um transtorno mental. Você já teve conhecimento de um empresário, um cirurgião, um político assumir ser portador de algum transtorno dessa natureza? Se você conhecer, por favor, quero entrevistá-lo. A revelação da doença nessas pessoas geralmente só vem à tona depois que elas morrem ou quando abandonam a carreira e relatam sua condição numa biografia.

Mas o cérebro, assim como o fígado, o estômago, o intestino, também adoece. Medicada, uma pessoa que tem diabetes leva uma vida normal, trabalha faz esportes e namora. O mesmo se passa com quem têm úlcera, labirintite, transtorno bipolar, depressão.

Se o tabu persistir, em pouco mais de 10 anos, viveremos a inacreditável situação de não conseguirmos encarar uma doença como a depressão, por exemplo, que será, segundo relatório da Organização Mundial de Saúde, a segunda mais comum no mundo, devendo atingir o primeiro lugar no ranking em 2030. Ela também será a maior responsável por mortes prematuras e anos produtivos perdidos dado seu potencial incapacitante.

O propósito deste blog é reunir informações, artigos, testemunhos sobre os transtornos psiquiátricos que acometem tanta gente que está bem do nosso lado.  E se você leitor puder colaborar, essa pode ser uma boa experiência. Informação pode ajudar a muita gente.

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