O amor não é suficiente

Claudia Belfort

12 Novembro 2009 | 14h43

“Fiz de tudo para estar ao seu lado. No fim, até ia com ele aos treinamentos. Quando ele estava muito depressivo, eram tempos difíceis. Achava que com amor podíamos superar tudo. Não foi suficiente”. O desabafo feito entre lágrimas é de Teresa, viúva de Robert Enke, 32 anos, goleiro do Hannover e da seleção alemã de futebol que se suicidou esta semana, após seis anos de luta contra a depressão.

Enke mantinha seu transtorno em segredo. Temia perder a guarda da filha de 8 meses que o casal adotara – a filha biológica de ambos morreu aos 2 anos vítima de uma doença cardíaca em 2006 –  e o tabu contra a doença que, nas palavras do seu treinador, Joerg Sievers, é vista como sinal de fraqueza no meio esportivo.

A frase emocionante da esposa do jogador me fez pensar sobre o papel do amor na depressão.  Sua presença ajuda na cura? Sua perda levaria à depressao?  Enke viveu as duas situações. Não se pode afirmar que a morte da filha tenha agravado a doença, só a família e seu médico sabem como reagiu à perda. Já a declaração dolorida e frustrada de Teresa revela que ele recebeu muito amor, mesmo assim não resistiu.

Mas será que demonstrações de amor não fazem diferença em casos como esse?

Fazem apenas como fator coadjuvante,  explicou a doutora em psiquiatria forense  e coordenadora do Departamento de Ética e Psiquiatria Legal da Associação Brasileira de Psiquiatria, Hilda  Morana. “A depressão é uma doença e precisa ser tratada com medicação, o amor ajuda na recuperação, não substitui o tratamento”, afirma. O carinho de um parente ou companheiro, no entanto, torna mais confortável a recuperação, mas isso, como alerta Hilda, é comum a todas as doenças.

Idiossincrático o papel do amor, sozinho não pode curar, sozinha, sua quebra pode desencadear a doença. “Não será a causa da depressão”, atesta Hilda. Uma perda, uma separação, me explicou, têm a capacidade de abrir as portas para uma desregulação no cérebro se manifestar. Essa conclusão também está em Luto e Melancolia, de Freud (comentei sobre esse livro há alguns dias) : ” …o luto de um modo geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante. Em algumas pessoas essas mesmas influências produzem melancolia em vez de lutos, por conseguinte, suspeitamos de que essas pessoas possuem uma disposição patológica…”

O ditado  “o amor cura tudo” nem sempre é válido.