O segredo dos olhos do Zenit

O segredo dos olhos do Zenit

Claudia Belfort

24 Dezembro 2012 | 14h39

Pode o preconceito se sobrepor à paixão? Essa foi a primeira questão que me veio quando li sobre o pedido da torcida organizada do Zenit, atual campeão do futebol russo para que a equipe tenha apenas jogadores brancos e heterossexuais. Apenas para lembrar lá joga o brasileiro Hulk.

Lembro bem de uma cena do filme O Segredo dos seus olhos, quando o personagem Sandoval pergunta ao detetive Benjamim “Qual a única coisa que não muda em uma pessoa? Não se muda de paixão”, ele mesmo responde. E assim Benjamin desvenda o paradeiro do assassino, sabendo que ele era fanático pelo Racing, o detetive vai a uma partida do time contra o Huracán, em Buenos Aires, lá se depara com o autor do terrível crime, que seguiu sua paixão, mesmo sob a ameaça de ser encontrado.
Nesse caso a paixão se sobrepôs até a liberdade. Difícil entender por que esse sentimento que cega os apaixonados pode ser lesionado por diferenças.  A torcida até tentou  se explicar, como se houvesse explicação, mas só piorou. Disse em nota que o pedido nada tem a ver com racismo “Para nós, a ausência de jogadores negros no Zenit é só uma tradição importante, que realça a identidade do time e nada mais.

Ôpa, achei uma pista da coisa: identidade. Sou eu que estou lá, aquele negro artilheiro também sou eu, aquele lateral gay também sou eu. Vivo por eles, morro por eles, canto por eles, beijamos o mesmo brasão. No fundo no fundo eu me identifico com eles, na paixão, no time, no desempenho, na alegria, na tristeza. Então negros e gays saiam da minha minha frente que não quero que ninguém saiba que fazemos parte da mesma paixão, não quero que ninguém perceba que sou igual a você e que morro de medo disso.

Para terminar,  uma dúvida que me atormenta:  como a torcida do Zenit vai verificar se um jogador é hetero ou não?

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