Quantas vezes você entrou na Matilde hoje?

Quantas vezes você entrou na Matilde hoje?

Claudia Belfort

22 Dezembro 2012 | 21h30

– Veio com alguém?

– Eu vim com Matilde

Essa era a senha para um garoto, doravante chamado Idiota (era como eu me referia a ele), desfilar um corolário de piadinhas sexistas e fazer dobrar de rir muitos de seus companheiros de mesa. Quantas vezes entrou na Matilde hoje? Como vão os faróis da Matilde? E a ré? Os meninos desabavam em gargalhadas.

Matilde era um Santa Matilde, o SM 4.1, um carro esportivo nacional, objeto de desejo nos anos 1980,  não durou muito, mas tem um monte de fãs até hoje. O do rapaz em questão era amarelo. Amarelo gema.  Minha cor preferida é azul… Não sei se achava o carro o fim do mundo que não acabou porque era amarelo, e gema, ou pelo dono.

O Idiota se referia ao carro como se fosse uma mulher,  limpinha, sempre cheirosa, faróis no lugar, um porta-mala que era uma coisa, rapaz, e o arranque enlouquecedor? A tal Matilde, nem precisa ser psicanalista para concluir, era a garota linda, loira, gostosa, malabarista na cama, e com quem ele, obviamente, não transava (na época se usava transar). O rapaz tinha uns 19 anos então, era amigo do amigo, nunca ficava com ninguém e sempre chegava e saía sozinho do bar, ou melhor com sua Santa Matilde.

O que me deixava morta de raiva era como ele podia comparar uma garota a um carro, como ele transformava o corpo dela em farol, escapamento, arranque. Ele coisificava a mulher (na época eu não pensava em coisificação, era só putice mesmo) e os meninos achavam graça. O duro é que passados 30 anos, agora sabendo o que é coisificação, ainda sobram motivos, em maior ou em elevadíssimos graus, que me fazem sentir até pior que no barzinho da adolescência.  Seja no Brasil, no Afeganistão, na Espanha, na Somália, em algumas igrejas, em empresas ainda há um caminho longo até a mulher ser reconhecida como ser humano, até poder exercer plenamente o simples direito de existir. E é sobre isso que vou falar aqui. Na verdade vou mais tentar mostrar o que se passa e dar uma opinião aqui e acolá do que escrever tratados.

Acontece que eu gosto também de outros assuntos. Filosofia, poesia, comportamento, redes sociais, música, já tive um blog sobre transtornos psiquiátricos. Então esse blog vai tratar de gênero e de vez em quando do filme que eu achar legal, como Infância Clandestina (outro dia falo dele), ou de uma exposição na Pinacoteca. Talvez isso o faça durar mais. Não gosto de rotinas e abandono o que começa a ficar maçante, então se você decidir me acompanhar nesse samba, eu vou adorar, mas alerto que posso ir embora a qualquer momento.

Não achei uma foto legal de um Santa Matilde amarelo, então publico esse branco