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A quem interessa a doutrinação do ‘Escola Sem Partido’?

Da redação

30 Junho 2016 | 15h23

Leonardo Dallacqua de Carvalho*

Quando este tema é chamado à baila, lembro do artigo do professor Christian Laville intitulado ‘A guerra das Narrativas‘, publicado na prestigiosa Revista Brasileira de História. Em síntese, o referido trabalho é um estudo realizado por Laville que demonstra como a narrativa histórica pode ser apropriada e (re)modelada segundo interesses específicos. No Japão, por exemplo, o autor cita a obrigatoriedade de uma certa ‘eufemização’ de alguns conceitos da história política daquele país para a construção de uma imagem positiva. Assim, quando o professor for explicar a invasão da China pelo Japão na década de 1930, ele deve utilizar o termo ‘progressão militar’, pois é mais suave que o termo ‘invasão’.
Uma ‘Guerra das Narrativas’ está presente na política dos Estados, ora como uma Guerra Fria, intramuros das produções intelectuais, dos manuais e das reformas curriculares, ora como Guerra Campal, desnudada perante a sociedade. Todavia, o combate nunca deixou de ser travado. Com as propostas do ‘Escola Sem Partido‘, vivemos a Guerra Campal das narrativas. Travestida de uma suposta ‘democratização’ do ensino, tais propostas visam impor um modelo que opere como censura da liberdade de pensamento e como forma proibitiva de dissertar a respeito de alguns temas, principalmente aqueles de cunho ideológico considerados de esquerda. Se na ditadura militar a censura vinha acompanhada do famigerado fardamento verde, agora, ela veste a roupagem dos ‘cidadãos preocupados’. Esta censura faz parte de um projeto nebuloso de nação preocupada em impor uma narrativa histórica hegemônica de Brasil, seja ela no ofício de historiadores ou nos níveis de educação da população.
O ‘Escola Sem Partido‘ é uma reação de grupos que buscam neutralizar qualquer discussão social, plural e de contextualização histórica pensada na contestação da organização social/econômica hierárquica da sociedade brasileira. Sua falsa neutralidade não clama pela ‘ausência de ideologias’, mas pela imposição da sua ideologia como dominante, confeccionando um tipo de discurso padronizado. Basta entrar em qualquer sala de aula do País para compreender a falseabilidade da predominância de uma doutrinação de esquerda. Pergunte a uma classe do último ano do ensino médio quantos ali se denominam ‘esquerdistas’. Aliás, basta frequentar uma sala de professores para notar como o pensamento vem sofrendo uma guinada à direita nas últimas décadas. Mais ainda, o que se percebe, em algumas partes, é uma juventude seduzida por uma atmosfera radicalizada, guiada por amantes de torturadores e fanáticos religiosos.
Os efeitos da exponencial catequização escolar são muito mais evidentes à luz do ambiente escolar do que qualquer outro suposto discurso. Frequentemente, religiões de matriz afrobrasileira são demonizadas; obras da literatura nacional que versam sobre candomblé ou umbanda sofrem uma espécie de Index Librorum Prohibitorum; a facultativa disciplina de Ensino Religioso, que deveria ser plural e aglutinadora do respeito à crença, tornou-se para muitos um palanque de disputa das religiões dominantes por cabeças.
Há pouco tempo, falava-se na remodelação do ensino de História ou até mesmo na supressão do seu conteúdo, restringindo-o ao máximo. A dita preocupação com a ‘doutrinação’ tenta iludir principalmente aqueles assustados com a atual conjuntura do extremismo e da polaridade política no País, sobretudo, oferecendo-lhes uma suposta neutralidade pacificadora. Uma miragem que beira a inocência, especialmente porque o ‘Escola Sem Partido‘ age como um instrumento ideológico de doutrinação ao medir forças com aquilo que elege como ‘problema’. Resta investigar a quem interessa tais medidas. Uma das respostas pode estar presente na bibliografia que o referido grupo insistentemente dissemina, recheada do viés doutrinário que lhes interessa. Em outras palavras, podemos questionar qual o partido do ‘Escola Sem Partido’.
No artigo de Laville, mencionado no início desse texto, o autor cita um trecho do livro do escritor tcheco Milan Kundera denominado ‘O Livro do Riso e do Esquecimento‘ (1978) que, oportunamente, serve para finalizarmos esta reflexão: “Para liquidar os povos, começa-se por lhes tirar a memória. Destroem-se seus livros, sua cultura, sua história. E uma outra pessoa lhes escreve outros livros, lhes dá outra cultura e lhes inventa uma outra História.

* Leonardo Dallacqua de Carvalho é graduado e mestre em História pela UNESP. Atualmente doutorando em História na Fundação Oswaldo Cruz-RJ