Atentado em Orlando levanta três importantes questões
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Atentado em Orlando levanta três importantes questões

Da redação

14 Junho 2016 | 16h18

Isabelle Anchieta*

O atentado em Orlando é mais do que um ato terrorista lastimável e isolado. Implode delicadas questões no debate público e no jogo político às vésperas das eleições presidenciais nos EUA. Se antes esses temas podiam ser negligenciados ou dissimulados, o atentado os une em uma agressiva combinação, tornando-os inevitáveis na pauta dos debates: como lidar com a questão da homossexualidade? Dos imigrantes? Do uso de armas?
Mais do que medidas legais, me parece que o tema perpassa a cultura da violência que paradoxalmente está enraizada no país que se diz símbolo da liberdade. A segregação não só de homossexuais, mas de imigrantes e negros, é fato escandaloso e em descompasso com a ideia de igualdade e liberdade que fizeram, da constituição republicana do país, um marco para todas as revoluções democráticas que se seguiram a 1787.
O país que se orgulha da vanguarda em direitos humanos é o mesmo que autoriza que seus cidadãos portem armas e definam quem merece viver ou não. Esse ‘outro’ em geral é negro, homossexual e imigrante. Dá-se o direito (indireto) de extermínio dos não americanos – legal e moralmente falando. A expressão não é um exagero. Estima-se que o número de pessoas mortas com arma de fogo supere o número total de mortos em todas as guerras que os EUA se envolveu, segundo levantamento do colunista do jornal ‘The New York Times‘, Nicholas Kristof.
Tal esforço do jornalista no levantamento de dados vai na contramão dos interesses do Congresso Americano, que não autoriza a divulgação de dados de mortes com arma de fogo no país. Políticos mobilizados, evidentemente, em defesa de seus patrocinadores de campanha. Pois, como no Brasil, os congressistas funcionam mais como lobistas de empresas do que propriamente como representantes do bem comum…
A despeito da falta de transparência dos órgãos oficiais, estima-se que os EUA esteja entre os cinco países mais desenvolvidos com mais mortes por armas de fogo. Segundo o jornal ‘The Guardian‘, seriam 92 mortes diárias. Uma a cada 16 minutos. Dados que tornam-se perversos se destrinchados. Não só homossexuais, negros e imigrantes são vítimas preferenciais, mas mulheres e crianças. No país, morrem mais crianças menores de 6 anos do que policiais na ativa.
As armas estão por todos os lados. Estima-se que mais de 50% das famílias americanas possuam uma em suas casas. Fato que coloca todos à mercê de um julgamento paralelo. Uma contradição, há muito tempo instalada no ‘modus operandi’ desse país que naturalizou a violência em seus filmes, séries e mesmo na realidade. O que deveria ser alvo de espanto e críticas é tido como aceitável, mesmo divertido. Nos jogos de videogame, matar ‘conta ponto’; os filmes violentos são os que mais têm bilheteria, e a ideia de um atirador que mata um grupo de pessoas é fato recorrente e tido como parte da cultura americana. Misturam-se perigosamente a realidade e a ficção.
Seria o entretenimento o braço mais perverso da manipulação da cultura americana. Uma cultura, diga-se de passagem, exportada como referência para todo o mundo. Aquela que torna a arma um item simbólico comum? Será preciso mais do que leis para repensar o lugar da violência na vida americana. É preciso romper o tabu. É preciso desmascarar as contradições e definir afinal de que lado os americanos estão: do lado dos direitos humanos, da liberdade ou da cultura da violência e do preconceito? Não é possível estar dos dois lados ao mesmo tempo. Essa hipocrisia não pode mais ser levada adiante.

 

isabellepequena * Isabelle Anchieta é doutora em Sociologia pela USP, professora da PUC, recebeu prêmio internacional pela ISA/UNESCO como Jovem Socióloga e distinção acadêmica pela USP. Facebook: Isabelle Anchieta (figura pública). Email: isabelleanchieta@gmail.com

 

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