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Bate-bolas x Reis Congos na abertura da Olimpíada

Da redação

11 Agosto 2016 | 14h30

Isabelle Anchieta*

Muito destacou-se (merecidamente) o desfile de Gisele ao som de Tom Jobim, no compasso das linhas montanhosas de Niemeyer, o voo legitimador do 14-Bis e os inusitados efeitos das imagens tramadas pelos índios. Uma cerimônia que conseguiu ver o Brasil ‘por cima’, sintetizá-lo usando e (simultaneamente) ultrapassando os estereótipos nacionais. Foi simples, mas não foi simplório. Muito pelo contrário, conseguiu ler nossa complexa identidade que amalgama o erudito e o popular – tão bem ilustrada com Paulinho da viola acompanhado pelo conjunto de cordas. Mas para além da nossa pacífica e sofisticada acomodação entre registros opostos, há diferenças que não conseguimos ‘mestiçar’ e eles estiveram, sim, presentes na abertura. Ainda que fique a impressão que só eu tenha me espantando com a presença dos ‘bate-bolas’ – representados em um grupo vestido de vermelho – simulando um conflito com os ‘reis congos’ do Maracatu – de amarelo e branco – acompanhados de alguns dissidentes do grupo vermelho. Na sequência, uma projeção de uma mão gigante elimina o grupo dos ‘bate-bolas’. No microfone, Regina Casé pede: ‘Chega de briga!’ e nos chama para uma festa onde todas as cores se misturam ao som de Jorge Ben.
Em um país em que a cor vermelha passou a ser sinônima de aderir a um partido político e estar com as cores da bandeira representa o combate à corrupção dos representantes no poder, o uso dos ‘bate-bolas’ versus ‘os reis congos’ me soaram algo mais do que uma citação imediata ao carnaval violento e secreto dos subúrbios do Rio em contraste com o Maracatu pernambucano. Tive a imediata impressão que o diretor e roteirista Fernando Meirelles e sua equipe artística (Andrucha Waddinton e Daniela Thomas) burlaram sutilmente a organização, utilizando uma tática própria dos bate-bolas. O que pode ser entendido na forma descrita pela pesquisadora do ritual Maria Antônia Marques Brasil quando diz que eles ‘propõe um discurso onde se mostram verdades que se desejam esconder, e se esconde o que se pensa mostrar’ afirma.
Conhecido como o ‘pesadelo’ do carnaval nos subúrbios do Rio, os ‘bate-bolas’ participam de uma violenta brincadeira de origem inglesa importada pelos portugueses no século XVI para o Brasil. Consiste em vestir-se com uma máscara de palhaço portando bolas feitas de bexigas de boi e porco e, assim, atacar as pessoas nas ruas. Os integrantes são também conhecidos como Clóvis, provavelmente uma adaptação portuguesa à palavra clown (palhaço, em inglês). Terror das crianças, a brincadeira carnavalesca ganhou tons violentos no Rio causando mortes entre grupos rivais a cada ano. No entanto, é bom destacar que não se vestem de vermelho. Não há uma cor típica dos bate-bolas….
Já o Maracatu é ‘made in Brasil’ (no exato sentido), na medida em que é fruto do sincretismo entre as tradições musicais e religiosas africanas, indígenas e portuguesas. Surge no século XVIII, em Pernambuco, ligado às irmandades negras do Rosário, uma espécie de comunidade africana no Brasil que funcionava como centros de apoio e espaço para ‘recriar a identidade’, especialmente por meio do ritual conhecido como Maracatu. Nele os participantes subvertiam a ordem, coroando os reis e rainhas da nação negra, os reis Congos (remetendo-se ao país africano). Restituíam na arte o que o Brasil lhes havia roubado: o poder de sua liberdade.
Um poder que transbordava os limites do ritual. Segundo a pesquisadora do tema, Elizabeth Kiddy, os reis congos eram representantes oficiais das irmandades religiosas e dos quilombos. Com ‘o crescimento da população negra escrava motivado pela descoberta do ouro, nasce o sentimento de ameaça e medo de insurreições entre as autoridades, a partir daí cresce o número de tentativas de banimento das coroações das irmandades.’
Na cerimônia de abertura, ao ‘coroar’ os brasileiros vestidos de amarelo e branco colocando-os no lugar simbólico dos escravos que se tornam reis no ritual do Maracatu, Fernando Meireles e sua equipe igualmente inverteram os jogos de poder. Apontam uma retomada do governo do povo pelo povo. Algo também conhecido pelo nome de ‘democracia participativa’, esquecida desde a suposta redemocratização do País. Mas se a arte tem o poder de recriar a realidade tal qual a imaginamos, quem sabe não estejamos assim apontando um caminho a ser construído?
Caso não esteja recriando algo que imagino ter visto acredito que, sobre a aparência de um ritual carnavalesco não pacificado, a abertura da Olimpíada propõe uma reflexão sobre o Brasil atual e suas verdades que desejamos esconder. Faz emergir – no seio mesmo da festa – a lembrança de que no Brasil há, ainda, muitas mestiçagens a se fazer….

Templates_FacebookOpção*Isabelle Anchieta é doutora em Sociologia pela USP, professora da PUC, recebeu prêmio internacional pela ISA/UNESCO como Jovem Socióloga e distinção acadêmica pela USP. Facebook: Isabelle Anchieta (figura pública). Email: isabelleanchieta@gmail.com

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