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É a crise da humanidade? Um ponto de inflexão?

Da redação

15 Julho 2016 | 20h18

Atacar a França no dia 14 de julho é tentar atropelar simbolicamente o que esse país representou quando propagou as sintéticas (e potentes) ideias de liberdade, igualdade e fraternidade. No sentido de não nos submetermos a nada e ninguém e entendermos os outros como humanos. Individuais, diferentes, mas unidos em nossa humanidade: individumanos. Ainda que com enormes dificuldades, podemos afirmar que a partir do século XVIII uma série de fronteiras foram colocadas em questão. A fronteira racial; entre homens e mulheres; a da opção sexual; entre classes sociais etc. Mas infelizmente vivemos um ponto de inflexão no século XXI, mudando a curva de direção. Os atentados terroristas, o conflito entre negros e brancos nos EUA, a crise migratória na Europa; a saída da Inglaterra da União Europeia e mesmo a polarização política que vivemos no Brasil fazem decrescer a nossa expectativa de fazer valer o sentido mais essencial (e primeiro) do humanismo.
Bom esclarecer que o humanismo não é uma invenção do século XVIII e dos iluministas, mas um entendimento trans-histórico que motivou os mais admiráveis homens e mulheres. Jesus; São Francisco de Assis; Olympe de Gouges; Gandhi; Martin Luther King; Dalai Lama, Madre Teresa de Calcutá; Nelson Mandela; Simone de Beauvoir, dentre outros. Chamados de ‘revolucionários’, eles queriam, no fundo, algo bem simples: o reconhecimento do outro como igual.
Um entendimento tão bem traduzido na frase do poeta inglês John Donne, no século XVII, quando diz: “Nenhum homem é uma ilha; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.
Os sinos estão silenciosos. Vivemos um luto do entendimento da humanidade embalados pela violência de grupos conservadores e radicais. Será preciso reagir, será preciso tocar mais uma vez os sinos e fazer ecoar o desejo de sermos livres, iguais e fraternos. Uma ‘Revolução Comum’, e não mais de um país, alertas ao fato de que o humano não é uma curva ascendente, mas nos convoca a destruições permanente das linhas que nos separam.

isabellepequena* Isabelle Anchieta é doutora em Sociologia pela USP, professora da PUC, recebeu prêmio internacional pela ISA/UNESCO como Jovem Socióloga e distinção acadêmica pela USP. Facebook: Isabelle Anchieta (figura pública). Email: isabelleanchieta@gmail.com