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Lava Jato: espetacularização ou a transparência do mal?

Da redação

04 Outubro 2016 | 15h08

Isabelle Anchieta*

Os políticos corrompidos recorrem, em geral, a uma estratégia narrativa (antiga) ao serem ameaçados: atacam a mídia de manipular a opinião pública e a justiça de espetacularizar o processo. Tentam matar o mensageiro para que não ouçam a mensagem, destacando a forma na tentativa de esconder os fatos. Tentam, assim, confundir espetáculo público com interesse público. No fundo, estão defendendo a manutenção das sombras tranquilas da impunidade. E, ‘não há caminho mais estranho para se chegar à luz da liberdade do que um mergulho nas catacumbas’, já afirmava Roberto Campos.
A ideia da ‘espetacularização’ é também uma forma de ataque típico de grupos conservadores e autoritários, no sentido de sentirem-se ‘autoridade’ no assunto. Tanto que, em geral, é desferida por alguns juristas e comunicadores para ‘conservarem’ seu campo de conhecimento e restringir a atuação de outros membros da Justiça e da divulgação das informações. Tendem, portanto, a atacar (consciente ou inconscientemente) a popularização do seu conhecimento, entendendo-a como uma forma de empobrecimento e concorrência. Assim como os políticos tendem a destacar os erros da forma, do processo, sem avaliar o mérito e os benefícios sociais mais amplos das ações que atacam.
Mas em que medida esse argumento funciona junto à opinião pública? A força dele pode ter origens remontas, na medida que a ideia pejorativa de espetacular transporta resquícios mal resolvidos de uma moral cristã. Me explico: com a chegada da Modernidade e com ela a crise do cristianismo, os espetáculos públicos no século XIX tornam-se fontes ambíguas de prazer e censura. Mulheres cantando em cabarés, a exibição dos corpos, a fala vulgar, a sexualidade são visualidades contraditórias que promovem sentimentos e reações de um público que é, sobretudo, fruto de uma incompleta secularização do mundo social.
Perdida a força moral do que era pecado, este, no entanto, não parou de atuar como gatilho da repulsa social. Os valores de ‘humildade’ e ‘discrição’ tornam-se antagonistas da ideia do ‘espetáculo’, ‘exibição’ e ‘transparência’, preservando assim uma moral cristã mal encoberta no seio mesmo da modernidade.
Aparecer e esconder-se. Resignar-se e desejar o reconhecimento social associam-se (arbitrariamente) a conceitos morais. As pessoas passam a ser julgadas menos e mais sérias, menos ou mais credíveis de acordo com o critério de maior e menor exibição. Maior e menor transparência. Mas a arbitrariedade dessa associação pode ser rapidamente desmontada pelos fatos. Voltemos à Justiça no Brasil. Alguns ministros do STF, orgulhosos de votarem na contramão da opinião pública e sobre a sombra da lei, têm cometido uma série de injustiças e procrastinações. O ex-ministro Palocci, por exemplo, alvo de 19 processos desde 2005, só foi preso recentemente pela atuação coerente e rápida da Operação Lava Jato. Acusados de ‘espetaculares’ eles de fato, estão surpreendendo a todos no País ao promoverem uma Reforma Política (necessária) sem precedentes.
Portanto, o que há em comum entre os alguns políticos, juristas e comunicadores é o fato de compreenderem como indesejável a convocação da participação da opinião pública no acompanhamento dos processos judiciais. Pode até ser, mas o nome disso é democracia. E, em uma democracia, o público, com todos os seus problemas e limitações, é sempre preferível ao privado, ao sombrio, ao que não se pode mostrar, exibir. Já que a transparência só é desejável aos que não temem. Por isso, a pergunta: a Lava Jato é uma forma de espetacularização da Justiça ou estaria apenas nos oferecendo a transparência do mal?
Essa oportunidade única de abrir as cortinas desse grotesco espetáculo da política brasileira, deixando o rei nu e empoderando a população. Se há, portanto, algo de ‘espetacular’ em suas ações é a de fazer a Justiça funcionar e cumprir sua afinidade natural (e desejável) com o interesse público.

Templates_FacebookOpção* Isabelle Anchieta é doutora em Sociologia pela USP, jornalista e mestre em Comunicação Social é também prof(a) da PUC. Recebeu prêmio internacional pela ISA/UNESCO como Jovem Socióloga e distinção acadêmica pela USP. Facebook: Isabelle Anchieta (figura pública). Email: isabelleanchieta@gmail.com

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