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Não sobrará ninguém? Que não sobre!

Da redação

17 Junho 2016 | 16h52

Isabelle Anchieta*

A profecia autorrealizável do delator Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, segue seu curso. Mais um ministro dá adeus prematuro a seu assento. A combinação das delações que se multiplicam, o avanço incontrolável da Lava Jato, a pressão da opinião pública e da mídia parecem implodir um esquema que havia perversamente se naturalizado entre os políticos. Hoje, caem como dominós enfileirados e, ao que tudo indica, nenhum conseguirá se manter por muito tempo de pé se não compreender que o jogo possui novas regras. Ou, melhor dizendo, faz valer as de sempre. Pois aquilo que foi tido como ‘modus operandi’ próprio do mundo paralelo da política é agora deflagrado como o que sempre foi: crime. Furto.
A vítima? Nós, brasileiros, e nosso dinheiro arrecadado por meio de impostos que escravizam quase meio ano do nosso trabalho para ser utilizado para luxos dos nossos representantes e de suas famílias. Para se ter uma ideia, o Ministério Público estima que 200 bilhões (repito: 200 bilhões) são desviados anualmente pela corrupção. Isso equivale a 5% do PIB, o mesmo valor que a União destina para a Educação e para a Saúde anualmente. O valor poderia duplicar os investimentos em uma dessas áreas caso esse dinheiro não fosse desviado por nossos ‘representantes’.
No entanto, me parece desencaixada uma percepção pessimista do País. Avaliaríamos com uma régua antiga, um fato novo. Estamos avançando (como nunca) na extirpação do mal da corrupção e na interrupção de um esquema que segundo o delator existe desde 1946. Uma dolorosa, mas necessária, ‘reforma política’, por assim dizer. Que fecha as portas do mal feito: tanto do lado empresarial, como político. Não sobrará ninguém? Que não sobre! Que sejam novos, outros.
Mas para isso, será preciso mais do que a ‘Lava Jato’, para não repetirmos a experiência do ‘Mãos Limpas’ na Itália. É preciso aprovar medidas legais permanentes no combate à corrupção e que a população continue vigilante. Do contrário, o outro lado novamente se articula. Como já tem feito o deputado Wadih Damous (PT-SP) que tenta propor novas leis à favor da corrupção (como os seus projetos para vedar a colaboração de réus presos e impedir prisão em segundo grau, como autorizado pelo STF). Medidas que tentariam barrar mecanismos que, em grande medida, são os responsáveis pelo avanço da Lava Jato. Evidentemente, terá o apoio da maioria de seus colegas para aprovar tais projetos, caso a população não dê lá os seus gritos.
Já prevendo essa reação e manobra dos políticos, a equipe da Lava Jato mobilizou a população para propor um projeto de lei de iniciativa popular chamado ’10 medidas de combate à corrupção’, evitando, assim, que a Lava Jato torne-se uma experiência isolada e sem efeitos futuros. A boa notícia é que esta semana o projeto das 10 medidas começou a caminhar no Congresso, por meio da formação de uma comissão mista para o avaliar tecnicamente. Diga-se de passagem, o projeto estava há quase 3 meses parado no Câmara e só caminhou em razão da pressão popular nas redes.
Assim, leis rigorosas, associadas à vigilância contínua da população – se orquestradas – tendem a forçar uma renovação não só do quadro de políticos, como incentivará novas práticas públicas. E não há melhor aprendizagem do que medidas exemplares, inegociáveis que definam os limites do que se pode, do que se deseja e do que é crime. É preciso oferecer linhas para essa tela que tornou-se elástica demais. Enrijecer um pouco as cordas em todos os nós dessa teia, sob pena de sermos capturados por sua perversa malemolência. Sobraram poucos, é fato. Mas será somente por meio de um novo começo sem meios termos, jeitinhos e concessões que teremos um país renovado depois dessa crise. Quando, enfim, possamos criar um cenário em que “a governabilidade e anticorrupção caminhem mais próximas”, segundo a boa previsão da cientista política Izabela Corrêa. Incentivando assim a entrada em cena de novos atores sociais, genuinamente interessados em construir um Brasil para os brasileiros.

isabellepequena* Isabelle Anchieta é doutora em Sociologia pela USP, prof(a) da PUC, recebeu prêmio internacional pela ISA/UNESCO como Jovem Socióloga e distinção acadêmica pela USP. Facebook: Isabelle Anchieta (figura pública). Email: isabelleanchieta@gmail.com

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