O círculo vicioso Tupiniquim
As informações e opinões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O círculo vicioso Tupiniquim

Da redação

22 Julho 2016 | 20h39

Isabelle Anchieta*

Escutando uma frase de Marina Silva, recordei outra célebre do delator do mensalão Roberto Jefferson quando indagado no programa ‘Roda Viva’ se ele se considerava um político corrupto. Confesso que fiquei perplexa com a pergunta direta e corajosa da jornalista, e extremamente curiosa para saber como ele sairia daquele constrangimento público. Sem titubear, devolveu outra pergunta: ‘Você já viu água limpa passar em cano sujo?’ Marina Silva, de forma menos pedestre (e a seu estilo), disse algo similar: ‘Não existe árvore boa em ecossistema doente.’
As avaliações vindas de políticos com trajetórias distintas podem ser um importante indicativo do desafio que temos pela frente. Pois, se de fato queremos novos políticos, é preciso antes ou simultaneamente promover uma ampla reforma política (e cultural) capaz de ‘limpar os canos’. Do contrário, o sistema ou a chamada ‘governabilidade’ acaba por favorecer os piores, obrigando os bons a se alinharem às práticas que vão gradualmente naturalizando-se pela repetição.
Práticas que lembram os famosos ‘Círculos Viciosos’ pintados pelo holandês Hieronymus Bosch, no século XVI, atualmente no Museu do Prado, em Madrid. Em cada cena figuras grotescas vão revezando-se como em um espiral que remetem aos círculos do inferno idealizados na literatura pelo italiano Dante Alighieri.

pec-7 (1)

No nosso ‘Círculo Vicioso Tupiniquim’ veríamos, no primeiro: grandes empresários sendo procurados (e procurando) os candidatos para financiarem suas campanhas. Notas e mais notas de dinheiro, tingindo-se das mais diversas e contraditórias cores partidárias, entram em caixas 1,2,3. No segundo círculo, o candidato faz parcerias com outros partidos para ganhar tempo de TV. Aqui também não interessam o projeto das siglas, as belas palavras e intenções, mas os minutos. Eles valem ouro. Ponteiros enormes aceleram relações nada republicanas. No terceiro, o candidato contrata marqueteiros maquiavélicos que contam uma bela história aos ouvidos dos eleitores e destroem moralmente os adversários. São os mestres da narrativa, das palavras, e podem modulá-las para o romance e para o terror. No quarto círculo, vemos parte da população vendendo o seu voto. Ora sendo procurada (ora procurando) os candidatos com contas a pagar. São pessoas de olhos pequenos, que só conseguem enxergar um metro adiante. Elas encontram-se na cena com políticos com olhos enormes que conseguem enxergar longe, de quatro em quatro anos.
Depois de venderem a alma para Deus e para o Diabo, entramos no quinto círculo: os eleitos. Aqueles que conseguiram entrar no mundo da política, atravessando da vida comum a um cenário ‘niemeyrano’, minimalista, meio céu, meio inferno. Quente, sem ar.
No sexto os ‘eleitos’ pagam eternamente pelos seus pecados: aprovam projetos de lei favorecendo os grupos de interesse; indicam aliados para postos estratégicos nas empresas públicas; negociam com colegas e partidos. No sétimo: recebem o ‘pixuleco’ e vão gastar o dinheiro em Paris, sem mais consequências. Depois de quatro anos, retomam ao primeiro círculo….
Enquanto isso, no Brasil nada ‘niemeyrano’, feito de restos de madeira, latões e papelão… 200 bilhões são desviados anualmente por nossos supostos representantes. O equivalente a tudo que gastamos ora com educação, ora com saúde. O que corresponde ao significativo montante de 5% do PIB. O resultado? Escolas, postos de saúde, transportes e estradas precárias. Mortes e mais mortes reais e simbólicas do futuro de um país que podia, sim, ser bem diferente.
Mas eis que o imprevisível aconteceu. A gigante Abapuru resolveu acordar com apetite antropofágico em 2013 e quer comer políticos corruptos. Percebeu, enfim, a correlação entre sua melancólica vida e as práticas desse círculo vicioso. Foi preciso que ‘lavassem a jato’ a sujeira que naturalizava esses seres bizarros. Desfeito o barro que os cobria, os vemos nus. Prontos para serem devorados. Que os devoremos! Mas depois de satisfeito o desejo, matada a fome, será preciso mais. Teremos de desenhar – em conjunto – um novo ‘círculo virtuoso’. Chamada por uns de ‘reforma política’, ela, no entanto, não pode acontecer sem os seus principais artífices: o povo e a Justiça. Eles, sim, os responsáveis por uma revolução cultural que se acelera no descompasso do entendimento dos políticos e de seu mundo. Mal sabem eles dos riscos de manterem o velho desenho diante de uma Abapuru irreversivelmente desperta e faminta…


isabellepequena* Isabelle Anchieta é doutora em Sociologia pela USP, professora da PUC, recebeu prêmio internacional pela ISA/UNESCO como Jovem Socióloga e distinção acadêmica pela USP. Facebook: Isabelle Anchieta (figura pública). Email: isabelleanchieta@gmail.com

Mais conteúdo sobre:

CorrupçãoReforma política
0 Comentários