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O dilema de dezembro

Da redação

01 Janeiro 2017 | 12h32

Rafael Baliardo*

Ao longo dessa semana, os judeus comemoram a Festa de Chanucá (pronuncia-se “ranucá”), que, este ano, com uma forte conotação de ironia, iniciou justo na fatídica noite de 24 de dezembro. São oito noites de celebração nas quais o folclore preceitua que se acendam velas no característico candelabro de nove braços. Embora seja considerada uma data secundária no fecundo calendário judaico, sua importância cresceu no século 20 também como forma de fazer frente à festa-base do Ocidente capitalista, o Natal, e como meio de reafirmação do estabelecimento do Estado contemporâneo de Israel.

A ironia com o presente está no fato de comemorar-se na Chanucá justamente um movimento de resistência à assimilação cultural imposta aos judeus da Palestina do século 2 antes de Cristo (ou antes da Era Comum na terminologia judaica). Mais de vinte séculos depois, a festa inspirada naqueles acontecimentos assumiria, mais ou menos, contornos de trincheira cultural.
No contexto histórico por trás da data está a fragmentação do Império de Alexandre, o Grande. Após sua morte em 323 a.C., seus generais fracionaram o território até ali unificado sob domínio do líder macedônico, estabelecendo reinos que nada mais eram do que Estados helênicos. Um desses impérios, a dinastia selêucida, fundada pelo oficial Seleuco e cujo centro político era a região correspondente à atual Síria, manteve o controle sobre parte da terra de Israel. Sob jurisdição dos selêucidas, a aristocracia política e religiosa local assumiu gradualmente os estrangeirismos cosmopolitas gregos. Esses judeus “helenizados” aspiravam transformar Jerusalém em uma imitação de polis grega.
Camadas mais conservadoras e humildes da sociedade resistiram, contudo, ao processo de aculturação, até que a tensão social irrompesse na Revolta dos Macabeus (do hebraico makabim, “martelos”), grupo de guerrilha liderado por Yehudá HaMakabi, Judas Macabeu, que aos poucos reimpôs a religião de Israel, reconquistando a autonomia política ao longo de uma série de ataques e batalhas com o exército sírio-helênico.
A bem da verdade, a Chanucá, a Festa das Luzes, começou a se transmutar em contraponto judaico ao Natal primeiro nos Estados Unidos, com o sincretismo de costumes seculares e distendendo assim o que, naquele país, é também referido como o “dilema de dezembro”. O arbusto de Chanucá (Hannukah bush), espectro da árvore de natal sem adereços natalinos, é um expediente ainda polêmico junto às comunidades judaico-americanas. A título de exemplo, a situação das famílias de origem judaica frente aos símbolos de uma sociedade majoritariamente cristã foi tratada pela escritora Susan Sussman na narrativa infanto-juvenil “There’s No Such Thing as a Chanukah Bush, Sandy Goldstein” (Não existe algo como um arbusto de Chanucá, Sandy Goldenstein), de 1983.
Eis a ironia histórica de a festa inspirada na resistência dos antigos macabeus ser hoje, a um só tempo, dique e canal para a cultura judaica em relação a maior das datas do Ocidente cristão e sua mística esmagadora. É desnecessário lembrar aqui que o próprio Natal é um amalgama de tradições pagãs agregadas à tipologia do cristianismo.
Em Israel, a Festa das Luzes tornou-se um feriado longo, com escolas fechadas por oito dias e com festividades e decoração incorporadas à paisagem de inverno do país. No Brasil, onde a cultura nacional é mais homogênea e a influência judaica menos destacada, a Festa de Chanucá ainda é amplamente desconhecida além de uma curiosidade cultural. Ano passado, em Porto Alegre, o rabino Mendel Liberow acendeu pela primeira vez, ao ar livre, um candelabro chanukia gigante, com cuias de chimarrão posicionadas como castiçais, a “chanecuia”.
No choque entre culturas em escala global e com a imigração sempre em pauta, vale destacar o ideal filosófico de que se sentir parte de uma cultura, influenciado por ela ou agente da mesma não poderia, no fundo, ser algo além de um desacerto dos sentidos. Mas, pondo esse idealismo quase místico à parte, a cultura é, sim, uma produção abstrata, resultado do conjunto de atividades individuais, mas que existe apenas na dimensão da coletividade, embora dependa dessa torrente de ações particulares, coordenadas em diferentes níveis e aspectos para existir. Chag Sameach, feliz Chanucá!

* Rafael Baliardo é jornalista